Os resultados do 1º turno das eleições trouxeram grandes surpresas. O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, atingiu mais de 46% dos votos válidos e ficou a menos de 4 pontos porcentuais de se tornar presidente já em 7 de outubro.

Dos 147 milhões de brasileiros aptos a votar, 80% compareceram às urnas. Dentre estes, 9% votaram em branco ou nulo. Assim, os votos válidos somaram 107 milhões. Jair Bolsonaro obteve 49 milhões de votos, ou 46%, ficando a pouco mais de 4 milhões de votos de uma vitória em 1º turno. Os resultados, detalhados abaixo, vieram alinhados com a pesquisa de boca de urna do Ibope, que apontou Bolsonaro com 45% dos votos e Fernando Haddad com 28%.

CANDIDATO RESULTADO NÚMERO DE VOTOS
Jair Bolsonaro (PSL) 46% 49 milhões
Fernando Haddad (PT) 29% 31 milhões
Ciro Gomes (PDT) 12% 13 milhões
Geraldo Alckmin (PSDB) 5% 5 milhões
João Amoedo (NOVO) 3% 3 milhões

O desafio de Haddad é imenso. Ele precisaria conquistar 100% dos votos obtidos por Ciro Gomes e Geraldo Alckmin para atingir o patamar alcançado por Jair Bolsonaro no 1º turno. A última pesquisa do instituto Datafolha, realizada antes das eleições, mostrou que 67% dos eleitores de Ciro votariam em Haddad e 14%, em Bolsonaro no 2º turno. Já entre os eleitores de Alckmin, 45% votariam no petista e 32%, no candidato do PSL. Além disso, 51% dos eleitores de Amoedo – o quinto colocado na corrida presidencial – optariam pelo voto em Bolsonaro, enquanto somente 21% escolheriam o candidato do PT. Em suma, a matemática do voto no 2º turno é bastante desfavorável a Fernando Haddad.

A abstenção continuou em leve trajetória de alta: 18% em 2010, 19% em 2014 e 20% em 2018. Não é possível obter dados da abstenção por segmentos de renda e escolaridade, mas é possível observar a evolução nas regiões. No Sudeste, a abstenção foi de 22% e, no Centro-Oeste, foi de 21%, enquanto no Nordeste, foi pouco inferior a 19%. A abstenção menor nessa região jogou a favor do candidato do PT.

No 2º turno, a abstenção costuma ser levemente mais alta. Assim foi em 2014, por exemplo: a abstenção foi de 19% no 1º turno para 21% no 2º turno. Há um fato que pode prejudicar especialmente o candidato do PT nessa eleição: na maior parte dos Estados da região Nordeste, a eleição para governador foi encerrada nesse domingo. O PT terá que trabalhar bastante para conseguir que esses eleitores compareçam às urnas no 2º turno na mesma proporção que o fizeram no 1º turno.

Bolsonaro tem outra vantagem importante: o candidato conquistou o voto da região Sudeste. No Rio de Janeiro, ele atingiu 60% dos votos; em São Paulo, 53%; em Minas Gerais, 48%. É muito improvável que um candidato consiga se eleger sem o apoio da região Sudeste, que abrange 42% do eleitorado. Além disso, o candidato do PSL tem vantagem confortável no Sul e no Centro-Oeste.

Em resumo, Bolsonaro parte para o 2º turno como favorito. É sempre prudente acompanhar o decorrer da campanha, mas não há como não afirmar que a vantagem é do candidato do PSL.

A eleição de Bolsonaro viria na sequência de uma eleição na qual a rejeição do eleitorado à classe política foi a principal mensagem desse 1º turno. A combinação de desemprego e operação Lava Jato levou o desgaste da classe política ao auge. Em Estados como Minas Gerais e Rio Janeiro, candidatos sem nenhuma atuação política saíram à frente na eleição estadual. Romeu Zema (NOVO) em Minas Gerais e o juiz Wilson Witzel (PSC) no Rio de Janeiro partem como favoritos para o 2º turno em seus respectivos Estados.

O PT e seus aliados na esquerda conseguiram um desempenho bastante positivo na região Nordeste: conquistaram 7 dos 9 governos estaduais em 1º turno e são favoritos para a eleição nos 2 Estados restantes no 2º turno. Nas demais regiões do País, no entanto, a esquerda saiu bastante enfraquecida.

O PSDB não conseguiu eleger nenhum governador e terá dificuldades em São Paulo e Minas Gerais no 2º turno. A situação dos tucanos é mais confortável somente no Rio Grande do Sul.

Estado Governador eleito Partido
Maranhão Flávio Dino PCdoB
Piauí Wellington Dias PT
Ceará Camilo Santana PT
Bahia Rui Costa PT
Pernambuco Paulo Câmara PSB
Paraíba João Azevedo PSB
Alagoas Renan Filho MDB
Tocantins Mauro Carlesse PHS
Acre Gladson Cameli PP
Mato Grosso Mauro Mendes DEM
Goiás Ronaldo Caiado DEM
Paraná Ratinho Júnior PSD
Espírito Santo Renato Casagrande PSB

Em relação à Câmara dos Deputados, uma primeira previsão aponta o PT como o maior partido da casa, com 57 deputados, seguido de perto pelo PSL, com 52. O MDB, o PP, o PR e o PSD devem eleger entre 30 e 35 deputados cada um. O PSDB perdeu quase metade de sua bancada: foi de 50 para 29 deputados. O desempenho do PSL é surpreendente. O que já se sabe é que haverá a maior fragmentação partidária da história, com os principais líderes dos partidos bastante enfraquecidos.

No Senado, somente oito senadores conseguiram se reeleger, dentre eles, Renan Calheiros, Jader Barbalho e Ciro Nogueira. Não conseguiram se reeleger 23 senadores, como Eunício Oliveira, Romero Jucá e Cássio Cunha Lima. Também não conseguiram se eleger César Maia, Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy. O Senado também será o mais fragmentado da história: a maior bancada será do MDB, com somente 11 senadores.

Ao contrário das previsões, a renovação no Congresso foi elevada, o que implicou também em maior fragmentação.

Como se pode depreender, a governabilidade será tarefa difícil, independentemente do presidente eleito. A forma de atuação do governo no Congresso, por meio do apoio de lideranças partidárias e das mesas diretoras das duas casas, sofrerá alterações. A eleição de um Parlamento mais conservador, embora mais fragmentado, pode ser um pequeno alívio para Bolsonaro. A esquerda, por sua vez, conseguiu preservar sua representação, o que reduz a margem de Bolsonaro para fechar alianças. Com a derrota das lideranças políticas mais experientes, é prematura qualquer previsão nesse momento sobre como será construída a maioria parlamentar do novo presidente. A obtenção de uma votação popular expressiva no 2º turno pode ajudá-lo nessa tarefa.

Ribamar Rambourg
Coordenador de Análise Política da Genial Investimentos

DECLARAÇÕES GERAIS

Este relatório foi produzido pela Genial Investimentos C.V. S.A (“Genial Investimentos”) e não pode ser reproduzido ou redistribuído para qualquer outra pessoa, no todo ou em parte, para qualquer propósito, sem o prévio consentimento por escrito da Genial Investimentos. A Genial Investimentos não se responsabilizará pelas ações de terceiros a esse respeito.

Este relatório não leva em consideração os objetivos específicos de investimento, situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer indivíduo em especial, mesmo quando enviado a um único destinatário. Nem a Genial Investimentos nem qualquer um de seus conselheiros, diretores, funcionários ou representantes terá qualquer responsabilidade decorrente de qualquer erro, imprecisão ou imperfeição de fato ou opinião contida neste relatório, ou será responsabilizado por quaisquer perdas ou danos que possam surgir a partir da sua utilização. Nenhuma garantia expressa ou implícita é fornecida em relação à exatidão, integridade ou confiabilidade das informações aqui contidas, exceto com relação às informações relativas à Genial Investimentos, suas subsidiárias e afiliadas. Em todos os casos, os investidores deverão realizar sua própria investigação e análise de tais informações antes de tomar ou deixar de tomar qualquer ação em relação a títulos ou mercados.

A Genial Investimentos não faz declarações neste documento de que os investidores vão obter lucros. A Genial Investimentos não vai compartilhar com os investidores os lucros de investimento, nem aceita qualquer responsabilidade por eventuais perdas de investimento. Os investimentos envolvem riscos e os investidores devem exercer prudência na tomada de suas decisões de investimento. A Genial Investimentos não aceita deveres fiduciários em nome dos destinatários deste relatório. Este relatório não deve ser considerado como substituto para o exercício de julgamento independente do destinatário. As opiniões, estimativas e projeções aqui expressas refletem a opinião atual do analista responsável pelo conteúdo deste relatório a partir da data em que foi emitido e são, portanto, sujeitas a mudanças sem aviso prévio e podem diferir ou ser contrárias a opiniões expressas por outras áreas de negócios da Genial Investimentos, como resultado da utilização de diferentes critérios e hipóteses. As informações, opiniões e recomendações contidas neste relatório não constituem e não devem ser interpretadas como uma promessa ou garantia de um retorno especial em qualquer investimento.

A Genial Investimentos poderá contar com barreiras de informação, tais como “chinese walls”, para controlar o fluxo de informações dentro de suas áreas, unidades, divisões, grupos ou afiliadas.

O desempenho de ativos, índices, moedas e outros instrumentos que possam vir a ser mencionados nesse relatório no passado não é necessariamente um indicador de resultados futuros e nenhuma representação ou garantia, expressa ou implícita, é feita pela Genial Investimentos em relação ao desempenho futuro. Rendimentos de aplicações podem variar. O preço ou valor dos ativos, índices, moedas e outros instrumentos aos quais este relatório possa a vir se referir, direta ou indiretamente, podem cair ou subir contra o interesse dos investidores. Qualquer recomendação ou opinião contida neste relatório pode se tornar desatualizada em consequência de alterações no ambiente externo, além de alterações nas estimativas e previsões, premissas e metodologia de avaliação aqui utilizadas.

DECLARAÇÕES DO ANALISTA

O analista declara que as opiniões contidas nesse relatório refletem exclusivamente suas opiniões pessoais e foram elaborados de forma independente e autônoma, inclusive em relação a Genial Investimentos.

A remuneração do analista está, direta ou indiretamente, influenciada pelas receitas provenientes dos negócios e operações financeiras realizadas pela Genial Investimentos.

Além disso, o analista certifica que nenhuma parte de sua remuneração foi, é ou será direta ou indiretamente relacionada com as opiniões específicas expressas neste relatório.

A remuneração do analista não se baseia nas receitas do Brasil Plural S.A. Banco Múltiplo, controlador da Genial Investimentos, mas pode, no entanto, derivar de receitas oriundas dos negócios e operações financeiras da GENIAL INVESTIMENTOS, suas afiliadas e/ou subsidiárias como um todo. A remuneração paga aos analistas é de responsabilidade exclusiva da GENIAL INVESTIMENTOS

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg é coordenador de análise política na Genial Investimentos, responsável pela avaliação do cenário político-eleitoral brasileiro. Ribamar é economista graduado pela FEA-USP e mestrando em Ciência Política na FFLCH-USP. Em sua dissertação de mestrado, analisa o tema “Coalizão de governo e crise de governabilidade no período Dilma Rousseff

Deixar um comentário