Estamos a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições de 2018, e o debate alterna entre a euforia e a histeria. As pesquisas de intenção de votos dão favoritismo ao candidato Jair Bolsonaro, do PSL. O mercado financeiro dá preço aos ativos contando com a vitória do capitão reformado, ou melhor, com a derrota do candidato do Partido dos Trabalhadores. Digladiam-se nas redes sociais amigos, família e desconhecidos. E a crise segue.

O ano de 2018 seria o da virada definitiva para a recuperação da economia. “Se” a reforma da previdência tivesse sido aprovada em 2017, ou mesmo neste ano, tudo seria diferente. Não que haveria menos brigas e gritaria, não. A diferença seria o preço do risco. Estancada a sangria dos cofres públicos, o País estaria minimamente blindado contra o medo do futuro próximo. Mas, como não existe vida no “se”, nada disso aconteceu e… here we are.

Na surdez coletiva, tem alguém clamando por atenção, sem sucesso: o receituário básico para tirar o Brasil da rota do colapso econômico depois da pior recessão da história. Quando a gente achava que já tinha visto de tudo, em termos de irresponsabilidade com os cofres públicos, para não dizer achaque, as lideranças políticas continuam esticando uma corda há muito sem elástico ou resistência.

Enquanto o País se fere com o desgaste da polarização, o Congresso Nacional conseguiu aumentar em muitos bilhões o rombo das contas públicas. A derrubada do veto ao reajuste do piso salarial dos agentes de saúde e a rejeição ao Projeto de Lei que autorizava a privatização das distribuidoras da Eletrobras impõem um custo adicional sem nenhuma previsão de receita extra para bancá-lo.

No caso da subsidiária da estatal elétrica do Amazonas, sem conseguir vender a empresa ao capital privado, a conta pela liquidação pode chegar a R$ 14 bilhões – nem a Eletrobras nem o governo federal, seu maior acionista, têm caixa para pagar a brincadeira do Senado. O descaramento, especialmente daqueles caciques da política que foram varridos da próxima legislatura pelos votos, não tem pudor nem constrangimento. “E o Kiko?”, poderiam responder os parlamentares, que jogam mais uma panela de batata quente no próximo governo.

Nesta reta final das eleições majoritárias, o mercado financeiro parece já ter encontrado um piso para precificar os riscos corridos até agora. O alívio de ter enxotado o PT para fora do Palácio do Planalto – como tudo indica até agora – já foi suficiente para manter o fluxo de investimentos estrangeiros para cá, baixar o dólar para perto dos R$ 3,70, e manter a Bolsa de Valores acima dos 80 mil pontos. A sociedade mostrou, nas urnas do primeiro turno, que o petismo perdeu força, sentido e lugar. Os preços só corroboram o recado dos eleitores.

Qualquer coisa além disso, certamente vai depender do que vier depois que as urnas estiverem fechadas, votos forem validados e a segunda-feira chegar. Por enquanto, parece que os ativos financeiros ainda não refletem a certeza sobre os planos de Jair Bolsonaro e seu guru, Paulo Guedes. O silêncio misericordioso da equipe econômica, com algumas pílulas do que pode ser o programa econômico do novo governo, tem assustado menos do que os tropeços dos aliados políticos e partidários do capitão da reserva.

Os próximos dias serão de muita emoção e, provavelmente, baixa volatilidade. A não ser que as denúncias que movimentam as redes sociais e os jornais provoquem uma mudança radical de rumo nas eleições. O Brasil já viu de tudo. A volta à normalidade e a busca pelo equilíbrio econômico é a melhor Sessão da Tarde que podemos almejar para o futuro próximo.

Thais Heredia

Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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