A GENIAL inicia nesta semana uma série de entrevistas com os mais bem-sucedidos operadores e gestores de recursos do país, os Magos do Mercado.

Por meio de uma abordagem inédita, mergulharemos nos universos pessoal e profissional destes profissionais para entender o que está por trás de seu extraordinário sucesso.

Como vieram parar no mercado financeiro? Quais são suas principais estratégias? Como lidam com os riscos e as pressões da profissão? Aonde pretendem chegar?

Magos do Mercado é, portanto, mais do que somente uma coletânea de conversas. É um registro valioso para todos aqueles que buscam inspiração para atingir o sucesso em seus investimentos e carreiras profissionais.

Nosso primeiro entrevistado é o gestor Carlos Eduardo Rocha, o Duda. Ex-sócio do Banco Pactual, Duda hoje é sócio – e foi um dos fundadores – do grupo Brasil Plural, que controla a empresa Geração Futuro, casa da GENIAL.

Carlos Eduardo Rocha, o Duda: “Minha marca mais forte é a persistência”

Nos últimos anos Duda ganhou praticamente todos os prêmios dedicados aos gestores de recursos do país. Foi eleito Melhor Gestor de Renda Variável, Melhor Gestor de Multimercados, Melhor Fundo de Ações do Brasil e teve vários dos fundos sob sua gestão classificados como “cinco estrelas”.

Com mais de 15 bilhões de reais sob gestão atualmente, Duda mostrou-se capaz de entregar resultados surpreendentes para seus investidores, mesmo em momentos de crise aguda dos mercados.

Um milhão de reais investidos em seus fundos ao longo dos últimos sete anos (período em que possui histórico como gestor de fundos abertos) teriam se transformado em cerca de 3,2 milhões de reais, contra 760 mil reais se investidos no índice Bovespa e 2,11 milhões de reais se investidos na taxa acumulada do CDI.

De personalidade aguerrida e forte, uma história contada pelos seus amigos próximos parece definir bem sua vontade de vencer.

Num jogo de futebol entre seu time de colégio e outro adversário, Duda era o capitão do time. O jogo estava empatado e muito disputado. O adversário então teve uma grande chance para marcar um gol, mas foi parado pelo goleiro do time de Duda, que chocou suas pernas fortemente com as pernas do atacante.

Sem conseguir levantar com as dores que sentia, o goleiro queria desistir. Duda disse-lhe que esta não era uma opção, precisava imediatamente se recompor e ir até o final do jogo. Temendo contrariar a ordem enfática do capitão do time, o goleiro se colocou de pé e seguiu mancando até o final do jogo. Duda venceu o jogo. O goleiro constatou que havia quebrado as duas pernas.

Esse é Carlos Eduardo Rocha, um obcecado por vencer.

GENIAL: Carlos Eduardo ou Duda, como você prefere ser chamado?

Duda: Prefiro Duda. É como sou conhecido no mercado financeiro, além de ser uma forma de tratamento que traz mais proximidade, uma certa intimidade com os clientes. Ter o cliente sempre perto tem tudo a ver com a imagem, a missão e a visão da Geração Futuro.

GENIAL: Fale um pouco sobre a sua caminhada antes do mercado. Onde você nasceu, estudou e quais eram os seus hobbies?

Duda: Sou carioca, de classe média-alta e estudei numa escola tradicional do Rio, o colégio Santo Inácio. Depois, cursei engenharia na PUC-Rio. Meu pai, que foi o principal formador do meu caráter, era um sujeito muito empreendedor. Ele tinha uma firma de engenharia, e nós tínhamos sempre nosso apartamento penhorado para ele construir um novo. Essa persistência, essa tenacidade, e esse senso de empreendedorismo e de tomada de risco sempre foram bastante fortes nele e me marcaram bastante.

Quanto aos hobbies, eu sempre fui um apaixonado por esportes. Apesar de não ser um virtuose, consegui me destacar em várias modalidades. Fui campeão brasileiro de remo, além de atleta de basquete e handebol. Também cheguei a jogar em times de futebol de destaque. Sempre com uma vontade enorme de vencer, e sem me contentar com resultados adversos. Essas sempre foram características fortes minhas.

Outra atividade importante foi a leitura. Eu tive o privilégio de ter na minha casa uma biblioteca bastante completa. Desde o início da adolescência eu fui um apaixonado por livros e informação. Li enciclopédias completas sobre assuntos como História e o Iluminismo. Também me fascinava o pensamento estratégico – li obras como a coleção completa do Sherlock Holmes do Conan Doyle.

GENIAL: Como era o Duda menino? As pessoas próximas contam que você era uma criança que liderava e que até punha medo nos amigos pela intensidade com que se lançava em suas atividades.

Duda: Eu era realmente exagerado, e acho que isso tem um lado positivo: eu sempre me joguei, entrei de coração nas coisas. Na verdade, muitas vezes eu sou uma pessoa até circunspecta, pensativa, mas quando sou chamado à luta é diferente. Parece que há algo muito bravio, explosivo contido em mim.

Esse lado se manifesta quando eu tenho convicções fortes, nos esportes ou em disputas. Esse inconformismo foi muito importante para a minha formação e para eu mirar em objetivos mais ambiciosos na vida.

GENIAL: Foi essa característica que fez você buscar o mercado financeiro, ou foi o mercado financeiro que buscou você?

Duda: Fui eu que procurei o mercado financeiro, e foi basicamente por dois motivos. O primeiro é que eu tive o privilégio de ter um padrinho que é um dos maiores matemáticos do mundo. Inclusive ele é um dos coordenadores do CNPq.

No começo da minha adolescência, ele me deu livros sobre formulações matemáticas para o mercado financeiro. E ele sempre comentava comigo sobre seu fantástico hobby: desenvolver modelos matemáticos para operar bolsas no mundo inteiro. Ele tem um minicomputador em casa no qual ele deixa esses programas rodando à noite. Normalmente a gente perde dinheiro com hobbies, mas ele ganha.

Um (livro) que me marcou muito foi “Reminiscências de um especulador financeiro” [de Edwin Lefèvre]. Eu vi muita riqueza, muita oportunidade ali.

Enfim, eu me vi com 15, 16 anos interessado pelo mercado por conta dos livros que ele me dava. Um que me marcou muito foi “Reminiscências de um especulador financeiro” [de Edwin Lefèvre], um clássico do mercado financeiro. Eu vi muita riqueza, muita oportunidade ali.

O outro motivo que me levou ao mercado foi o meu desejo de meritocracia e justiça. Nos anos 1980, o Brasil vivia uma época de desarranjo econômico e falta de oportunidade. Eu sempre clamei por Justiça, e eu não via meritocracia nas estruturas existentes. Então eu fui procurá-la no mercado financeiro.

Fui ao maior banco de investimento da época. Bati à porta dele duas vezes e me respondiam que não tinha vaga. Mas eu tinha amigos ali e via que estavam vivendo a meritocracia com base no seu esforço. Pelo meu histórico, eu sabia que minha dedicação não seria um problema. Eu via as pessoas reclamando de chegar cedo para trabalhar, por exemplo, e pensava que, para mim, que acordava às 4h30 da manhã para ir ao remo, isso não seria um problema.

Na terceira vez que busquei o banco, eu consegui convencê-los. Lembro que na entrevista falei assim: “sei que não há vagas, mas se vocês me colocarem aqui, eu não vou discutir salário. Acabei de me formar, já sou assessor de diretor em uma seguradora internacional, mas não vou discutir nada. O que eu garanto a vocês é que um dia eu vou ser sócio e vou empurrar essa corporação para frente”.

Eu surpreendi o entrevistador, e ao falar com os sócios, disse a mesma coisa. Eu acreditava tanto na meritocracia que, mesmo tendo perdido o meu pai e precisando me manter, eu fui trabalhar nesse banco de investimentos ganhando seis vezes menos do que eu ganhava no emprego anterior. Foi um desafio enorme até para sobreviver, mas fui me dedicando e gostando do que eu fazia cada vez mais.

Como eu clamava por meritocracia, eu nunca quis pular degraus dentro do meu crescimento. Quis passar por todos os estágios, me basear realmente em pilares fortes, nunca me sentir despreparado ao ir para um nível superior ao que eu estava. Este foi outro aspecto muito importante para a minha formação.

GENIAL: As histórias sobre os ambientes dos bancos de investimento no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 são assustadoras. Quando você chegou ao mercado, ele era parecido com o que você imaginava, ou muito diferente? Houve um choque?

Duda: Não foi fácil, eu tive um choque de realidade. Eu era muito reconhecido academicamente e no meu emprego anterior, numa multinacional francesa na qual eu era muito bem avaliado. Quando eu entrei no mercado financeiro, dando uma dedicação enorme, parecia que não importava o que eu fizesse, eu não satisfazia.

Eu entrei em embates diretos com meu superior imediato, que depois até se tornou meu amigo. Isso foi sempre uma constante no mercado financeiro. Talvez porque haja muitas pessoas alfa, que sempre querem liderar, e aí há muito conflito.

Eu acabei aprendendo que os antagonistas são os maiores responsáveis pela nossa evolução.

Eu acabei aprendendo que os antagonistas são os maiores responsáveis pela nossa evolução. Eu tomei aquela situação como um desafio, contornei-a, e depois fui perceber que as pessoas que mais me desafiavam eram as que mais me admiravam e queriam me ver crescer na carreira.

Como eu não tinha ideia disso no início, para mim foi um choque. Minha história não teve só alegrias, teve desafios e dramas também, mas eu acho que é disso que é feita a evolução. Sou agradecido pelas oportunidades que tive e até pelo que sofri, porque foram as coisas que formaram meu caráter.

GENIAL: Você já começou como operador? Que funções desempenhou no mercado financeiro antes de se tornar gestor?

Duda: Não comecei como operador. Antes de entrar nesse banco de investimentos, eu era assessor de um diretor, auxiliando-o na gestão de uma carteira de investimentos, com 24 anos de idade. Já no banco, comecei trabalhando no Back Office, na parte de suporte. Era uma rotina pesada e repetitiva. Eu fazia as transferências de dinheiro e não podia errar. Na época, não havia sistemas que efetivassem isso corretamente, então eu tive que desenvolvê-los. Aprendi a duras penas a tolerância zero ao erro.

Também era muito desgastante a carga horária que eu tinha. Eu era o primeiro a chegar, em torno de 7h da manhã e era praticamente o último a sair, às 22 horas. Tinha rotinas que eu fazia às 21h30 e rotinas que eu tinha que começar às 7h, para todas as carteiras estarem prontas às 8h, 8h30 da manhã na mesa de operações.

Eu imediatamente comecei a me destacar, porque eu pensava muito em inovar e iniciei uma área de risco no banco. Ter sido analista de risco antes de ser gestor de recursos foi muito importante, pois acredito que, para ser um gestor, você primeiro tem que saber gerir risco, preservar capital, ver quanto você pode perder numa operação, entender todo o arcabouço estatístico por trás, para depois ver os fundamentos em si.

O mercado financeiro tem um grau de imprevisibilidade enorme, você pode errar fazendo as coisas certas. Se você errar, tem que saber que padrão esperar ou aceitar, e como lidar com os erros.

GENIAL: Como foi o começo da sua carreira como trader? Foi como você imaginava quando você era analista e ficava só na parte teórica?

Duda: Eu nunca imaginei que seria exatamente um operador ou um trader, eu sempre imaginei ser um investidor. Depois de passar pela área de risco, eu fui analista de buy side [que recomenda ações para as posições proprietárias da empresa], analista-diretor de buy side, analista de sell side [que recomenda ações para clientes da empresa] e da área de sales, para conhecer todas as contas que tínhamos no Brasil, abrir outras que não existiam e ter contato com gestores de fora do país.

Pela minha formação, portanto, não me considero exatamente um trader. Não só no sentido de que não opero para o curto prazo, mas principalmente porque eu não venho ao trabalho para simplesmente comprar e vender ações. Eu venho para estudar muito, montar estratégias, me basear em fundamentos e nas filosofias dos gurus que eu estudei, como Benjamin Graham e Warren Buffett. Eu olho para o cenário macroeconômico do Brasil e do mundo para não cometer erros, como encontrar uma boa empresa em um setor ruim. Mas também vejo aspectos microeconômicos.

Nenhum trade é exatamente como você espera, pois sempre há adversidades. E no começo é sempre difícil. Um dos meus gurus, o Peter Lynch, já disse que toda vez que ele era promovido, passava por um momento de mercado muito ruim. E nisso eu me identifico com ele. Eu fui para a mesa de operações em 2000, pouco antes do ataque às Torres Gêmeas, em 2001, quando o mercado sucumbiu.

Foi a primeira experiência de medo maior que eu tive, porque eu já tinha no meu sangue essa coisa de não aceitar perder o jogo. Eu sempre fui um lutador. Uma coisa que sempre me irritou profundamente, tanto como atleta quanto como profissional, é a pessoa que aceita as coisas passivamente e desiste em situações de desvantagem. Eu acho que nesses momentos, você tem que lutar mais, fazer diferente, inovar.

Quando o mercado não está favorecendo uma estratégia, você deve parar, estudar e montar outra estratégia, para outro investimento que faça sentido naquele momento.

Então logo no começo, com o mercado vindo muito contra, eu não conseguia resultados. Não que eu tivesse perdas, mas eu sempre me cobrei um patamar acima. Eu estudava muito. Eu só tirei férias quando casei, e aí foi ainda pior. O mercado caiu muito nessa época e eu passei uma lua de mel sofrida nesse ponto. Foi decepcionante. Não me canso de me surpreender com o quanto o mercado pode ser frustrante e como você tem que administrar essa frustração.

Mas eu sabia o que estava fazendo. É muito importante um gestor não dar murro em ponta de faca. Quando o mercado não está favorecendo uma estratégia, você deve parar, estudar e montar outra estratégia, para outro investimento que faça sentido naquele momento. Eu sempre tive a humildade de reconhecer isso, e não via outra alternativa para mim além de vencer.

Sempre estudei muito, procurei aprender com os grandes gurus e até mesmo no meu trabalho, com outras pessoas do mercado, que podiam ter inúmeros defeitos, mas se tinham alguma qualidade superior às minhas, eu procurava absorver.

GENIAL: Você lembra qual foi sua primeira grande tacada? Qual foi o primeiro papel que você acertou? E qual ação foi sua primeira grande frustração?

Duda: O primeiro ganho relevante foi logo no início dos anos 2000, com as ações da Gerdau. Era a minha maior posição na época. A companhia tinha feito uma reestruturação financeira no começo dos anos 2000, e passou a ser uma empresa de alta governança. Ela tinha uma posição de dominância no mercado local e foi o papel que mais subiu naquela década. Multiplicou seu valor por dez. Eu era próximo da empresa, conhecia todos os diretores pessoalmente. Fiz um estudo profundo da Gerdau, sabia seus estoques e o preço do vergalhão, que é seu principal produto, todos os dias.

Na época, o mercado passou por grandes provações, com a crise de 2001 e a eleição do Lula em 2003. Depois disso, houve o boom das commodities por conta do crescimento da China. E como eu não tinha desistido do mercado mesmo com as crises, e havia estudado muito os mercados externos, pude aproveitar essa alta. O papel multiplicou por dez vezes seu valor neste período.

Já a minha primeira grande decepção, justamente no início da minha carreira como gestor, foi com uma operação chamada de merger arb, uma arbitragem baseada em uma fusão de empresas, com as ações de Telefônica e Telefônica Brasil. Essa operação fazia todo sentido na época. Mas o mercado vinha combalido da crise da Ásia no fim dos anos 1990 e estava um pouco cético sobre a operação, então havia uma diferença de preços extremamente alta entre os dois papéis.

A operação podia ser feita com 15%, 20% de desconto, e eu me posicionei em Telefônica Brasil. Mas com a queda das Torres Gêmeas, o mundo perdeu os parâmetros. Foi algo inesperado, que fez o mundo tremer e os mercados financeiros congelarem. Países mais frágeis, como os emergentes – e o Brasil ainda não tinha grau de investimento – tiveram uma derrocada macroeconômica muito forte.

Uma das pré-condições em contrato para ocorrer a fusão era haver boas condições de mercado, só que a bolsa caiu mais de 30%, fazendo a Telefônica desistir da operação. E eu estava numa posição desfavorável.

Apesar de eu ter discutido essa operação com os sócios e eles estarem de acordo, eu me senti muito responsável. A operação abriu justamente quando eu estava em lua de mel. Um trade como esse, quando não se concretiza, faz com que você perca tanto na ponta comprada quanto na ponta vendida. Pode haver perdas maiores que o valor total investido se você não tomar cuidado. Eu vinha ajustando um pouco o risco, mas mesmo assim foi um evento importante.

Essa foi uma operação que eu fiz com dinheiro da tesouraria do Pactual, pela qual eu fui responsável por dez anos. Mas na gestão dos fundos da Geração Futuro nós não fazemos operações como essa, em que você pode perder mais do que aquilo que pode ganhar.

Eu acredito que quando você está lidando com o dinheiro de um cliente, tão ou mais importante do que quanto dinheiro você ganha para eles é a forma como você ganha. O cliente não está ali do seu lado para ver o que você está fazendo, então é melhor que as surpresas sejam positivas, não negativas.

GENIAL: Onde você busca o suporte emocional em uma situação difícil como essa?

Duda: Eu brinco com os gestores que eu formo que o gestor não pode gostar muito de si mesmo. Ele tem que ter noites mal dormidas, estar sempre preocupado. Anos com performances muito boas não significam nada para mim, pois há sempre clientes novos ingressando nos fundos. Eu não gosto quando tenho uma perda mais relevante num dia. Eu durmo mal, repenso, me questiono. E tem que ser assim.

Além, é claro, de ter uma família bacana, eu acho que nessas horas você tem que ter também sócios bacanas, que entendam, e quando você vai para a meritocracia, você lidera pelo exemplo.

Quando a Brasil Plural comprou a Geração Futuro, eu fiquei três anos sem tirar férias. Quando você tem um grande desafio, você tem que se dedicar mais, chegar mais cedo, pensar numa estratégia diferente e não pode errar. Como resultado, tivemos a felicidade de ganhar todos os prêmios de gestão, de melhores fundos de ações, multimercados e renda fixa.

Na hora das provações, você tem que lembrar que o mercado tem sempre razão e de que você trabalha para os clientes. É preciso ter humildade para se recuperar das perdas. Foi um técnico de basquete que me deu um dos maiores ensinamentos que eu já tive sobre risco. Ele dizia que o basquete é um esporte muito dinâmico. Se você está 20 pontos atrás, não é hora de arriscar mais e tentar cestas de três pontos. É hora de marcar mais e tentar as cestas de menor risco, debaixo da cesta, ou mesmo as faltas. Se for assim, dentro de cinco minutos a partida estará empatada. Ou seja, quando você está em desvantagem, não deve arriscar mais, e sim menos. Mas isso só é possível com muito estudo e dedicação.

Mas do ponto de vista emocional, eu sempre busquei a fé mesmo. Procuro lugares sagrados para me recolher, pensar, limpar a mente. Locais como igrejas ou que tenham uma natureza exuberante, onde eu possa ficar um pouco só e refletir sobre os meus atos. Eu acredito que o sucesso também tem um pouco do transcendente, do inexplicável.

GENIAL: As duas grandes forças na vida e no mercado são medo e ganância. E elas disputam a soberania da mente das pessoas. Qual dessas duas forças você acha que vence com mais frequência, e qual das duas é a mais perigosa?

Duda: Gestores de recursos precisam ser, antes de tudo, muito responsáveis. Acredito que na maioria dos casos prevalece o medo, porque é isso que ocorre na própria experiência humana. Para gestores e clientes, perder é pior do que não ganhar ou não ganhar muito. As pessoas têm aversão a risco, mas têm aversão ainda maior a perdas, porque às vezes os investidores querem correr risco, mas ninguém quer perder.

Agora, uma coisa que a gente sempre fez na Geração e que é fundamental é o alinhamento de interesses entre clientes e gestores. É fundamental que o gestor seja investidor dos fundos e tenha ambições no longo prazo. Se não, ele terá incentivo para ser ganancioso: ganha um bônus alto se tiver ganhos, mas se tiver perdas, pode até perder o emprego, mas quem perde o dinheiro são os clientes. Sem alinhamento de interesses é perverso.

GENIAL: Qual você acha que é a sua principal marca, seu diferencial como gestor?

Duda: Minha marca mais forte é a persistência.

GENIAL: Você tem performances muito boas em tempos de crise. Como consegue isso?

Duda: A partir do momento em que você se apresenta como responsável para o seu cliente, propondo multiplicar seu patrimônio de forma a ter retornos ajustados ao risco, você não pode dar desculpas. Eu gosto de fazer gestão líquida justamente porque você tem um valor de cota diário e sua performance é continuamente mensurada. Não existe papo mais reto com o cliente do que os seus resultados.

Eu acho que um gestor é testado realmente nos momentos de crise. E se você é persistente, se num momento de crise se propõe a continuar com as metas que você já tinha, você não tem desculpa. Há sempre algo para fazer no mercado.

No ano de 2015, por exemplo, houve uma crise macroeconômica forte e alta do dólar. As empresas exportadoras ofereciam uma estratégia vencedora. Ou ainda o fato de o Brasil ter tido juros altos por muito tempo. Na década de 1990, o setor bancário foi o que mais se valorizou por causa disso. O importante é compreender o setor certo para se posicionar.

Nos fundos multimercados é melhor ainda. Neles, você não precisa necessariamente apostar na melhora do mercado. Você pode estar muito protegido ou até apostando na deterioração, se for o caso.

Nas crises, quando o medo se amplia, existem o que eu chamo de quatro pecados capitais, que devem ser evitados.

O importante, no momento de crise, é saber baixar o risco, ver as oportunidades e entender o seguinte: nas crises, normalmente a volatilidade aumenta. Se a volatilidade dobra, isso quer dizer que você é capaz de conseguir os mesmos resultados com metade das posições. Mas você não pode ficar passivamente esperando por isso.

Nas crises, quando o medo se amplia, existem o que eu chamo de quatro pecados capitais, que devem ser evitados.

O primeiro é a paralisia. Nessas horas, as variáveis macroeconômicas, como juros e câmbio, mudam fortemente. Você tem que atuar na sua carteira, baixar o risco quando necessário.

O segundo é a leniência, que é uma tolerância excessiva ao risco. Você tem ativos mais frágeis, mas não sai deles. Nisso eu incluo os ativos que você achava que seriam mais resilientes, mas que não estão tendo boa performance.

O terceiro é a esperança de melhora. Um gestor nunca pode contar somente com a esperança, ele tem que ser pragmático. Também não pode se iludir com a própria mensuração e interpretar dados estatísticos de forma errada, esperando que as tendências se repitam quando na verdade os padrões mudaram fortemente. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 2015 com o câmbio. Muito dificilmente a gente voltaria para o câmbio de dois reais, e esta se tornou a nova premissa para se avaliar empresas, tornando as exportadoras grandes vencedoras e as empresas com dívida em dólar grandes perdedoras.

O quarto e último pecado é a covardia. Se você tem um mandato para tomar risco e ganhar dinheiro para os investidores, há sempre oportunidades para isso. Você não pode se afastar completamente do seu mandato. Não pode ter covardia e ficar só com caixa ou não aproveitar oportunidades de gerar alfa, por exemplo, que é aquele ganho que independe da direção geral do mercado. Você tem que atuar, porque é o que está no seu mandato.

Os investidores costumam ter muita covardia nas crises, mas nesses momentos surgem oportunidades de se ganhar muito dinheiro.

GENIAL: Quando você não está trabalhando, o que faz para buscar foco, concentração, velocidade de resposta? Você mantém os hobbies de quando era mais novo?

Duda: Uma das minhas maiores motivações é o fato de que eu continuo com as mesmas aspirações de quando eu era adolescente e me interessava por esportes e por estudar.

Nos estudos, eu já li muito a parte técnica do mercado financeiro – Warren Buffett, Benjamin Graham, livros sobre opções… Quando eu entrei no mercado financeiro estavam surgindo talvez os grandes livros técnicos da geração pós-anos 1990, como os do [professor Aswath] Damodaran. Ele simplificou de tal forma a avaliação de empresas que eu fiquei fascinado e decidi conhecê-lo melhor. Fui uma das primeiras pessoas a fazer um curso diretamente com ele, na New York University. Essa curiosidade para mim foi fundamental.

Mas como o mercado é basicamente feito por pessoas, movidas a medo e ambição, e como eu já estudei muito a parte técnica, hoje mais da metade do meu tempo de estudo é destinado às humanas, como filosofia e sociologia. Isso me traz uma compreensão muito grande do comportamento das pessoas, dos momentos históricos e das finanças comportamentais.

Eu também continuo muito ligado aos esportes, pois sou muito competitivo. Hoje eu tenho uma paixão particular por animais, principalmente cavalos, então consigo unir as duas paixões no hipismo clássico. Praticar esse esporte sempre foi um sonho para mim, mas nunca tive oportunidade quando era mais jovem, porque era caro.

Outra atividade é o vôlei de praia, que me proporciona contato com a natureza e fortalece não só o físico, mas também o espírito. Consigo chegar bem cedo à praia, encontrar os amigos, tomar um banho… Acho que o gestor também tem que ter uma vida muito equilibrada, uma satisfação pessoal. A prática de yoga, meditação e tai chi chuan também contribuem muito para a minha busca de equilíbrio. Como diz o [preparador físico] Nuno Cobra, encontrar o espírito através do corpo, uma satisfação na alma. Eu procuro fazer isso.

GENIAL: A saúde ocupa uma posição de destaque na sua lista de prioridades hoje?

Duda: Eu sou um privilegiado em matéria de saúde. Como bom exagerado, eu já testei algumas vezes o meu corpo, principalmente nos esportes, e descobri os meus limites. Eu gosto muito daquela frase que diz que saúde não é tudo, mas sem saúde você não é nada.

Saúde é um princípio. Eu acho que a forma como você leva a vida, como você se coloca em relação à sua família, ao seu cônjuge, aos seus filhos, se tem boa saúde mental e comportamental, tudo isso se reflete em como você vai ser como gestor e na saúde financeira do seu portfólio.

Você tem que ter coerência na vida. Já tem tanta coisa para se questionar. É fundamental para um gestor, que lida com muitas variáveis, tem muito trabalho e muitos clientes para atender e satisfazer, não desperdiçar energia com outras coisas.

Se eu quero gerar alfa para meus clientes, eu busco empresas com alfa; se quero ser absolutamente transparente com meus clientes, busco empresas e administradores de empresas que sejam absolutamente transparentes em sua comunicação; se eu trabalho três, quatro vezes mais em momentos de crise, eu quero que a administração das empresas nas quais eu invisto também trabalhe três, quatro vezes mais, corte custos, faça ajustes, veja as oportunidades.

GENIAL: Quando você está ali comprando e vendendo ações, olhando ações e fórmulas matemáticas, previsões, você em algum momento reflete sobre o impacto do que você tem para o mundo? Sai da caixinha matemática e vai para a caixinha do mundo real?

Duda: Eu acredito que só existe o mundo real. O mundo que você pode imaginar e as estratégias só são realmente ricos se for possível transportá-los para o mundo real. Apesar de eu passar a maior parte do tempo pensando, estudando, fazendo análise, eu acho que ter só 99% de uma coisa feita é ter nada feito.

Eu sou um gestor financeiro, o que talvez já não seja algo muito popular no mundo, porque as pessoas confundem o que eu faço com especulação financeira. Ainda por cima eu sou banqueiro, o que é algo absolutamente impopular. Mas eu me vejo muito mais como gestor.

Acredito que eu seja uma pessoa muito importante para a sociedade. Trabalho com os valores das pessoas, que é muito mais do que somente a riqueza ou o dinheiro. Meu trabalho é conquistar mentes, corações e estômagos. As pessoas realmente têm que gostar de mim, entender meu raciocínio lógico, ter empatia, mas também ter estômago de aguentar as variações do mercado.

Eu já pensei muito nessa questão do impacto social. Hoje, devido ao sucesso que eu tive, eu ajudo mais de cinco organizações não governamentais, porque acho que você tem que ter uma participação social. Mas você pode ter uma profissão com grande função social, como professor ou médico, e ainda assim ser um mau caráter. Ou você pode ser um gestor financeiro de bom caráter, entender as noções de ética e ser transformador para a vida de milhares de pessoas.

Eu coloco como minha missão ser transformador para o grupo que eu formo dentro da sociedade, para as pessoas que confiam dinheiro a mim. Eu devo tentar não só multiplicar esses recursos, mas fazer os clientes entenderem como eu faço, a filosofia do que eu faço, que é mais do que uma filosofia de gestão, é uma filosofia de vida. Acredito que posso ter um efeito muito mais transformador porque essa é a minha vocação – ou talvez até seja o meu dom – do que fazendo outras coisas. Claro, eu sou apaixonado por isso.

GENIAL: Você lida com números, mas esses números traduzem várias histórias de vida. A poupança de uma vida inteira, um sacrifício de anos, pessoas que ficaram sem tirar férias, que tiveram que morar em outro estado e ver os filhos somente no fim de semana, e assim por diante. Saber que essas pessoas estão depositando a confiança em você dificulta ou facilita o seu trabalho? Ou você nem pensa nisso?

Duda: Deveria dificultar, porque é uma responsabilidade muito grande, mas eu tenho como premissa que a minha tolerância ao risco é maior que a dos meus clientes por definição, até porque eu sou especialista no assunto. Ou seja, minha tolerância a perder dinheiro é baixíssima. Se você põe como premissa que é muito pior perder dinheiro para o cliente do que para si próprio, as consequências são boas, porque eu acho que é isso que os clientes esperam do gestor.

Eu erro quase todos os dias em alguma coisa, mesmo que seja pelos motivos certos, pois fatores de risco imponderáveis sempre podem surgir e impedir o sucesso do que parecia ser um grande investimento. O importante é saber o que fazer quando as coisas dão errado. Essa premissa de saber que a tolerância a risco dos clientes é baixíssima por premissa faz você sair imediatamente de posições não favoráveis e recuperar as perdas com posições de menor risco.

GENIAL: Para onde caminha o Duda?

Duda: A gente nunca cansa de se surpreender com a vida, não é mesmo? Eu tive o privilégio de ter essa responsabilidade na Geração Futuro, dentro do grupo Brasil Plural, que me alavancou muito como gestor. Eu acho que a gente tem na Geração Futuro bases fantásticas para construir a melhor gestão do Brasil, em matéria de ética, alinhamento de interesses e gestão de risco. Eu acredito que eu tenho uma missão, que vai levar anos e pode ser muito transformadora para os clientes.

A Geração Futuro é uma empresa muito inovadora, e a gente está fazendo uma formação de gestores e vendo frutos do nosso trabalho. Queremos oferecer aos clientes produtos e serviços que transcendam a questão financeira, que deem ganhos econômicos para os clientes. Ganhos não só de dinheiro, mas de satisfação, de aprendizagem, de produtos inovadores, de serviços tecnológicos.

Queremos dar subsídios para o cliente também conseguir evoluir na compreensão do que é ser um investidor e até auxiliá-lo na sua própria gestão financeira.

GENIAL: Para finalizar, a frase mais importante para o Duda operador e a mais valiosa para a vida do Duda.

Duda: Para o Duda operador, acredito que seja “Um otimista vê uma oportunidade em cada dificuldade, e um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade”, do Winston Churchill.

No plano pessoal, acho que é “Faça menos e realize mais”, do [médico indiano] Deepak Chopra.

Publicado por Genial

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