Para entender o fenômeno Jair Bolsonaro é preciso voltar alguns anos no tempo. Ao final de 2015, Dilma Rousseff chegava ao auge de sua impopularidade, com crise econômica, escândalo do Petrolão, grandes manifestações de rua e perda de apoio congressual. O impeachment levou ao poder Michel Temer e seu grupo político. A expectativa de que o novo governo fosse recuperar a economia rapidamente não se concretizou – ou, dito de outra forma, frustrou a expectativa do eleitor. O crescimento veio mais devagar e o desemprego se manteve elevado. A gravação da JBS sepultou a reforma da previdência, fez explodir a rejeição a Temer e levou a aprovação do governo a patamares historicamente baixos. O impeachment (com seus desdobramentos), de certa forma, jogou a responsabilidade da crise econômica sobre os ombros de MDB, PSDB e aliados, abrindo espaço para o ressurgimento do PT. A gravação envolvendo Aécio Neves desgastou os tucanos. Lula conseguiu, desde o impeachment, reduzir sua rejeição e aumentar sua popularidade. Mas, no meio do caminho, o ex-presidente acabou condenado, inelegível e preso. Ainda assim, manteve-se competitivo nas pesquisas até o início da campanha eleitoral.

A persistência do cenário econômico negativo, com desemprego elevado, jogou a favor do PT – que fez forte oposição ao governo Temer –, mas também ajudou Jair Bolsonaro. O avanço da Operação Lava Jato desgastou toda a classe política. A combinação de recuperação econômica lenta e escândalos de corrupção abriu espaço para o fortalecimento de Bolsonaro, que passou a percorrer o País em sua pré-campanha à presidência. No início, poucos levaram seu movimento a sério, mas ele foi, aos poucos, crescendo nas pesquisas e consolidando seu nome entre os eleitores.

O papel da internet e das redes sociais foi fundamental para o sucesso da candidatura de Bolsonaro. Ao contrário do que muitos previam, o WhatsApp mostrou-se um instrumento importante para definição do voto. Não por acaso, há tanta polêmica envolvendo o aplicativo. Não se pode ainda descartar completamente a relevância das propagandas no rádio e na televisão. Fernando Haddad precisou da propaganda tradicional para se fazer conhecido pelo eleitorado, principalmente no Nordeste, região na qual o PT tem seu melhor desempenho e onde o acesso à internet é menor. A importância dos novos meios de comunicação, contudo, é inegável.

O desgaste da classe política se fez presente não somente na eleição presidencial. A renovação do Congresso Nacional foi bastante elevada. Na Câmara, mais de 40% da nova composição será de deputados em 1º mandato. No Senado, medalhões da política ficaram de fora e não renovaram seus mandatos. Dentre as vagas em disputa, a taxa de renovação chegou a 86%. O presidente da Casa, Eunício Oliveira, e o líder do governo, Romero Jucá, não tiveram sucesso nas urnas. Em relação aos governos estaduais, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, por exemplo, candidatos que nunca ocuparam cargos públicos deverão ser os próximos governadores.

Em relação ao desenrolar da campanha, a onda favorável a Bolsonaro certamente foi impulsionada pelo ataque que ele sofreu em Juiz de Fora. Mas, dada a ampla vantagem que está sendo obtida por ele, não pode ser atribuída somente a isso. Não se pode menosprezar o fato de que ele conseguiu apresentar-se como o candidato certo no momento certo.

A esquerda, indiretamente, ajudou Bolsonaro. Lula agiu para isolar politicamente Ciro Gomes, impedindo o apoio do PSB e de outras forças políticas ao pedetista. Às vésperas das convenções partidárias, o bloco de partidos liderado pelo centrão oscilava entre o apoio a Ciro e a Geraldo Alckmin, e acabou optando pelo apoio ao tucano após manifestação decisiva do cacique do PR, Valdemar Costa Neto – cuja proximidade a Lula é de longa data. O candidato do PSDB conquistou a maior aliança e entrou na disputa com expectativa favorável. Porém, o seu potencial não seu concretizou.

Geraldo Alckmin centrou os principais ataques de sua campanha em Bolsonaro, com o objetivo de reconquistar os votos de eleitores mais conservadores – que, no passado, estiveram com os tucanos, mas que, nesta eleição, optaram pelo apoio ao candidato do PSL. A campanha até foi bem-sucedida no início, já que elevou a rejeição ao adversário. Mas a facada a Bolsonaro inviabilizou a estratégia de Alckmin, que entrou em trajetória de queda desde então. O PSDB pagou alto preço pela postura vacilante que adotou nos últimos anos. O eleitor mais conservador passou a enxergar em Bolsonaro mais condições de enfrentar e derrotar o PT. Desde a facada, Bolsonaro só fez crescer.

O isolamento de Ciro Gomes e a decisão do PT de substituir Lula por Haddad somente no limite do prazo estabelecido pelo TSE abriram espaço para a consolidação de Bolsonaro. Após tornar-se candidato, Haddad cresceu rapidamente, mas seu fôlego foi limitado. O PT esperava, desde o início, enfrentar o candidato do PSL no 2º turno, imaginando ser mais fácil derrotar o adversário – que possuía a rejeição mais elevada durante o 1º turno. Entretanto, a aposta se mostrou bastante equivocada. Na realidade, os petistas não sabem como enfrentar Bolsonaro. O PT venceu o PSDB em quatro eleições presidenciais com a estratégia de opor pobres a ricos. Em 2018, entretanto, isso não funcionou. O PT não conseguiu colar no adversário o selo de defensor dos mais ricos, como fez com candidatos tucanos no passado. Além disso, Bolsonaro soube explorar o sentimento anti-PT e antipolítica, presente em boa parte do eleitorado. Se não reagir a tempo, o PT periga colher um resultado vexatório neste 2º turno.

Ribamar Rambourg
Coordenador de Análise Política da Genial Investimentos

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Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg é coordenador de análise política na Genial Investimentos, responsável pela avaliação do cenário político-eleitoral brasileiro. Ribamar é economista graduado pela FEA-USP e mestrando em Ciência Política na FFLCH-USP. Em sua dissertação de mestrado, analisa o tema “Coalizão de governo e crise de governabilidade no período Dilma Rousseff

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