Jair Bolsonaro tomará posse no próximo dia 1º de janeiro. De acordo com o último levantamento do Ibope, 64% dos eleitores têm expectativa positiva em relação ao novo governo. O presidente eleito conseguiu montar um ministério com nomes de peso, o que contribui para a percepção positiva da população.

Em relação à equipe econômica, muito se falou sobre a pouca experiência de Paulo Guedes com o setor público. O novo ministro, no entanto, nomeou para os dois cargos mais importantes de sua pasta técnicos de reconhecida competência e ampla experiência na gestão pública: Marcelo Guaranys (Secretaria-Executiva) e Waldery Rodrigues (Secretaria Especial de Fazenda). A nomeação do deputado Rogério Marinho (Secretaria Especial de Previdência) reconhece a necessidade de diálogo com o Parlamento – ele foi relator da reforma trabalhista e possui bom trânsito congressual. Afinal, Guedes conseguiu formar uma equipe com experiência administrativa e traquejo político.

Em relação à articulação política, no arranjo proposto por Bolsonaro, Onyx Lorenzoni (Casa Civil) será responsável pelas negociações com parlamentares e o General Santos Cruz (Secretaria de Governo) tratará de assuntos federativos. Há dúvidas sobre a capacidade de Onyx Lorenzoni ser bem-sucedido na função, tanto que o futuro ministro recrutou um time de parlamentares não reeleitos para auxiliá-lo. Em qualquer governo, no entanto, a posição de articulador político gera desgaste – por isso mesmo, poucos resistem por muito tempo em seus cargos.

O destaque positivo é que o presidente eleito deu início ao diálogo com os partidos, recebendo as principais bancadas nas últimas semanas. No Congresso, há disposição em trabalhar com o futuro governo e a expectativa de que nomeações para cargos em segundo e terceiro escalão serão negociadas com os partidos, que não fizeram indicações para o primeiro escalão. O PR já anunciou que fará parte da base do governo e o DEM e o PSD caminham para isso também. O PSDB e o MDB também demonstram boa vontade com o novo governo.

As nomeações para a área de infraestrutura foram bem recebidas. Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura, ex-Transportes) são técnicos de reconhecida competência e possuem trânsito político – sobretudo com MDB e PR, respectivamente. Tereza Cristina (Agricultura), por sua vez, agrada a bancada ruralista – a única frente temática que funciona de forma organizada e com reuniões periódicas. Além disso, Osmar Terra (Cidadania), afora ter tido bom desempenho como ministro, contempla de alguma forma o MDB. É importante notar que essas pastas concentrarão boa parte dos recursos durante os próximos anos.

O desafio a partir deste momento será cuidar com especial atenção da relação política com o Poder Legislativo. A eleição das mesas diretoras na Câmara e no Senado será o primeiro teste para o novo governo. É recomendável que Bolsonaro consiga evitar a eleição de opositores, mas também deverá evitar fissuras desnecessárias em sua provável base de apoio – desentendimentos com Rodrigo Maia, por exemplo, não são compreensíveis. O risco é a eleição de parlamentares que não estejam comprometidos com a agenda de reformas. Fábio Ramalho, por exemplo, corre por fora na eleição para a presidência da Câmara e não pode ser descrito como nome favorável ao ajuste fiscal. Já no Senado, é preciso que surja um nome capaz de derrotar Renan Calheiros ou, então, que o presidente eleito construa pontes com o senador alagoano – se é que isso é possível.

O ponto fundamental, no entanto, será a posição de Bolsonaro em relação à reforma da previdência, tema crucial para o sucesso ou o fracasso de seu governo. A nomeação de Rogério Marinho para a Secretaria de Previdência sugere que o tema será tratado com a devida urgência e que a proposta atualmente no Congresso poderá ser aproveitada de alguma forma. Paulo Guedes manifestou mais de uma vez sua predileção pela aprovação da proposta apresentada pelo governo Temer, que se encontra pronta para ser votada pelo plenário da Câmara dos deputados. Além dessa definição, Bolsonaro precisará demostrar pessoalmente seu comprometimento com o tema e, sobretudo, enquadrar o seu próprio partido, o PSL – só assim será possível exigir lealdade dos demais partidos de sua base de sustentação.

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg é coordenador de análise política na Genial Investimentos, responsável pela avaliação do cenário político-eleitoral brasileiro. Ribamar é economista graduado pela FEA-USP e mestrando em Ciência Política na FFLCH-USP. Em sua dissertação de mestrado, analisa o tema “Coalizão de governo e crise de governabilidade no período Dilma Rousseff

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