• A disseminação do Coronavírus no Brasil alterou drasticamente o cenário econômico. Com a política pública de isolamento e confinamento generalizado da população, a atividade econômica será severamente afetada e as projeções feitas até o início de janeiro perderam sentido.
  • Revisamos nossas projeções de atividade econômica frente ao surto de Coronavírus. Nosso cenário base é de um recuo do PIB de 3,2% em 2020 com taxa de desempregando encerrando o ano em 14,3%.
  • Traçamos três cenários distintos que dependem da evolução do surto do Coronavírus no Brasil (otimista, base e pessimista). As estimativas indicam que em um cenário pessimista onde a curva de infectados evolui de maneira mais extrema do que a média europeia, o PIB deste ano pode contrair até 7,7%.

Devido ao surto de coronavírus, atualizamos nossas projeções de PIB e desemprego para este ano e 2021. Dada a alta incerteza inerente ao momento atual os exercícios de projeção tornam-se menos precisos pois a evolução da atividade vai depender fundamentalmente da duração da política pública de confinamento.

Projetamos três cenários; básico, pessimista e otimista. Todos eles dependem da evolução da disseminação de coronavírus no Brasil. Com o surto da doença, o país tem implementado política de confinamento para conter a disseminação do vírus. Essa política pública tem implicações econômicas severas pois o confinamento total, como tem sido adotado, resulta em interrupção imediata da atividade econômica.

A epidemia afeta a oferta e demanda agregada implicando perda de produção. Como reação ao vírus, as pessoas diminuem a oferta de trabalho (efeito negativo na oferta) e o consumo (efeito negativo na demanda) para evitar a exposição ao vírus. Dependendo da magnitude desse choque, o efeito na produção pode ser grande e persistente.

A retomada da atividade está ligada à diminuição na taxa de disseminação do vírus. Dados econômicos diários da economia chinesa indicam que a retomada da atividade deve ocorrer no momento em que a disseminação do vírus perde força e a taxa de crescimento de infectados se aproxima de zero.

Como o Brasil ainda está em um estágio inicial de disseminação, os impactos econômicos do surto ainda estão em estágio inicial. No momento que este relatório está sendo divulgado, o Brasil está no décimo primeiro dia após o centésimo caso de contaminação. A figura abaixo mostra a evolução da curva de contaminação do Brasil em relação a de alguns outros países. O Brasil está seguindo a trajetória da média da Europa, porém em estágio ainda inicial (cerca de duas semanas de atraso do que vemos hoje na Europa).

Evolução Casos COVID-19
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da Organização Mundial da Saúde.

Cenário Otimista: o pico de contaminação do vírus é atingido na segunda metade de abril (em 5 semanas após o centésimo caso). A partir da metade de abril a atividade volta rapidamente ao normal e a economia apresenta uma recuperação em forma de V. Isso significa que a taxa de crescimento retorna rapidamente ao nível médio anterior à crise e o nível de produto é recuperado.

Cenário Base: o pico de contaminação do vírus é atingido na primeira semana de maio (em 7 semanas após o centésimo caso). A partir da primeira semana de maio a atividade começa a retomar normalidade e a economia apresenta uma recuperação em forma de U. ou seja, a taxa de crescimento retorna mais lentamente ao nível médio de crescimento anterior à crise, porém há uma perda de produto em relação ao estado inicial.

Cenário Pessimista: o pico de contaminação do vírus é atingido na última quinzena de maio (em 10 semanas após o centésimo caso). A partir de junho a atividade retorna lentamente e com perda de capacidade de produção (muitas falências). Neste caso há uma perda permanente de produto e menor PIB potencial devido à destruição de capital físico e menor emprego de capital humano (devido às falências).

As curvas de contaminação do coronavírus para os três cenários encontra-se abaixo. A curva verde refere-se ao cenário OTIMISTA no qual o Brasil estabiliza o número de infectados por volta do quadragésimo dia após o centésimo caso. Esse cenário supõe que a evolução da doença no Brasil seguirá uma trajetória semelhante ao observado na Coréia do Sul.

Evolução Casos COVID-19 no Brasil

A curva azul refere-se ao cenário BASE no qual o Brasil estabiliza o número de infectados por volta do quinquagésimo dia após o centésimo caso. Esse cenário supõe que a evolução da doença no Brasil seguirá uma trajetória semelhante à média da Europa.

A curva vermelha refere-se ao cenário PESSIMISTA no qual o Brasil estabiliza o número de infectados por volta do septuagésimo dia após o centésimo caso. Esse cenário supõe que a evolução da doença no Brasil seguirá uma trajetória um pouco pior que a da Itália, ou seja, com uma taxa de contaminação decrescendo mais lentamente do que temos observado na Itália recentemente. Esse é um caso extremo onde o número total de infectados chega ao redor de 10 milhões de pessoas.

Os resultados das projeções são apresentados na tabela abaixo. As projeções das taxas de desemprego são referentes à taxa dessazonalizada. Atualmente, o desemprego livre de fatores sazonais está em 11,7%.

Sob o cenário base, projetamos uma evolução de infecção do vírus semelhante ao que vemos hoje na Europa. Nesse cenário base, o pico de contaminação do vírus é atingido entre o final de abril e início de maio. Sob políticas públicas amplas de confinamento durante cerca de quatro semanas, projetamos uma contração de 3,2% do PIB com taxa de desempregando encerrando o ano em 14,3%.

O cenário base indica que o maior impacto do Coronavírus será no segundo trimestre. O primeiro trimestre é atingido, mas os efeitos negativos se concentram apenas na última quinzena de março. Em abril ocorre o pico da curva de contaminação e com isso as políticas públicas de confinamento/isolamento impactam mais severamente a atividade econômica.

PIB 2020 Variação interanual

No terceiro trimestre a atividade retorna quase ao nível anterior da crise e, no último trimestre, a atividade converge para a taxa de crescimento do primeiro bimestre. A figura acima mostra a evolução da variação do PIB em relação ao mesmo trimestre do ano anterior para 2020. No primeiro trimestre esperamos uma redução de cerca de 1,3% no interanual (cerca de -2,2% qoq dessazonalizado) que se intensifica para uma queda de entre de 12%no segundo trimestre (cerca de -9% qoq dessazonalizado). A recuperação deve começar no terceiro trimestre e encerrar o ano com crescimento de cerca de 1,1% no interanual (2% qoq dessazonalizado).

Medidas Anunciadas

Até agora várias medidas foram anunciadas para minimizar o impacto econômico do vírus. As medidas anunciadas até agora ajudarão a estabilizar o emprego e renda, mas não são capazes de impulsionar a atividade a ponto de evitar queda do PIB. Sob a política pública de confinamento, várias transações econômicas deixarão de ocorrer e implicarão perda permanente de produto.

As medidas foram tomadas em três frentes: Ministério da Economia, BNDES e Banco Central, com objetivos distintos, além das adotadas pelo Ministério da Saúde, claro.

O Ministério da Economia anunciou uma série de medidas totalizando R$ 185 até o momento. Deste valor, cerca de 60% são antecipação de programas de transferências de renda e linhas de transferência adicionais. Essas medidas de antecipação de transferência de renda vão no caminho correto e auxiliarão as famílias a suavizar o consumo durante o ano. Outros 35% são direcionados para manutenção do emprego via ajuda financeira e tributária para empresas. Por fim, cerca de 5% será gasto com saúde diretamente no combate ao vírus.

O BNDES anunciou medidas que totalizam R$ 35 bilhões para reforçar o caixa de empresas e amenizar o impacto econômico do Coronavírus. Entre as medidas estão a suspensão de amortização de empréstimos diretos e indiretos concedidos pelo banco e ampliação de crédito para micro e pequenas empresas. Adicionalmente, o banco transferiu R$ 20 bilhões do PIS-PASEP para o fundo do FGTS de modo a possibilitar saques do fundo e assegurar renda adicional aos trabalhadores formais.

Por último, o Banco Central anunciou uma série de medidas com objetivo de prover liquidez ao mercado financeiro totalizando cerca de R$ 480 bilhões. Todas elas vão na direção correta de injetar liquidez em um mercado abalado por alta aversão ao risco e busca por cash.

As medidas vão desde a redução de compulsório, instrumento tradicional de política monetária, até empréstimos ao sistema financeiro garantidos por debêntures. Esta última, vai na mesma direção dos programas de liquidez anunciados pelos Bancos Centrais de países desenvolvidos, como o TLTROs do Banco Central Europeu e o CPFF do Fed, nos quais o objetivo é evitar o “empoçamento” da liquidez no balanço dos bancos. Medidas adicionais, com potencial de injetar mais R$ 740 bilhões, estão sendo elaboradas pela autoridade monetária e podem ser anunciadas nos próximos dias.

Todas as medidas anunciadas são positivas e devem auxiliar a sobrevivência das empresas e a proteção do emprego. Elas vão atenuar o impacto do vírus, mas não são capazes de reverter a queda na atividade.

É importante enfatizar que se a estratégia de confinamento for revertida, os cenários teriam que ser revistos. Porém, neste caso, torna-se ainda mais difícil prever a evolução do contagio e como a sociedade reagiria caso a contaminação evolua de maneira mais acentuada.

Adicionalmente, novas medidas econômicas podem ser anunciadas ao longo das próximas semanas, o que pode afetar a magnitude e duração do efeito do vírus sobre a atividade.

Equipe Macro

José Márcio Camargo
Tiago Tristão
Eduardo Ferman

Abra sua conta na Genial Investimentos!

Publicado por Tiago Tristão

Doutor em economia pela PUC-RJ é analista de atividade econômica na Genial Investimentos.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *