O instituto Datafolha divulgou, na última sexta-feira, uma nova pesquisa de intenção de votos para presidente da República. Jair Bolsonaro oscilou positivamente (de 24% para 26%), Ciro Gomes manteve o patamar anterior (de 13%), Fernando Haddad teve novo crescimento expressivo (de 9% para 13%), Geraldo Alckmin oscilou negativamente (de 10% para 9%), e Marina Silva teve nova queda (de 11% para 8%). O instituto foi a campo na quinta e sexta-feira, 13 e 14 de setembro. É a terceira pesquisa publicada pelo instituto desde o início da campanha, o que permite identificar tendências e traçar algumas previsões.

O cenário diagnosticado pela pesquisa ajuda a deixar mais clara a disputa presidencial de 2018. O período de coleta de dados foi fator positivo tanto para Bolsonaro (em razão da repercussão de uma cirurgia de emergência na quarta-feira à noite) quanto para Haddad (lançado oficialmente candidato do PT na terça-feira), mas não parece ser suficiente para explicar os resultados obtidos. Convém ressaltar a redução do não voto (brancos/nulos/indecisos) à medida que a campanha avança – hoje, está abaixo de 20%, em trajetória de queda.

ATÉ O MOMENTO, BOLSONARO CONSOLIDADO

Bolsonaro passa por um processo de consolidação dos seus votos. Ele teve novo avanço na pesquisa espontânea, passando de 20% para 22%, bastante próximo ao patamar atingido na pesquisa estimulada (26%). Além disso, três quartos (3/4) de seus eleitores afirmam que sua decisão é definitiva. O candidato do PSL melhorou ainda mais seu desempenho entre os homens, entre as classes de maior renda e nas regiões sul e centro-oeste. Se o ataque sofrido por ele não foi suficiente para conquistar novos

segmentos de eleitores, serviu perfeitamente para consolidar o eleitorado conquistado. A rejeição a Bolsonaro oscilou um ponto para cima (44%, a mais alta, 14 pontos à frente do segundo colocado), mas ele melhorou o desempenho nas simulações de segundo turno em 2 ou 3 pontos porcentuais, a depender do cenário. A maior dúvida, no momento, é como o eleitor reagirá à internação prolongada de Bolsonaro. Se até o momento ele se beneficiou disso, a partir de agora, poderão surgir dificuldades, tanto pela não realização de atividades de campanha quanto por especulações sobre seu real estado de saúde

ALCKMIN QUASE FORA DO JOGO

Geraldo Alckmin enfrenta o pior momento, até agora, de sua candidatura. Ele não só não cresceu, como oscilou um ponto para baixo. A consolidação dos votos de Bolsonaro joga por terra a tentativa do tucano de reconquistar os tradicionais votos do PSDB em disputas anteriores: entre eleitores com renda superior a 10 salários mínimos, o tucano fica com somente 4%; entre aqueles com ensino superior, ele tem 5%; na região centro-oeste, ele tem 7%. Seu voto espontâneo ainda está em 3%, e boa parte de seus eleitores admite mudar o voto até a eleição. A estratégia do tucano de atacar Bolsonaro e aumentar a rejeição do adversário para, em seguida, apelar ao voto útil – apresentando-se como único nome capaz de impedir a volta da esquerda ao poder – não funcionou. A facada a Bolsonaro paralisou a campanha por alguns dias e ajudou a consolidar os votos do candidato do PSL. O tucano não conseguiu se beneficiar do seu grande tempo de televisão e o apelo ao voto útil é ineficaz para um candidato que mal consegue ultrapassar os dois dígitos nas pesquisas. Aos olhos de hoje, somente um fato novo, como o agravamento do estado de saúde de Bolsonaro, poderia ajudar o tucano a crescer.

HADDAD CRESCEU E DEVE CONTINUAR EM ASCENSÃO

A pesquisa também confirma que a transferência de votos de Lula para Haddad está acontecendo, e em ritmo acelerado. Haddad assumiu a segunda colocação, empatado com Ciro Gomes. Na pesquisa espontânea, o petista atinge 8%. Seu eleitorado é o mais convicto (ao lado de Bolsonaro): três quartos (3/4) de seus eleitores dizem que não mudarão o voto. Haddad cresceu no Nordeste, onde alcançou 20% – acima de Ciro, com 18%. Contudo, na região em que metade do eleitorado afirma votar com certeza em um candidato apoiado por Lula, ainda há espaço para novo crescimento. Na região, um terço (1/3) dos eleitores não conhece Haddad e um quarto (1/4) não escolhe nenhum candidato, mesmo na pesquisa estimulada. Entre os eleitores de menor renda e aqueles que possuem somente o ensino fundamental, eleitorado tradicional de Lula, Haddad tem somente 16% e 14% dos votos, respectivamente. Também dentre esses segmentos, metade dos eleitores afirma que escolheria certamente um candidato apoiado por Lula. Por serem parcelas bastante representativas do eleitorado, é provável que a ascensão de Haddad continue nas próximas pesquisas. A estratégia arriscada de Lula está funcionando. Haddad tem palanques estaduais competitivos, sobretudo no Nordeste, e está sabendo utilizar seu tempo de televisão (o segundo maior, depois da coligação do PSDB) para se fazer conhecido do eleitor. Não é impossível que o candidato do PT termine o primeiro turno com patamar superior a 20% dos votos.

CIRO FICA ESTÁVEL, MAS TERÁ DIFICULDADES

Ciro Gomes permaneceu no mesmo patamar. O candidato do PDT oscilou dois pontos para baixo no Nordeste, tendo sido ultrapassado por Haddad. Ciro cresceu na região nas últimas semanas muito em razão do desconhecimento, por parte do eleitor, do nome apoiado por Lula. Daqui para frente, à medida que Haddad se torne conhecido, a eleição ficará mais difícil para o candidato do PDT. No Nordeste, parece razoável supor que a máquina do PT trabalhe para impulsionar a candidatura de Haddad. A seu favor, Ciro conta uma taxa de rejeição baixa e o melhor desempenho nas simulações de segundo turno, nas quais derrotaria os adversários. Por isso, Ciro faz apelo ao voto útil ao se apresentar como melhor nome para derrotar Bolsonaro, o candidato mais rejeitado pela população. Não por acaso, o melhor desempenho do candidato do PDT se dá entre os mais jovens e eleitores de renda mais alta e ensino superior. Ele está em melhores condições que Alckmin, mas, ainda assim, é improvável que consiga superar o candidato do PT e ir ao segundo turno. Somente uma improvável atração do eleitorado de centro teria possibilidades de impulsionar sua candidatura.

MARINA É TRAGÉDIA ANUNCIADA

Marina Silva continua em trajetória de queda. Conforme a expectativa, a frágil estrutura partidária e o baixo engajamento de seu eleitorado revelaram-se bons antecedentes para prever a queda da candidata. Marina herdava boa parte dos votos dos eleitores de Lula entre os mais pobres e no Nordeste. A queda de Marina nesses segmentos se dá de forma concomitante ao crescimento de Haddad. No entanto, a redução dos votos da candidata da Rede é generalizada e ocorre em praticamente todos os segmentos.

SEGUNDO TURNO: HADDAD X BOLSONARO

O cenário apresentado pela pesquisa Datafolha evidencia que Bolsonaro conseguiu consolidar seus votos, ainda que não tenha conseguido se mostrar competitivo entre os mais pobres, entre as mulheres e entre os eleitores do Nordeste. O candidato do PSL apresenta voto cristalizado, o que dificulta as chances de perder votos para Alckmin. Hoje, só um fato novo, que atinja negativamente Bolsonaro, pode tornar

Alckmin competitivo. A transferência de votos de Lula para Haddad mostra-se eficaz e há espaço para que essa tendência continue já que boa parte do tradicional eleitorado do ex-presidente ainda não escolhe Haddad. Ciro não é um nome a ser desprezado, mas apresenta pouco espaço para crescer à medida que o candidato do PT se torne conhecido. Marina Silva está fora do jogo. Nesse cenário, se novas surpresas não acontecerem, o segundo turno deverá ser entre Haddad e Bolsonaro. A principal incógnita, nesse momento, é acerca do estado de saúde de Bolsonaro e da reação do eleitor a isso.

QUEM VENCERÁ

A disputa de um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad deverá ser apertada de acordo com as pesquisas, que mostram empate técnico. É importante avaliar, contudo, que o candidato do PT ainda é conhecido por somente 71% do eleitorado. O grau de conhecimento de Bolsonaro chega a 88%. O desconhecimento de Haddad é maior entre as camadas menos favorecidas. É natural que Haddad melhore seu desempenho, à medida que se torne mais conhecido, e que a transferência de votos aumente.

A rejeição a Bolsonaro é a mais alta entre os presidenciáveis e se mostra consolidada. Haddad tem rejeição mais baixa, mas em ascensão. A rejeição ao PT é elevada. Na última pesquisa Datafolha da qual participou, a rejeição a Lula era de 34%, a maior depois de Bolsonaro. No entanto, ela segue trajetória de queda: chegou ao recorde de 57%, em 2016, caindo para 34%, em agosto de 2018. Da mesma forma, de abril de 2017 a agosto de 2018, Lula ampliou sua liderança sobre Bolsonaro em 10 pontos: 52% a 32%. Ainda que não haja transferência total de votos para Haddad, é razoável supor que ele deverá ser o maior herdeiro dos votos do ex-presidente. Quando questionados, 48% dos eleitores admitem votar em candidato apoiado por Lula, enquanto 49% rejeitam a possibilidade. Bolsonaro precisará reduzir sua rejeição e conquistar eleitores de camadas menos favorecidas, além de reduzir seu gap de gênero. Sem isso, sua eleição será improvável. Além disso, o candidato do PSL precisará sobreviver à máquina de propaganda do PT, que se mostrou eficaz contra Marina Silva e Aécio Neves em 2014. Será outro desafio. Embora a disputa mostre-se aberta, no cenário atual, o favoritismo parece ser do candidato do PT.

Ribamar Rambourg
Coordenador de Análise Política da Genial Investimentos

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Ribamar Rambourg é coordenador de análise política na Genial Investimentos, responsável pela avaliação do cenário político-eleitoral brasileiro. Ribamar é economista graduado pela FEA-USP e mestrando em Ciência Política na FFLCH-USP. Em sua dissertação de mestrado, analisa o tema “Coalizão de governo e crise de governabilidade no período Dilma Rousseff

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