Olhar a tela dos mercados nos últimos dias não tem sido nada agradável. A tela toda vermelha, ativos financeiros derretendo, inseguranças aumentando e a certeza de que tudo sempre pode piorar. Nesta quinta-feira, 07 de maio, o Ibovespa voltou ao patamar dos 71 mil pontos durante o dia, numa queda que chegou a 6%. O câmbio atravessou mais uma barreira psicológica, passando dos R$ 3,90.

Com tantas perguntas a serem respondidas, tem uma que se destaca diante deste caos. O que vai fazer o Banco Central com a taxa de juros? Com o tempo passando mais rápido do que nunca, já estamos a duas semanas da próxima reunião do Copom! Parece que foi ontem aquela última em que os diretores do BC decidiram manter a taxa básica em 6,5% ao ano, depois de ter sinalizado que faria uma nova redução.

Sem falar oficialmente o presidente do BC, Ilan Goldfajn, escolheu um canal já conhecido do mercado e, por isso mesmo, questionado. Um artigo no jornal Valor Econômico estampou o título: BC não vai subir os juros (por causa do câmbio). O dia já começou assim…E ninguém deu bola para o recado atravessado da autoridade monetária. O dólar subiu fortemente e os juros no mercado futuro também, indicando que uma elevação da Selic é mais do que esperada pelos investidores, é praticamente uma demanda!

Se tem uma coisa que Ilan Goldfajn fez bem depois que assumiu o BC, há pouco mais de dois anos, foi melhorar a comunicação com o mercado. A ponto de dizer com todas as letras o que pretendia fazer com juros nas tão esperadas e fechadas reuniões do Copom. Ilan, experiente banqueiro central e também executivo do mercado financeiro, sabia que precisava ter uma relação franca e direta com investidores e agentes econômicos para conseguir reverter a perda de credibilidade do BC nos anos anteriores. E com isso, claro, reforçar a convergência da inflação à meta – e ele conseguiu!

Como diz o ditado, é quando a maré baixa que vemos quem está sem calção. A maré vinha baixando nos últimos meses e já no último Copom o mercado desconfiou que Ilan poderia estar desprevenido debaixo d’água. Houve ruído na comunicação e a decisão de manter os juros em 6,5% deixou muita gente descoberta na praia. Com a paralização dos caminhoneiros e o tsunami de eventos que atingiu o Brasil fez a maré secar rapidamente.

Com pragmatismo exigido pela profissão, os investidores questionam agora se o BC não tem que elevar já a taxa de juros para conter a sangria pelo câmbio e pela venda de títulos públicos. Olhando para o livro-texto da política monetária e seguindo a sinalização dada pela gestão de Ilan Goldfajn, cabe o argumento de que, mesmo com todo o estresse recente, a inflação continua baixa e o PIB…bem, esse já estava fraco e não demonstra força suficiente para se recuperar neste cenário.

O recado atravessado do artigo do Valor Econômico – de que o BC não vai subir a Selic por causa do dólar – revelou o que o mercado preferia não ver: Ilan Goldfajn exposto na maré baixa. Faltam apenas duas semanas para o próximo Copom. Depois do que vimos nos últimos quinze dias, esse prazo tão curto pode ser uma eternidade com muitas batalhas pelo caminho. Até lá, tudo indica que as telas do mercado financeiro vão continuar avermelhadas, gerando histeria e mais insegurança no país. O risco é surgir uma onda tão grande que derrube quem parecia estar com os pés firmes na areia.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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