As famílias brasileiras estão preocupadas com o futuro, para dizer o mínimo. A evidência não está apenas no ritmo de recuperação da atividade econômica. A inflação também mostra que o consumidor está cauteloso e sumido dos supermercados e das empresas que prestam serviços.  O IBGE revelou o IPCA de agosto, que registrou uma deflação de 0,09%, sinalizando que os preços fizeram movimento de volta depois do estouro provocado pela greve dos caminhoneiros, mas passaram a marca original.

Mesmo para quem gosta de ver a inflação em baixa, é melhor não se empolgar com a deflação do mês passado. Ela foi pontual e não deve mais se repetir pelo menos até o final do ano. O culpado é o dólar que mudou de patamar, permanecendo acima dos R$ 4,00 e apontando para cima, e seus efeitos sobre os preços internos deverão ficar mais fortes a partir de agora. A primeira pressão da moeda americana foi absorvida pelo lento ritmo da retomada econômica. Agora não será mais possível segurar.

Pode parecer um contrassenso depois da baixíssima inflação de agosto, mas muitos economistas já estão revendo para cima a expectativa para o IPCA de 2018. Nada que deva estourar a meta de 4,5%, mas um ambiente de maior pressão. A proximidade com as eleições tende a empurrar o dólar para cima e os consumidores para longe das compras e da procura por serviços, mas este movimento dificilmente será capaz de evitar choque nos preços.

A Petrobras anunciou uma nova política de preços que tenta aliviar o repasse dos movimentos internacionais para o mercado doméstico. Aplicando um instrumento de hedge, ou proteção, a estatal pretende evitar o sobe e desce diário dos preços. Isto pode parecer bom para os consumidores, desde que as distribuidoras e postos não se aproveitem para aumentar a margem do negócio às custas dos clientes. Para a companhia, pode não ser um problema, desde que seja mantida a transparência, a seriedade na gestão, e a força da blindagem contra intervenção política. Até que chegue um novo governante…

Os combustíveis são itens importantes na cesta de consumo dos brasileiros. Assim como a energia elétrica, o gás, a água – todos com alta nas tarifas bem acima da inflação medida pelo IPCA. A compensação tem vindo pelos alimentos que têm caído constantemente nos últimos anos. Para a surpresa de quem acompanha o processo inflacionário brasileiros, os preços dos serviços também apresentaram deflação de 0,15% em agosto. Logo eles que rodaram na casa dos 9% durante quase uma década até meados de 2016.

O Banco Central olha para todo este quadro e fica com os dedos no pulso da economia brasileira. Batimento fraco, demanda juros baixos. Como ele não tem nada a fazer para evitar os reajustes dos preços monitorados, bem acima da inflação este ano, ele está atento à intensidade do repasse da alta do dólar no mercado. No passado, ele era bem rápido, sem piedade. Atualmente, com país saindo de um recessão, com desemprego elevadíssimo e um PIBinho tímido, como vai se comportar a moeda do Tio Sam?

O gatilho para elevar os juros está sempre pronto. A sintonia entre o pulso da economia brasileira e a capacidade de importadores da indústria e do comércio de segurarem para si a alta do dólar, aconteceu sem interferência do BC até agora. Daqui para frente pode ficar mais difícil. Não acontecendo uma revolução negativa nas eleições de outubro, podemos virar o ano com juros de 6,5% a.a. – o que pode ajudar na retomada da atividade. Acontecendo uma revolução, os juros serão problema pequeno para o Brasil.

Thais Heredia

Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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