À medida que as definições das pré-candidaturas à Presidência da República vão ocorrendo, o ainda turvo quadro sucessório do presidente Michel Temer fica menos agitado. Entretanto, continua difícil fazer qualquer prognóstico a respeito de que nomes terão a preferência do eleitorado e irão para o segundo turno. Por enquanto, previsões e interpretações mais profundas a respeito do resultado das urnas são meros exercícios de futurologia.

Joaquim Barbosa

Entre as poucas certezas já existentes, pode-se afirmar que a retirada da disputa do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, na semana passada, foi um desfalque e tanto para os defensores da eleição de um outsider, de alguém que nunca esteve diretamente envolvido com a política. Segundo a linha de pensamento de tais pessoas, apenas um nome “não comprometido” com a atual situação política do país teria condições de “salvar o Brasil”.

Barbosa recusou a armadura brilhante de cavaleiro andante, assim como Luciano Huck, antes dele. E não há na arena eleitoral outros candidatos em condições de superar os adversários. O empresário Flávio Rocha, candidato do PRB e dono das Lojas Riachuelo, não tem musculatura suficiente para ingressar na liça e derrotar políticos do porte de Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Álvaro Dias. Creio que não se sairia bem nem diante de nomes menos impactantes, como Marina Silva e Manuela D’Ávila.

O mesmo ocorre com João Amoêdo, nome posto pelo Partido NOVO para a disputa da sucessão presidencial. Sua principal missão nesta eleição será a de tentar fortalecer a bancada do seu partido no Congresso. Ele mesmo diz que a meta é eleger 35 deputados do NOVO, para que o partido passe a ter influência na Câmara Federal e amplie sua relevância nacional. Mesmo esta é uma proposta ambiciosa, tendo em vista os baixos índices de renovação que se esperam nas eleições proporcionais.

Política tradicional

Bom, se não há espaço para os outsiders, presume-se que os votos que anteriormente tendiam para Joaquim Barbosa, que chegou a aparecer em pesquisa da Datafolha com 10% da preferência do eleitorado, se distribuirão entre os pré-candidatos mais conhecidos da população e já detentores de longa trajetória política. Ou seja, os representantes da política tradicional são os principais beneficiários da desistência do ex-ministro do Supremo.

Por esta razão, na semana passada, todos os postulantes ao Palácio do Plano foram discretos e amistosos ao tratar do tema Joaquim Barbosa. Manifestaram-se em tom que deixa aberto um caminho de diálogo com o desistente e, até mais, uma aliança formal em que Barbosa apoie um nome específico para a Presidência da República. Geraldo Alckmin, que enfrenta dificuldades para se firmar na disputa, festejou discretamente o afastamento de Barbosa. Os números da pesquisa CNT, revelados hoje, são muito ruins para o tucano: apenas 5,3% das intenções de voto.

Candidatos

O deputado Jair Bolsonaro manteve-se fiel a seu estilo histriônico e afirmou que ele foi o maior beneficiado com a desistência de Barbosa. Também dando continuidade ao discurso sem freios que sempre adota, disse que o ex-presidente do STF “não entende nada de política”. A pesquisa da CNT dá razão às afirmações de Bolsonaro sobre a saída de Barbosa. O ex-oficial do Exército lidera o levantamento, com 18,3% das intenções de voto.

Ciro Gomes foi o que agiu mais rápido para tentar herdar o “espólio eleitoral” de Barbosa e acenou com uma aliança com o PSB, partido ao qual o ex-ministro está filiado e pelo qual tinha a intenção de disputar a eleição. Ciro tem boas relações com alguns políticos do PSB, como o ex-prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, e isso lhe permitiria uma aproximação mais fácil com a legenda. Uma troca simples, que favoreceria os dois lados: Ciro teria o apoio do PSB e daria palanque para Lacerda e outros candidatos a governador da legenda. Na pesquisa de hoje, o ex-governador do Ceará tem 9,0% das intenções de voto e é o terceiro colocado.

Marina Silva, que luta contra a desidratação da sua legenda, a Rede Sustentabilidade, que perdeu dois deputados no período aberto para a troca de partidos, permanece com o discurso da terceira via e não se estendeu muito sobre a saída de Joaquim Barbosa da corrida presidencial. A ex-senadora, por enquanto, tem adotado a discreção como principal instrumento de campanha, se pronunciando sempre com tranquilidade sobre os mais diversos temas. Até agora, os resultados são bons e lhe dão razão. Na pesquisa CNT, está com 11,2% das intenções de votos. Caso as eleições fossem hoje, ela disputaria o segundo turno com Bolsonaro.

O que se transformará em realidade neste cenário e o que será exilado para o campo das hipóteses são questões ainda sem resposta, mas o fato é que o pais que tanto falou de renovação e mudança nos últimos anos, caminha para eleger como presidente um nome já conhecido, com uma carreira construída nos moldes da política tradicional. Seja por dificuldades de articulação política, seja por qualquer outra adversidade, os outsiders serão meros coadjuvantes nesta disputa.

* Gabriel Azevedo escreve todas as terças-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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