Foi bom enquanto durou a expectativa mais favorável à retomada da economia brasileira. Até meados de abril, resistia a esperança (quase fé) de que a engrenagem que empurra o país para fora da crise seria capaz de atravessar as incertezas políticas sem muitos solavancos, pelo menos até bem perto das eleições de outubro. Fica cada dia mais evidente que a qualidade da estrada foi superestimada e a quantidade de combustível no tanque também.

Justiça seja feita, se tudo fosse culpa só dos nossos problemas, a autocrítica poderia ser mais dura. Donald Trump e a vizinha Argentina fizeram o favor (ou desfavor) de adicionar buracos pelo caminho. Os destemperos do presidente americano provocaram uma alta inesperada do dólar no mundo todo, que por sua vez, encurralou os argentinos a ponto de eles pedirem socorro ao FMI! Mesmo que a gente não tivesse os imbróglios que temos, já seria motivo suficiente para chacoalhar a carruagem.

Da nossa parte, a revisão das estimativas já vinha acontecendo pelas beiradas. Os estímulos para os ajustes vieram de várias fontes, com as seguidas frustrações com resultados sobre a atividade no primeiro trimestre do ano. Lembremos que o consumo das famílias era apontado como o líder da retomada em 2018, seguido pelos investimentos. A inflação muito baixa e a queda da taxa de juros corroboravam a tese.

Quando o mercado de trabalho mostrou que a coisa não vai tão bem assim, o alerta aumentou. Quem experimentava um sono mais tranquilo sem medo do desemprego, voltou a dormir incomodado. Esta insegurança latente está afetando a disposição de consumo das famílias e até a lista do supermercado voltou a sofrer cortes. Sem querer ser engenheira de obra feita, já sendo, agora também está ficando claro que o impulso do FGTS liberado no ano passado foi pontual.

Na época da liberação dos mais de R$ 44 bilhões do Fundo, foi comum o entendimento (inclusive o meu) de que o dinheiro extra daria um fôlego às compras num primeiro momento, e, em seguida, ajudaria a equilibrar o orçamento das famílias com pagamento de dívidas, liberando espaço para novas frentes de consumo. A tese sobreviveu mais tempo porque a redução da taxa de juros foi mais forte do que se esperava, o que baratearia o crédito.

Do lado dos investimentos tudo também corria bem. O aumento na produção e na importação de máquinas e equipamentos deram a impressão de que os empresários já estavam confiantes com a recuperação. Faltou combinar com a turma da construção civil e da infraestrutura, que não alcançaram o mesmo grau de confiança, menos ainda de resultados. O investimento ainda cresce, mas com menos fermento e agora mais ameaçado pelas turbulências externas.

Estamos aprendendo muito sobre a dinâmica da economia brasileira pós Nova Matriz Econômica e, especialmente, sobre as reais sequelas da pior recessão da história. Nada do aconteceu até agora tem força suficiente para estacionar o processo de retomada, mas a calibragem nas expectativas é inevitável. O chato é que a turbulência esperada acabou chegando mais cedo, antes que a redução dos juros, por exemplo, tivesse já alcançado mais consumidores e empresas.

O quadro político também piorou antes do esperado. E é a indefinição que tem gerado mais incertezas, não o fortalecimento de um candidato que “não agrada” ao mercado ou ameaça as reformas. O Congresso Nacional, especialista em atrapalhar, ao invés de ajudar, está cumprindo seu papel. O atraso em votações como a do Cadastro Positivo (que foi aprovado na Câmara, mas ainda sem os destaques) revela que a má fé dos interesses de poucos continua vencendo com folga o que é melhor para o país.

Esta alta recente do dólar, mesmo sendo alimentada pelo exterior, pode balançar um pouco, mas não deve assustar. Afinal, temos mais de US$ 380 bilhões de reservas internacionais, um déficit das contas externas de 0,5% do PIB e uma inflação correndo abaixo dos 3%. Uma conjuntura que nunca experimentamos antes e que, certamente, vai provocar efeitos diferentes do que sempre assistimos no Brasil toda vez que a moeda americana se valorizou – por culpa nossa ou não.

O melhor é colocar as expectativas na salmoura. A receita “velha” revela a minha geração, mas não perde eficiência. O Banco Central já disse que vai reduzir mais a taxa de juros na próxima semana e isto ainda deve provocar reações positivas ao longo dos próximos meses, mesmo que o quadro político esteja mais instável. Afinal, o Brasil não vai parar, nem consegue, somos um transatlântico, não uma canoa popópó.

* Thais Heredia escreve todas as quintas-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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