Está aberta a temporada de desmentidos na campanha eleitoral. Na busca por votos em um ambiente polarizado e hostil, candidatos à sucessão de Temer e apoiadores expõem propostas que misturam absurdos, inviabilidades jurídicas e constitucionais, e ameaças ao sistema democrático. Tudo feito para seduzir os grupos mais radicais do eleitorado, que se encantam facilmente com o discurso vazio, mesmo que sua viabilização seja inexequível. Depois que os factoides são mal recebidos, vêm o desmentido oficial e a famosa frase feita: “Minhas palavras foram deturpadas.”

De Ciro a Bolsonaro

Na barca da insensatez declaratória, há espaço para todos, de Ciro a Bolsonaro, passando por Geraldo Alckmin e pelo PT. Entre os citados, o PT é justamente o único que ainda não procurou desmentir o que foi publicado em nome do partido. Com o ex-presidente Lula preso e a cada dia mais distante da disputa eleitoral, o Partido dos Trabalhadores aposta na manutenção da esperança da militância e, para isso, vale tudo: desde propor plebiscito logo no começo do mandato de um possível petista, seja ele quem for, até cercear a ação da Justiça com a transformação do STF numa “corte constitucional.”

No caso específico do PT, a análise do jornalista Elio Gaspari, publicada no último domingo nos jornais Folha de São Paulo e O Globo, é irretocável. O texto “O PT nada aprendeu, nada esqueceu” aponta que a proposta do plebiscito para revogar as medidas aprovadas pelo governo Temer é manobra golpista, inspirada no jeito venezuelano de mutilar a democracia. Gaspari também destaca que, sem apoio no Parlamento, um hipotético governo petista recorreria ao carcomido presidencialismo de coalização, justamente o que levou aos escândalos do Mensalão e da Lava Jato.

Bom, enquanto o PT faz de tudo para manter acesa a vela da utópica candidatura de Lula à presidência da República, os demais candidatos procuram desmentir fatos, declarações e alianças que podem lhes causar embaraços maiores. Nessa segunda, em Belo Horizonte, Geraldo Alckmin fez questão de afirmar que não fará nenhuma mudança na Reforma Trabalhista, apresentando-se como um dos grandes responsáveis pelas modificações na legislação trabalhista. O ex-governador de São Paulo tentou, dessa forma, eliminar reações adversas à possibilidade de, caso eleito, restituir a cobrança do imposto sindical, extinta pelo governo Temer.

Telefone sem fio

O disse me disse sobre a possibilidade do tucano mudar a Reforma Trabalhista começou no dia em que a massa disforme do Centrão acolheu Alckmin em seus braços. Paulinho da Força, líder do Solidariedade, fez questão de dizer que o apoio ao ex-governador de São Paulo teria a volta do imposto sindical como contrapartida. O candidato do PSDB foi ao Twitter informar que era contrário ao retorno do imposto. Paulinho bateu o pé, fez pressão e a situação ficou em suspenso até segunda-feira passada quando o candidato procurou esclarecer de uma vez o tema.

Na linha do “Eu não quis dizer isso”, Ciro Gomes, mais uma vez, teve que explicar seus arroubos verbais. Em entrevista a uma emissora de TV do Maranhão, na semana passada, o pedetista disse que Lula só tem chance de sair da cadeia se “a gente assumir o poder e organizar a carga. Botar juiz para voltar para a caixinha dele, botar o MP para voltar para a caixinha dele e restaurar a autoridade do poder político.” As afirmações foram interpretadas como ameaças ao Judiciário e ao Ministério Público, e as críticas não demoraram a surgir.

Ciro

Forçado a se explicar, Ciro lançou mão do expediente de afirmar que sua fala foi adulterada: “Quando eu disse a gente, eu não quis dizer eu. Quis dizer os democratas, os que têm compromisso com o Estado democrático de direito, com o restabelecimento da autoridade, do império da lei, que, no Brasil, parece estar completamente deformado”, se defendeu. Sem o apoio do Centrão e vítima do próprio destempero, o pedetista, de agora para frente, tentará frear seus impulsos. Só não se sabe se esse esforço pela moderação vai gerar frutos.

Bolsonaro

A polêmica com Jair Bolsonaro, do PSL, despertou a ira dos defensores da natureza nas redes sociais, onde o ex-capitão do Exército é o candidato de maior relevância. Durante visita de campanha a Rio Verde, interior de Goiás, ao lado de um representante da Associação Nacional de Caça e Conservação, Bolsonaro foi gravado ao afirmar que, se eleito, iria “eliminar a burocracia e liberar a caça no Brasil”, chamando a prática de esporte saudável. Foi o suficiente para os domínios virtuais do ex-militar serem ocupados por críticos à morte de animais por esporte.

A repercussão negativa assustou o candidato, que se apressou em gravar outro vídeo no qual afirma que ele se referia especificamente “à caça de javali”, espécie invasora que causa prejuízos a agricultores e ao meio ambiente em vários Estados. Bolsonaro também disse que foi vítima de fake news e que o vídeo feito em Rio Verde foi editado. O debate, entretanto, não refluiu e ainda continua nas mídias sociais. Em tempos de nervos ideológicos à flor da pele, os candidatos estão aprendendo que todos têm o direito de falar o que bem quiserem, mas o preço a ser pago por eventuais incontinências verbais é muito alto e pode custar votos preciosos.

* Gabriel Azevedo escreve todas as terças-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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