O país acaba de receber duas enxurradas de informações sobre o quadro eleitoral. As pesquisas do Datafolha e do Ibope saíram com menos de 24 horas de diferença e provocaram uma miscelânea de interpretações sobre a realidade política atual. É como se cada olho nosso estivesse olhando, separadamente, para cada uma das leituras sobre as intenções de votos para a Presidência da República. Como entender o todo ou o que espelha melhor as preferências dos eleitores?

As diferenças não são desprezíveis, já que, enquanto uma aponta aumento da rejeição ao candidato mais consolidado até agora, Jair Bolsonaro, (caso do levantamento do Datafolha), a outra mostra o contrário, uma queda (caso do Ibope). Enquanto uma posiciona Bolsonaro com mais vantagens num segundo turno com os candidatos embolados do “meio”, outra mostra o inverso, ou seja, uma possível derrota do escolhido pelo PSL na disputa com os empatados até agora. Confusão, não? No que acreditar ou relevar para tomar decisões?

Uma coisa é certa: Jair Bolsonaro, mais para cima, ou mais estacionado, é o nome mais falado em qualquer análise que se intente fazer sobre o futuro do Brasil. Tudo indica que o atentado sofrido por ele, que ainda o mantém sobre intensivo cuidados médicos e hospitalizado, tenha sido o maior impulso para o seu isolamento à frente dos adversários. Se ele já está lá, praticamente garantido no segundo turno, quem será capaz de atravessar a primeira linha e encontra-lo para o embate final?

Aqui é que a porca torce o rabo. Fernando Haddad, agora confirmado como ectoplasma de Lula, candidato do PT à presidência, é uma dúvida e também uma promessa, depende do ponto de vista. Uma dúvida porque não se sabe quantos votos ele poderá receber dos lulistas. Uma promessa porque pode levar o partido de volta ao poder depois do impeachment de Dilma Rousseff e os escândalos do Petrolão. Há uma terceira via de percepção sobre ele, representada pelo mercado financeiro: é um temor!!

O programa de governo apresentado pelo PT é uma repetição piorada do que foi o mandato e meio de Dilma, com mais intervenção na economia e menos reformas. Quem conhece Haddad, e ele circula muito bem pelo centro financeiro e empresarial do país, se esforça para acreditar que ele cederia sua história e sua formação para fazer o que não acredita, ou seja, uma radicalização econômica. Ao mesmo tempo, sua passagem pela prefeitura ficou muitas vezes sob o comando maior do partido, o que lhe custou a derrota em primeiro turno para um segundo mandato.

A porca fica mais desconfiada ainda quando olha o que tem acontecido com Ciro Gomes, candidato do PDT. Tirando as margens de erro e os níveis de confiança das pesquisas, ele foi o que se saiu melhor em ambos os levantamentos da semana. Ele foi o primeiro a quebrar o período de silêncio dos ataques a Bolsonaro depois do atentado. E só acelera no palavreado escolhido para criticar o líder nas pesquisas. Deste, o mercado financeiro também tem pavor. Não só pelo seu programa de governo, que prevê uso dos bancos públicos para limpar o nome dos devedores brasileiros, como pelas suas bravatas contra leis e reformas aprovadas no governo Temer, consideradas importantes e positivas pelos investidores.

Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB) seguem perdidos entre Haddad e Ciro, catando cada ponto depois da vírgula que conseguirem para não perderem força antes do tempo. Por falar em tempo, nem o de TV de Alckmin, o maior da campanha, foi capaz, ainda, de lhe render mais intenção de votos. Talvez, ao final do pleito, seja possível calcular melhor qual o peso que as aparições na televisão ainda têm depois diante do fenômeno digital e das redes sociais.

Faltam pouco mais de quatro semanas para a votação do primeiro turno, em 07 de outubro. Muita gente vai indagar até lá: e agora, José? O que será que o Brasil vai escolher? E quanto vai nos custar?

Thais Heredia

Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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