O instituto Datafolha divulgou na segunda-feira mais uma pesquisa de intenção de votos para presidente da República. Jair Bolsonaro oscilou positivamente (de 22% para 24%); Ciro Gomes cresceu (de 10% para 13%); Marina Silva teve forte queda (de 16% para 11%); Geraldo Alckmin oscilou um ponto (de 9% para 10%); e Fernando Haddad teve crescimento expressivo (de 4% para 9%).

 

O DESEMPENHO DE JAIR BOLSONARO

A questão mais relevante da pesquisa é que, em comparação ao levantamento anterior, o ataque sofrido por Bolsonaro parece não ter tido maior relevância. O candidato avançou somente dois pontos na pesquisa estimulada, dentro da margem de erro. Suas fragilidades – a elevada rejeição e o mau desempenho nas simulações de segundo turno e entre segmentos importantes do eleitorado – permanecem.

Até o momento, na simulação de primeiro turno, ele alcança somente 14% no Nordeste e 15% entre eleitores com ensino fundamental.

A sua rejeição subiu de 39% para 43% – enquanto a rejeição aos demais candidatos situa-se na casa dos 20%. Vale destacar: a rejeição a Bolsonaro entre as mulheres aumentou de 43% para 49%.

Nas simulações de segundo turno, Bolsonaro ficaria atrás de todos os adversários, até mesmo de Fernando Haddad. Nesse caso, o candidato petista alcançaria 39%, contra 38% de Bolsonaro – vale destacar que, entre as mulheres, Haddad venceria com larga margem, 44% a 30%. Na pesquisa anterior, o candidato do PSL vencia o petista com 9 pontos de vantagem. Em eventuais disputas contra Ciro e contra Alckmin, ele seria derrotado por 10 e 9 pontos, respectivamente – diferença maior do que a observada na pesquisa anterior.

Não é possível traçar conjecturas sobre como estaria o desempenho de Bolsonaro sem o ataque em Juiz de Fora. Convém lembrar, no entanto, que ele vinha sendo alvo de forte campanha negativa. É possível que o episódio tenha sido útil para o deputado consolidar os votos conquistados. A reação do próprio Bolsonaro, que postou foto no hospital simulando uma arma nas mãos, evidencia que sua estratégia é evitar perder votos.

A trégua dos adversários, no entanto, durou pouco e, em breve, a propaganda negativa deverá ser retomada. Aos poucos, a campanha eleitoral deverá retomar seu ritmo natural.

 

MARINA PERDE; CIRO E HADDAD GANHAM

Em linha com o que outras pesquisas já apontavam, Marina Silva caiu, enquanto Ciro e Haddad ganharam pontos. Sem estrutura e com pouco engajamento de seus eleitores, a candidata da REDE perdeu pontos em praticamente todos os estratos.

No Nordeste, Ciro cresceu de 14% para 20% e Haddad saiu de 5% para 11%. Ambos melhoraram o desempenho em praticamente todos os segmentos.

Ciro é o candidato mais competitivo nas simulações de segundo turno, vencendo todos os adversários. No cenário atual, ele estaria à frente de Geraldo Alckmin e Marina Silva. O desafio para ele é chegar até lá. Com a substituição de Lula por Haddad, o PT jogará pesado para chegar ao segundo turno, e o partido dispõe de estrutura para tanto. A maior dificuldade para o PT é que faltam menos de quatro semanas para a eleição e Haddad precisa se tornar conhecido pelo eleitor. A pesquisa, no entanto, também trouxe boas notícias para o partido: Haddad cresceu 5 pontos e, nas simulações de segundo turno, chega a subir 10 pontos em alguns cenários, na comparação com o levantamento anterior. A melhor aposta para o PT sair vitorioso é em um segundo turno contra Bolsonaro.

 

ALCKMIN CHEGA AOS DOIS DÍGITOS

Geraldo Alckmin finalmente conseguiu chegar aos dois dígitos na pesquisa. O candidato do PSDB corre contra o tempo para conseguir uma vaga no segundo turno e é o maior prejudicado pelo ataque a Bolsonaro. Ele foi obrigado a suspender a campanha negativa contra o adversário e precisará, de alguma forma, se reposicionar no tabuleiro eleitoral. O mais provável é que Alckmin retome a propaganda negativa contra Bolsonaro ao longo dos dias. A sua campanha deverá enfatizar que o tucano é o único candidato capaz de evitar a volta da esquerda ao poder. O voto em Bolsonaro, no entanto, é o mais consolidado e o tucano precisa conquistar, ao menos, algumas parcelas desse eleitorado para se tornar viável. Além disso, espera obter uma parte dos quase 10% de eleitores que, hoje, optam por Álvaro Dias, Henrique Meirelles e João Amoedo, insistindo na tese do voto útil.

 

EM SUMA

O não voto (brancos/nulos/indecisos) diminuiu de 28% para 22%. Restando menos de quatro semanas para o primeiro turno das eleições, o cenário eleitoral permanece aberto. Bolsonaro parece não ter se beneficiado do ataque que sofreu e sua rejeição cresceu; no entanto, ele lidera a disputa e aparece 11 pontos à frente do segundo colocado. Não é tarefa trivial retirá-lo do segundo turno. No segundo lugar da pesquisa, há empate entre Ciro, Marina, Alckmin e Haddad. Marina apresenta viés de queda e não parece haver muitas alternativas para a candidata, com pouco tempo de televisão e baixo engajamento de seus eleitores. Aos olhos de hoje, Ciro e Haddad apresentam boas probabilidades de estarem no segundo turno. Ambos estão em ascensão. O desempenho de Ciro é surpreendente, dado o isolamento a que o candidato foi submetido. Resta saber se Ciro resistirá às investidas por parte do PT. O potencial de transferência de Lula não pode ser desprezado, mesmo havendo pouco tempo para as eleições. Geraldo Alckmin, com o maior tempo de televisão, não é carta fora do baralho. Embora sua tarefa pareça cada dia mais complicada, o tucano tem condições de chegar ao segundo turno, a depender do grau de resistência de Bolsonaro. A próxima pesquisa do instituto será divulgada na sexta-feira e trará mais informações.

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg é coordenador de análise política na Genial Investimentos, responsável pela avaliação do cenário político-eleitoral brasileiro. Ribamar é economista graduado pela FEA-USP e mestrando em Ciência Política na FFLCH-USP. Em sua dissertação de mestrado, analisa o tema “Coalizão de governo e crise de governabilidade no período Dilma Rousseff

Deixar um comentário