• A variação do IPCA em julho foi de 0,36% m/m (frente 0,26% em junho), em linha com a mediana das expectativas. A taxa de inflação de dos últimos doze meses ficou em 2,31%.
  • O maior impacto no índice veio do grupo Transportes, 0,15 ponto percentual (p.p.), seguido pelo grupo Habitação, que contribuiu com 0,13 p.p. Ou seja, esses dois grupos foram responsáveis por cerca de 80% da inflação do mês, de forma que julho foi o mês da gasolina (impacto individual de 0,16 p.p. no IPCA cheio) e energia elétrica (impacto individual de 0,11 p.p. no IPCA cheio).
  • Serviços apresentou variação de -0,10%. Na comparação interanual, a inflação de serviços recuou pelo terceiro mês seguido e apresentou variação de 1,51%. Serviços Subjacentes recuou pelo quarto mês consecutivo e apresentou variação de 2,50% na mesma base de comparação. ▪ Os núcleos subiram 0,13%, em média (contra 0,11% em junho). Os núcleos apresentam inflação de 2,10% a/a, em média.
IPCA Variação %

O gráfico abaixo mostra a variação mensal do IPCA este ano. Podemos ver que o primeiro bimestre do ano paresentou inflação abaixo do ano passado e abaixo e 1 desvio-padrão da média histórica para o período (área hachura mostra um desvio-padrão da média hitórica). A crise econômica gerada pelo surto de Covid-19 impactou negativamente nos preços de março a maio. Esperamos inflação de agosto bem próxima da variação vista no mesmo mês do ano passado, ao redor de 0,10%, mas com arrefecimento em relação ao ano passado a partir de setembro. Projetamos um IPCA de 1,7% no final do ano, bem abaixo da meta de 4,00%.

IPCA (%) - Var. mensal e distribuição histórica.
IPCA, %
IPCA Administrados, %

Apesar do aumento recente do preço de administrados, observamos manutenção nas taxas interanuais dos preços livres desde março. A crise econômica causada pelo Covid-19 implicou em aumento no preço de comercializáveis, que são influenciados em primeira ordem pela depreciação do real frente ao dólar, e uma queda no preço de não-comercializáveis, que está ligada à forte crise no setor de serviços. Os dois efeitos têm apresentado um resultado líquido próximo de zero com pouca influência nos preços livres.

Projetamos que o efeito da queda nos preços de não-comercializáveis dominará o comportamento dos preços livres ao longo dos próximos meses (projeção sob câmbio entre  R$/US$ 5,40 – 5,10). Baixa inflação no segundo semestre será influenciada pela queda na inflação de serviços.

IPCA Livres, %
IPCA Comercializáveis, %
IPCA não Comercializáveis, %
IPCA Serviços, %
IPCA Núcleos, %

Preços no Atacado vs Preços no Varejo

Nos últimos meses tem chamado a atenção o descompasso entre a inflação no atacado e a inflação ao consumidor. O IGP-DI acumula alta de 7% no ano enquanto o IPCA apresentou alta de 0,46%. Contudo, esse descompasso não é tão recente, de fato, temos visto menores repasses do atacado para o varejo desde 2018.*

O gráfico abaixo mostra que entre 2015-2016, a inflação acumulada para o IPCA foi de 17.3% e para o IPA-DI foi de 18.6%, indicando um repasse de 0.93. Entretanto, no período 2017-2020, a inflação acumulada do IPCA foi de apenas 9.7%, enquanto para o IPA foi de 30.8%. Isso mostra uma queda do repasse para apenas 0.32, em média.

IPCA-DI vs IPCA (30 dias à frente)

Esse mesmo resultado vale para os subgrupos da indústria e agro, apresentados nos gráficos abaixo. Uma parte da queda no repasse é explicada pelo alto grau de ociosidade da economia brasileira após a crise de 2015-2016. Contudo, nossos exercícios estatísticos mostram que mesmo controlando para o nível de atividade, o repasse do atacado para o varejo recuou significativamente a partir de 2018. Ou seja, existem outros efeitos atuando na queda do repasse.

Avaliamos que essa redução no repasse é resultado também da flexibilização recente no mercado de trabalho (via terceirização e reforma trabalhista) que possibilita novas formas de contratos de trabalho. Isso permite às empresas acomodar choques inflacionários diminuindo custo marginal. Como resultado, nem todo o choque de preços é repassado: parte é absorvido pelas empresas via queda de margem (devido ao alto grau de ociosidade), e outra parte é compensado por ajustes no custo marginal.

IPCA-DI Agro vs IPCA Alimentação (30 dias à frente)
IPA-DI Industrial vs IPCA Industrial (30 dias à frente)

Nos últimos anos as firmas passaram a ter um grau de liberdade adicional na determinação dos preços. Esse é um dos motivos por trás do recente baixo pass-through do câmbio para os preços. Além disso, é um fator estrutural que deve permanecer ativo na economia brasileira.

*Um choque no preço do atacado é repassado para o varejo em até 6 meses (bens comercializáveis têm repasse mais rápido). Em média, 70% do choque é repassado em até 3 meses onde o repasse maior ocorre já no primeiro mês após o choque.

Equipe Macro

José Márcio Camargo
Tiago Tristão
Eduardo Ferman

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Publicado por Tiago Tristão

Doutor em economia pela PUC-RJ é analista de atividade econômica na Genial Investimentos.

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