• Reduzimos nossa projeção de IPCA de 3,6% para 2,3% para 2020. Para 2021 a projeção foi reduzida de 3,3% para 3,2%.
  • A queda nas projeções de inflação deve-se à reavaliação do cenário para atividade econômica, no qual estamos projetando um recuo do PIB de – 3,2% para 2020 devido aos efeitos deletérios do surto de Coronavírus.
  • A expectativa de menor ritmo de atividade foi o fator determinante para a revisão da projeção. Também contribuíram para a revisão baixista o arrefecimento no preço de commodities.

Inflação para março/abril

Projetamos IPCA de 0,08% em março e 0,1% em abril. Ao longo das próximas semanas o IPCA deve sofrer uma pressão baixista puxada pelo grupo de Transportes. A Petrobrás reduziu o preço da gasolina e do diesel, em suas refinarias, em 25% e 7% desde o dia 16 de março (final do período de coleta do IPCA-15). Isso significa que teremos uma nova redução no preço dos combustíveis, desta vez maior que a variação de -1,18% registrada pelo IPCA-15 de março.

A queda no preço cobrado nas refinarias leva cerca de 3 semanas para ser repassada ao consumidor, em média. Isso significa que ao longo das próximas semanas o subgrupo Combustíveis deve apresentar uma deflação entre 5%-6%, implicando em um efeito deflacionário de 0,3 ponto percentual no IPCA cheio (distribuídos ao longo da segunda quinzena de março até a primeira quinzena de abril).

Devido ao surto de Coronavírus, o IBGE suspendeu a coleta de preços presencial referente ao IPCA e IPCA-15. O IBGE anunciou que está estudando alternativas para as estas coletas de forma que é difícil saber como será divulgado o IPCA nos próximos meses. As projeções feitas aqui ignoram esse problema de coleta.

Projeção para 2020 e 2021

Com a contração do PIB ao redor de 3% este ano, a taxa de desemprego deve encerrar o ano próxima a 14,0% (taxa dessazonalizada), o que significa um aumento de 2,3 pontos percentuais em relação à que vigorou em dezembro de 2019, que foi de 11,7%. Como um dos efeitos colaterais da redução na atividade econômica, principalmente ao longo do segundo trimestre, projetamos queda nos preços livres com redução da inflação de serviços e na média dos núcleos nos próximos trimestres.

IPCA Preços Livres, % interanual

A projeção é baseada em uma taxa de câmbio de R$/US$ 5 até o fim do ano.

Para o preço de commodities, supusemos um retorno lento no segundo semestre, alcançando preços um pouco abaixo do nível médio apresentado no último trimestre de 2019. Dentre as todas as commodities, o petróleo foi quem mais sofreu queda de preço desde o início do ano.  Além da redução da demanda global devido ao Coronavírus, a guerra de preços entre Arábia Saudita e Rússia contribuiu para a queda nos preços. A redução de aproximadamente 60% nos preços do petróleo desde o início do ano significará choque deflacionário no mundo e no Brasil.

Brent,US$ e WTI, US$

Contudo, entendemos que ao longo do segundo semestre a recuperação da demanda global deve se traduzir em preços acima dos níveis atuais. Além disso, não é claro que a decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção pode se estender por muito tempo. Do ponto de vista puramente econômico, a queda no preço do barril é ruim tanto para os russos quanto para os sauditas. Dessa forma, o aumento da oferta deverá perdurar até que um novo acordo seja alcançado na OPEP+ conduzindo a um novo equilíbrio onde os dois países saião em melhores condições econômicas. Contudo, essas decisões permeiam não só a esfera econômica, mas também política, de forma que carregam alto grau de incerteza.

Mesmo com a apreciação do dólar de cerca de 10% em março, a redução nos preços de commodities mais que compensou a perda de valor da moeda doméstica gerando um efeito líquido deflacionário. Sendo assim, nossa projeção de inflação trabalha com um cenário de queda significativa no Índice de commodities do Banco Central (IC-BR) e manutenção em nível abaixo da média do último trimestre de 2019 até o fim do ano.

Índice de Commodities - CRB (Ex-Energy) e Índice de Commodities - CRB Metals

Diante de quedas na atividade econômica doméstica e global com reduções nos preços de commodities, diminuímos nossa projeção de IPCA de 3,6% para 2,3% para 2020. Para 2021 a projeção foi reduzida de 3,3% para 3,2%.

IPCA, % interanual (fim de período)

As projeções descritas aqui tomam como dado um cenário doméstico onde o pico de contaminação do Coronavírus é atingido sete semanas após o centésimo caso. A partir da primeira semana de maio a atividade começa a retomar normalidade e a economia apresenta uma recuperação em forma de U. Ou seja, a taxa de crescimento retorna mais lentamente ao nível médio de crescimento anterior à crise, porém há uma perda de produto em relação ao estado inicial. O resultado desse cenário é uma contração do PIB de 3,2% em 2020, desemprego encerrando o ano em 14,3% e IPCA de 2,3%.

Equipe Macro

José Márcio Camargo
Tiago Tristão
Eduardo Ferman

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Publicado por Tiago Tristão

Doutor em economia pela PUC-RJ é analista de atividade econômica na Genial Investimentos.

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