Em meio à polarização do discurso político neste período pré convenções partidárias que indicarão os candidatos à sucessão presidencial, a expressiva elevação do valor do dólar, durante toda a semana passada, chamou a atenção para um ponto fundamental da campanha eleitoral: quais são as propostas econômicas dos aspirantes ao Palácio do Planalto? Pela primeira vez, a análise da movimentação da economia internacional, a inserção do Brasil neste cenário e o que deve ser feito para dinamizar o processo de recuperação econômica do país tornaram-se pautas relevantes no debate sucessório.

Temas em foco

Até então, temas de maior apelo popular, como segurança pública, em razão da intervenção federal no Rio de Janeiro e da explosão de violência em todo país, e a precariedade do atendimento prestado pelo SUS, mereciam mais atenção dos candidatos, tendo em vista, justamente, o nível de acirramento do discurso. Interessava e interessa a alguns políticos o debate menos racional e mais exacerbado. Pena de morte, redução da maioridade penal, propostas de privatização dos serviços de saúde, tudo isso é combustível para o embate mais visceral e menos racional, encaminhando a discussão para o campo do radicalismo.

Entretanto, quando se trata de economia, o tom do discurso deve ser obrigatoriamente argumentativo e menos explosivo. Ainda mais em um cenário desfavorável ao Brasil externa e internamente. No campo internacional, o governo Trump tem deixado claro que continuará incentivando a valorização dos títulos do tesouro norte-americano, para recambiar boa parte dos dólares investidos em outros países. Não é simples coincidência o fato de várias economias emergentes ao redor do mundo estarem sentindo o efeito dessa política, alguns países com efeitos mais danosos, outros, com menor impacto. O Brasil tem reservas sólidas, mas não passará incólume e deve se precaver.

Economia interna

Já no âmbito interno, o quadro é de múltiplas dificuldades, que exigirão do próximo presidente atuação coordenada, rápida e eficaz, pois a economia combalida não se recuperará com placebos e soluções paliativas. Questões como Reforma da Previdência, ajuste fiscal, Reforma Tributária e retomada do processo de privatizações estão com seu cronograma totalmente defasado, em razão da incapacidade do governo Temer de dar andamento a elas, e são uma batata quente nas mãos de quem vier a ser eleito para governar o país. É preciso observar que a segunda década do século 21 está terminando e o prazo para impedir que estes 10 anos sejam um retumbante fracasso é cada vez mais reduzido.

Analisando o que já foi dito até agora pelos responsáveis pelo programa econômico dos principais postulantes ao Palácio do Planalto, percebe-se que há alguns pontos em comum e uma ou outra divergência mais acentuada, pautada pelo viés ideológico de cada candidato. Reportagem publicada neste domingo pelo “Estado de São Paulo” pontua este cenário e mostra que há convergência de propostas em muitos temas, o que, preliminarmente, revela que os envolvidos na sucessão presidencial sabem que remédio aplicar para revigorar a economia brasileira. Resta ter condições políticas de implementar tais propostas já a partir de 2019.

Reforma da Previdência e privatizações

No que se refere à Reforma da Previdência, de acordo com a matéria do “Estadão”, apenas o economista Márcio Pochman, do PT, considera que  “o problema não é urgente”. No seu entendimento, seria suficiente proibir que o aposentado voltasse a trabalhar e continuasse a receber o benefício. Pérsio Arida (PSDB), Paulo Guedes (PSL/Bolsonaro), Mauro Benevides (PDT), Gustavo Franco (NOVO) e Eduardo Gianetti (Rede) são favoráveis às mudanças no Sistema Previdenciário, mas em graus diferentes. Pérsio Arida, coordenador da campanha de Alckmin, é o que apresenta postura mais radical, propondo medidas que zerem o déficit.

Márcio Pochmann se manifesta contrário às privatizações. E é favorável ao sistema de concessões. Os responsáveis pelos programas de Bolsonaro e João Amoedo propõem privatização total, na linha “privatizar o que for possível”. Já o PDT de Ciro não privatizaria a Petrobras e Eletrobrás Pochmann também não crê na necessidade de ajuste fiscal profundo e sugere que sejam adotadas medidas que impulsionem o crescimento econômico. A necessidade de redução do tamanho do Estado é vista com bons olhos pelos demais estrategistas econômicos. Por fim, há consenso quanto à importância da Reforma Tributária, com redução da carga que hoje incide sobre a população de baixa renda.

A leitura a ser feita sobre esta primeira rodada de propostas econômicas alinhavada pelos assessores dos candidatos é que tudo é ainda muito genérico e o detalhamento dessas iniciativas deve ser acelerado nos próximos meses. Afinal de contas, com a economia andando de lado e o desemprego mostrando fôlego para atormentar a população ainda por muito tempo, faz-se necessário que as rotas econômicas possíveis para o Brasil em 2019 sejam realistas, exequíveis e de implementação dinâmica. É inviável persistir sem planejamento e direção.

* Gabriel Azevedo escreve todas as terças-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Publicado por Gabriel Azevedo

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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