O brasileiro é um sujeito emocional, sensível para muitas coisas imponderáveis. Especialmente depois que experimentamos um dólar a R$ 0,80 lá no início do Plano Real, acompanhar e torcer pela moeda americana disputa espaço com futebol. Indo ou não viajar, se sensibilizar com a cotação virou rotina, até porque, todos assumimos o dólar como um termômetro sobre a situação geral. E ele é mesmo.

Tanto assim que já logo afirmamos: “se o dólar subiu é porque estamos fazendo algo errado”, ou “se o dólar caiu é porque estamos fazendo algo certo”. Se serve de consolo, nem sempre esta correlação é tão exata assim. É o caso atual. Quem puxou a valorização do dólar neste último mês foi a política econômica de Donald Trump e os efeitos esperados por ela. Por “ela” entende-se: guerra comercial, tarifas para o aço, aumento da inflação e alta dos juros pelo FED.

Nossa contribuição – com coisas erradas – foi menor, mas na mesma direção de valorizar a moeda americana. Numa comparação com outros países que têm sentido esta alta com mais intensidade, o Brasil está entre os que mais sofrem. Segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF), a nossa moeda foi das que mais perdeu com a disparada do dólar em 2018, até 1o de Maio. Perdemos para Argentina, com valorização de 10,29%, Rússia, com 8,97% e Turquia, com 6,76%.

Aqui, a alta foi de 5,23%, sem contar o estouro de 1,55% no segundo dia deste mês. O movimento mais violento do mercado mexeu com Banco Central, que resolveu entrar no mercado de câmbio e ofertar mais moeda na praça. A decisão ajudou a conter a desembestada do dólar, pelo menos nesta quinta-feira (03/05). Aliás, muitas vezes o BC precisa mesmo colocar cones na estrada para corrigir os rumos do mercado, que fica meio surdo e estridente, distorcendo a formação dos preços.

O que são as nossas coisas erradas que têm contribuído com a disparada do dólar?

Bem, para começar, a crescente incerteza sobre o quadro eleitoral. Se fosse só a quantidade de candidatos, mais de 20, os radicalismos, as mensagens truncadas sobre as escolhas econômicas de cada um, estaria mais fácil. Há uma nova fonte de insegurança, inédita nestes momentos no Brasil, que são as decisões da Suprema Corte do país. Ora decidindo prender, ora decidindo soltar as regras que definem quem, como, quando e quanto os condenados devem cumprir de suas penas, o STF vem melando qualquer tentativa de desenhar o cenário político.

Em segundo lugar, porém com peso relevante, está o ritmo da atividade. Acabamos de ter mais uma frustração, desta vez pela indústria. O IBGE divulgou nesta quinta-feira (03/05) o dado da produção industrial de março, que teve queda de 0,1%. Das 20 instituições ouvidas pelo Valor Data, do jornal Valor Econômico, apenas uma esperava resultado negativo, a MB Associados (-0,4%). O que acabou segurando, certamente, a média de crescimento 0,5% da produção, esperada por todos. Isto deve provocar nova revisão para o PIB de 2018 – para baixo.

Em terceiro, que no fundo está no topo das preocupações, mas depende das duas primeiras, está o rombo fiscal. Março foi péssimo para as contas públicas, faltaram mais de R$ 25 bilhões para pagar tudo. O Congresso Nacional não só não ajuda, como tem atrapalhado bastante. Ainda resta esperança para a votação do projeto que impõe a volta de cobrança de impostos de dezenas de setores na economia. Mas o grosso das mudanças, que poderia afastar o abismo, já foi abandonado. E agora, mais do que nunca, depende da definição da primeira “coisa errada” que temos feito para provocar o dólar.

Antes de fazer a pergunta final do artigo, é justo fazer duas ponderações relevantes deste quadro. O fantasma das contas externas sumiu e não assusta mais, pelo menos não assustará por algum tempo. Não só porque temos muito dinheiro em caixa, US$ 380 em reservas, como o saldo de tudo que fazemos com exterior está levemente negativo, o que nos dá certo conforto e segurança.

A outra ponderação é a inflação. A alta do dólar tem, historicamente, um canal mais direto com processo inflacionário e sempre preocupa. Desta vez está um pouco diferente. O nosso “historicamente” mudou já que temos a menor taxa de inflação corrente em duas décadas e expectativas para o futuro bem ancoradas, ou seja, todo mundo acreditando que o equilíbrio nos preços se manterá. Além do que, o IPCA está longe da meta de inflação, que é de 4,5%.

A pergunta que fecha este artigo é: o que fará o Banco Central diante disso tudo? Vai cortar novamente os juros na próxima reunião do Copom? O consenso entre analistas, por enquanto, é de que este plano está mantido, sem que cause apreensão, o que significa que a taxa básica deve ir para 6,25% daqui duas semanas. Como acabei de dizer, há espaço para acolher algum repique que o dólar cause nos preços. Mas há também a fraqueza da retomada da economia, que colabora com a decisão do BC. Se não há pressão de demanda, por que subir os juros?

Mesmo que o quadro eleitoral seja cada vez mais assustador e que passe a pressionar mais o termômetro da moeda americana, há um alivio nisso tudo, como nos lembrou um editorial recente do Valor Econômico.

Em 1989, a inflação estava em 1764,8%.
Em 1994, baixou para 916,4%.
Em 1998, chegou a 1,8%, até porque o BC controlava o câmbio a ferro e fogo.
Em 2002, o efeito Lula provocou repique fortíssimo do IPCA, que fechou em 12%.
Em 2014, quando as cortinas da realidade econômica ainda não tinham caído, a inflação esbarrou no limite da meta e ficou em 6,41%.
Agora, em 2018, o IPCA deve ficar em 3,49%, segundo estimativas do Focus.

Nada disso vai evitar nosso sofrimento assistindo à cotação do dólar avançar. Para quem gostaria de ir, ou ainda vai para a Disney (ou qualquer outro destino), vale um pouco de oração e muito planejamento para não perder a boa lembrança do abraço do Mickey.

* Thais Heredia escreve todas as quintas-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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