A terceira entrevista da série Magos do Mercado traça um perfil de Guilherme Aché, sócio-fundador da Squadra Investimentos, gestora focada no mercado de ações.

Economista formado pela Faculdade Cândido Mendes, Aché começou no Pactual no início dos anos 1990, ainda como estagiário, tornando-se, em 1993, chefe da área de análise de empresas.

Em 1998, ajudou a fundar a gestora JGP, dos ex-sócios do Pactual André Jakurski e Paulo Guedes, definidos por Aché como os “Magos do Mercado da época” e “os ídolos da sua geração” no mercado financeiro.

Mas foi em 2008, em plena crise financeira, que o gestor fundou a Squadra, hoje com 4,2 bilhões de reais sob gestão.

Na conversa que teve com a GENIAL, Aché falou um pouco sobre a importância da boa gestão de risco e da visão de longo prazo ao investir em ações; da admiração pelo megainvestidor Warren Buffett; da rotina intensa de trabalho que já o fez deixar a namorada esperando até as duas da manhã para jantar; e das duas vezes em que perdeu todas as suas economias pessoais na bolsa.

“Recomendo às pessoas que quebrem, de preferência cedo, porque custa mais barato. É um aprendizado fantástico”, diz Aché.

Guilherme Aché, sócio-fundador da Squadra Investimentos, gestora focada no mercado de ações.

Magos do Mercado é uma série de entrevistas com os mais bem-sucedidos operadores e gestores de recursos do país, com o intuito de inspirar aqueles que querem atingir o sucesso em seus investimentos e carreiras profissionais.

GENIAL: Como era Guilherme Aché na infância e na adolescência? Fale um pouco das suas origens, de onde estudou e de seus hobbies quando era garoto.

Guilherme Aché: Sou carioca, morei primeiro em Botafogo e depois no Leblon. Cheguei a morar na Barra da Tijuca também. Estudei praticamente pela minha vida inteira no Santo Agostinho, um colégio bem tradicional da Zona Sul do Rio de Janeiro. Mas tive duas interrupções. Como meu pai era representante de uma empresa de navegação, eu e minha família tivemos duas oportunidades de morar fora do Brasil.

Eu era muito novo na época. Aos sete anos, morei na Nigéria por cerca de dois anos. Era 1977, e a Nigéria, apesar de ser um país complicado, tinha um comércio exterior forte, que vendia muito petróleo e importava de tudo. Isso gerava oportunidades de negócio para empresas estrangeiras. Lá eu estudei em um colégio americano.

Voltei para o Brasil por um breve período e logo depois me mudei novamente com a minha família, desta vez para Londres, na Inglaterra. Fiquei lá por quase dois anos também. Morar fora é uma experiência incrível, essa coisa de você conhecer e viver outras culturas. Foi bom para aprender inglês também. Mas fora essas duas experiências, tive uma infância normal de classe média carioca.

Eu já gostava muito de esporte, embora hoje eu goste até mais. Naquela época o surfe já era moda no Rio de Janeiro. A primeira vez que eu consegui ganhar dinheiro na vida foi em função do surfe. No final da década de 1980 eu fiz duas viagens para a Indonésia, e trouxe de lá artigos que eram muito populares na época, como as cangas. Eu revendia aqui para os amigos, as amigas, as mães dos amigos. Foi a primeira vez que ganhei dinheiro. Não foi de uma forma lícita, porque eu não pagava imposto, era tudo “muamba”, mas era mais a coisa da aventura.

GENIAL: Você fez faculdade de Economia. O que levou você a escolher esse curso e começar a trabalhar no mercado financeiro?

Guilherme Aché: A geração dos meus pais sonhava em mandar os filhos para uma boa faculdade para que depois eles entrassem em uma empresa pública, como o Banco do Brasil e a Petrobras. Meus pais eram funcionários públicos. Mas eu lembro que eu era um pouco diferente da média da turma da minha idade em relação à coisa de ganhar dinheiro. Eu queria ganhar dinheiro.

Um dos meus ídolos na adolescência era um grande amigo meu que com 15, 16, 17 anos já era comerciante. Eu até o acompanhava nas vendas e achava um barato. Ele tinha uma certa independência. Era uma referência para mim.

Outra coisa importante que aconteceu na minha vida foi a morte prematura do meu pai, quando eu tinha 18 anos. Isso desestabilizou financeiramente a minha família na época. E aí eu acordei para o fato de que teria que me virar.

Então acho que essa minha vontade de ganhar dinheiro é fruto de uma combinação dessas coisas: desejo de independência, a referência desse meu amigo e esse gatilho da morte do meu pai, que me passou essa urgência de começar cedo.

A escolha pelo mercado financeiro eu acho que passa por essa coisa de querer ganhar dinheiro e ter sucesso. Associa-se muito o mercado financeiro ao enriquecimento mais rápido que a média de outras áreas, e eu também fazia essa associação na época. Eu tinha alguns amigos um pouco mais velhos que já trabalhavam no mercado financeiro, ouvia a conversa deles, então foi um processo meio natural.

GENIAL: A escolha pelo mercado financeiro se deu antes da faculdade ou durante o curso?

Guilherme Aché: Foi durante a faculdade. Surgiram algumas oportunidades de estágio na área e eu fui fazendo. A primeira grande sorte que eu dei foi ter sido chamado, ainda muito novo, para fazer um estágio no Pactual, e a partir daí foi muito suor. No começo dos anos 1990, era uma das instituições financeiras consideradas “top” no Brasil, junto com o Garantia e o Icatu.

GENIAL: E foi difícil no começo? Como foi a adaptação?

Guilherme Aché: Foi muito difícil. A indústria de bancos de investimento brasileira e o próprio Pactual estavam nascendo, e como qualquer indústria ou negócio nascente, eram meio caóticos, porque a demanda está sendo produzida junto com a oferta. O reflexo disso, no meu caso, é que eu, aos 23 anos, era o chefe do departamento de análise do Pactual. Por que isso aconteceu?  Por uma simples razão: o negócio estava crescendo e não tinha mais ninguém para pôr naquela posição. Bota esse garoto aí, completamente despreparado – porque era o caso – e vamos ver se ele consegue dar conta.

Mas o Pactual foi uma grande escola. Na década de 1990, o negócio que tinha mais glamour no Pactual era a parte de ações, que foi a área onde eu fui trabalhar, no departamento de análise. Mas era difícil, porque era um banco que crescia muito, formado por pessoas muito ambiciosas, um pessoal mais velho muito ambicioso e muito preparado, implantando uma cultura de meritocracia muito intensa, com forte competição. Se você junta um grupo de jovens inexperientes e põe um pote de ouro na frente, com um processo de meritocracia no meio, tudo pode acontecer. E tudo aconteceu.

Trabalhava-se muito. A carga horária era você que fazia, mas ao mesmo tempo não era, porque se você não trabalhasse 15, 16 horas por dia, você estava fora, porque a competição era muito grande.

GENIAL: Você sempre foi focado em ações. De onde surgiu esse interesse? Ou você começou nessa área por acaso e acabou ficando?

Guilherme Aché: No mercado financeiro, para a pessoa que é mais nova, o mercado de ações é o que mais atrai. Há filmes a respeito e todo um glamour por trás. Ninguém sonha em entrar no mercado financeiro para ser trader de títulos do governo federal, apesar de que dá muito dinheiro e tem muita gente que faz isso muito bem.

Eu acho que talvez esse tenha sido o motivo de eu estar mais ligado à bolsa no comecinho. No Pactual eu fui do departamento de análise durante os quase dez anos que fiquei lá. Na JGP também fui sempre da parte de ações, e a Squadra é uma empresa focada em ações. Então são 25 anos só nisso.

GENIAL: Você participou da fundação tanto da JGP quanto da Squadra. Por que partiu para esses projetos? Como foi a transição para cada um deles?

Guilherme Aché: O Pactual foi fundado por quatro sócios principais. Dois deles, o André Jakurski e o Paulo Guedes – o J e o G da JGP – eram ídolos para a minha geração do Pactual. Eles eram referências indiscutíveis no mercado financeiro nos anos 1990. O André mais como gestor e o Paulo como um grande estrategista. Eu me lembro de situações no Pactual em que, no meio da mesa de operações, no fim da tarde, os dois começavam a conversar e debater. A garotada se juntava em volta, e de repente tinha 20, 30 garotos em silêncio ouvindo o bate-papo dos dois.

Enfim, por razões específicas do negócio, eles resolveram sair do Pactual no fim da década de 1990, e convidaram algumas pessoas de lá para ir junto com eles e montar uma gestora. Então os Magos do Mercado da época, o Paulo e o André, me chamaram. Foi uma honra para mim, eu não podia deixar passar essa oportunidade. Foi uma decisão muito fácil, não pensei duas vezes. Para mim, não tinha como dar errado.

Eu fiquei por dez anos na JGP. Era como uma extensão do Pactual para mim. Aprendi muito, até mais do que no Pactual. Aprendi a olhar risco como um componente muito importante do nosso negócio. Eu considero a gestão de risco da JGP o estado da arte no Brasil.

A decisão de sair de lá e fundar o meu negócio, a Squadra, foi mais complicada. Eu queria juntar pessoas para montar um negócio onde eu tivesse um protagonismo maior. Aí dá mais frio na barriga, porque você não tem mais o padrinho, você agora é o padrinho dos outros. Mas eu tinha convicção no projeto por dois motivos básicos, que são os pilares do negócio: eu achava que tinha condições de atrair gente qualificada, que eu conhecia e em quem confiava; e eu achava que tinha capacidade de atrair um capital de qualidade.

O processo de saída da JGP foi difícil, mas acho que também foi um processo natural para a minha vida profissional.

GENIAL: Como foi a sua trajetória de analista do Pactual ao gestor que você é hoje? Como você começou a operar?

Guilherme Aché: No Pactual eu era analista. Comecei ajudando o André [Jakurski] com as carteiras, fazendo para ele algumas análises de oportunidades de investimento. Em determinado momento, o banco pensou em montar um negócio novo, que a gente chama de “sell side”, que é a parte de pesquisa para clientes fora do banco. Essa foi a segunda fase da minha carreira no Pactual.

Mas mesmo nessa época, em que eu ainda não era operador profissional, eu investia em bolsa como pessoa física. Eu sempre tive esse perfil de tomador de risco, e negociava desde cedo. Eu cheguei a quebrar em 1994, quando tinha uma posição muito grande em Banco Nacional. Foi a primeira vez que eu quebrei. A gente aprende muito quando quebra, recomendo às pessoas que quebrem, de preferência cedo, porque custa mais barato. Mas é um aprendizado fantástico.

Então eu já tinha essa rotina de comprar, vender, investir capital próprio mesmo. Profissionalmente, eu me tornei gestor quando fui para a JGP. No começo, meu trabalho era o mesmo que eu tinha no Pactual. Mas logo de início eu manifestei o desejo de ter uma participação na gestão. Meu chefe na época, o Gustavo Guedes, me falou “você está pedindo tanto, então fica com um limite aí e começa a gerir esse dinheiro”. Acho que me saí bem, a parte de ações da JGP cresceu muito.

GENIAL: Você se lembra do seu primeiro trade? Ou de algum mais marcante? Como foi essa vez em que você quebrou, e o que aprendeu com ela?

Guilherme Aché: Os trades mais marcantes foram aqueles em que eu perdi muito dinheiro, como pessoa física. Foram basicamente dois. O primeiro foi essa operação que eu tinha de Banco Nacional. Para quem não conhece a história, o Banco Nacional quebrou em 1994. O que me fez ter uma posição pessoal grande nessas ações, na época, foi uma especulação de que o Nacional seria comprado pelo Unibanco, o que resolveria seus problemas. Mas foi realmente um desastre, porque na verdade o banco tinha uma espécie de fraude nos ativos. Então, num belo dia, o Banco Central interviu no Banco Nacional, e todo o investimento que eu tinha virou zero. Desde então, as ações do banco nunca mais negociaram.

O segundo caso marcante foi uma compra grande de opções de Telebrás que eu fiz quando ainda era muito novo e trabalhava no Pactual. Nem lembro o motivo de eu ter feito essa operação. Em 20 dias eu perdi todo o meu dinheiro. Depois dessa, acho que nunca mais negociei opções.

Essas experiências me marcaram muito, foram muito ricas para me ensinar que dinheiro não aceita desaforo. Tem que ser muito bem tratado. Você deve fazer as coisas com cuidado, evitar especulações, tentar ter um horizonte um pouco mais de longo prazo.

GENIAL: Que lições você tirou dessas experiências?

Guilherme Aché: Para a vida profissional, elas me mostraram que, como investidor, você tem que ter uma avaliação independente do que você está fazendo. Não pode ir atrás de uma dica, um palpite, uma reportagem de jornal ou uma análise feita por outro. Você tem que ter a sua própria análise, formar a sua convicção.

Principalmente no caso do Banco Nacional, eu estava muito ligado à oportunidade, que tinha a ver com o fato de que o banco poderia ser comprado por outro. Isso é algo que está completamente fora do seu controle.

Tornar-se um bom investidor requer trabalho duro, porque você tem que ter a sua análise independente para ter convicção. E por que isso é importante? Porque qualquer investimento, independentemente de ser a melhor empresa do mundo, vai ter momentos de queda. Se você não tem convicção do que está fazendo, vai querer vender suas ações nessas horas. Mas muitas vezes não é para vender, é para comprar, porque a trajetória de longo prazo daquela ação tende a ser positiva.

É muito tentador especular, porque você consegue já ver resultados no mesmo dia ou na mesma semana. Mas eu tenho convicção de que 99% das pessoas que especulam têm prejuízo. Vi pouquíssimas pessoas na minha carreira que conseguem, dia após dia, ganhar dinheiro especulando. Não especule, invista. Agora, investir é trabalhoso, tem um processo de aprendizado longo, que eu acho que para mim começou, de forma mais contundente, com essas duas operações que me levaram a quebrar.

GENIAL: Você considera que esses foram os seus dois maiores erros ou fracassos no mercado de ações até hoje?

Guilherme Aché: Olha, eu já perdi muito mais dinheiro que isso depois. Neste ano, por exemplo, a gente perdeu um dinheirão numa empresa em que investimos. Do ponto de vista financeiro, foi um tombo muito maior do que naquela época. Mas do ponto de vista do aprendizado, acho que essas duas experiências do passado foram as mais valiosas.

GENIAL: E quais foram os seus maiores acertos, ou os que mais te marcaram?

Guilherme Aché: Do ponto de vista da carreira, um dos meus maiores acertos é ser honesto e tratar todo mundo sempre muito bem. Primeiro porque não faz sentido tratar alguém mal. Depois porque você vai encontrar todas essas pessoas ao longo da sua vida profissional.

Ser honesto é óbvio, mas é que nesse negócio a sua reputação tem que ser ilibada. Se você é um gestor, o que as pessoas dão para você talvez seja a segunda coisa mais preciosa da vida delas, depois de família, saúde e tal. É o dinheiro delas, você é o responsável por ele. Construir a confiança é um processo que demora muito.

O segundo acerto profissional é a escolha dos sócios. Sócio é primordial, e o sócio certo é muito difícil de achar. O sócio certo não necessariamente é a pessoa mais competente, mas sim aquele que encaixa bem com você. Fazendo uma analogia com futebol – e eu sou flamenguista – tinha uma época em que o Flamengo tinha o ataque formado por Romário, Edmundo e Sávio. Individualmente, eram craques fantásticos, mas ao juntar os três não funcionou. Não basta ter gente competente, tem que ter gente funcione bem junto, e eu acho que eu acertei nisso, principalmente na Squadra, onde eu liderei a formação da sociedade.

Acertos do ponto de vista dos investimentos a gente tem vários. Eu diria que o mais importante da minha carreira por coincidência ainda é a empresa onde eu tenho o maior investimento, a Equatorial. É uma empresa de distribuição de energia que tem dois negócios no norte do país. Tenho esse investimento desde 2006, desde a época da JGP.

GENIAL: Qual é a sua filosofia de investimento ou a sua marca como gestor?

Guilherme Aché: Acho que herdei bastante a cultura de gestão de risco de quando estive no Pactual, e também a da JGP. O analista e o investidor geralmente têm uma noção melhor do retorno potencial do que do risco de um investimento. Inverter isso é importante, olhar primeiro o risco para depois olhar o retorno. Mas geralmente não é o que as pessoas fazem.

Acho que aqui na Squadra temos esse perfil de olhar bastante os riscos. Outra coisa que a gente desenvolveu aqui foi a visão de longo prazo. O Pactual da década de 1990 e até a JGP, na minha época, eram mais voltados para os resultados de curto prazo. Eu aprendi que para ter consistência e bons retornos sobre o capital com investimento em ações é preciso olhar para um prazo mais longo. Se não, vira jogo de azar.

Acho que a Equatorial, que eu mencionei antes, é um bom exemplo disso. É uma empresa onde eu invisto há quase dez anos. Acho que são poucos gestores de fundo que investem em uma empresa por dez anos.

GENIAL: Você faz parte do Conselho da Equatorial. Como é ter uma posição ativista numa empresa? Não são todos os gestores que têm essa experiência.

Guilherme Aché: Via de regra, nós, investidores e gestores de fundos, não deveríamos participar de Conselhos, exceto em duas ocasiões, na minha visão. A primeira é se você realmente tem com o que contribuir, e acho que na maioria das vezes eu não tenho. Há gente com muito mais preparo do que eu para participar e contribuir no Conselho.

A segunda é quando você é um acionista muito grande. No caso da Equatorial, nós somos os maiores acionistas, com cerca de 20% da empresa, aí eu acho importante. No Conselho tem que estar o dono, então se você é um acionista de referência, você tem que estar lá. Principalmente nas corporações, que não têm controlador definido, como é a Equatorial. A presença do acionista de referência no conselho evita o chamado risco de agência [risco de os administradores da empresa tomarem decisões que beneficiem a si mesmos, em detrimento dos interesses dos acionistas].

GENIAL: O que você evita fazer no mercado? De que tipo de investimento não gosta, de que tipo de situação você foge?

Guilherme Aché: Para mim a pior situação é aquela na qual o risco percebido é baixo e o retorno é considerado certo. Quando você tem certeza de que vai ganhar dinheiro, porque há baixa incerteza em relação ao retorno esperado, você pode acabar comprando demais aquele ativo e até alavancar.

Acho que o caso típico é o que a gente chama no mercado de merger arbitrage. É quando uma empresa vai comprar outra com troca de ações, isso é anunciado, mas até fechar o negócio há um pequeno spread. As pessoas têm convicção de que a operação vai fechar, é só questão de assinar os papéis. Por isso, elas fazem alavancagem, pegam dinheiro emprestado para operar. De alguma forma, essa operação tem alto risco, porque esse conforto da baixa incerteza leva as pessoas a fazerem posições muito maiores do que deveriam.

GENIAL: E que tipo de investimento chama a sua atenção?

Guilherme Aché: Vou falar uma coisa óbvia: é o investimento que eu conheço muito. Se a gente conhece muito mais do que a média, tem uma melhor avaliação de risco e de retorno. Eu sinto que consigo medir melhor do que a média a oportunidade e o risco. Menor risco e maior retorno, é isso que eu procuro.

GENIAL: Você fundou a Squadra em 2008. Como foi começar um negócio em plena crise? Como aquilo te afetou, tanto pessoal quanto profissionalmente?

Guilherme Aché: Acho que afetou todo mundo no mercado financeiro. Hoje a gente está vivendo uma crise difícil no Brasil, mas é um passeio no parque comparado ao que aconteceu em 2008. Eu, pelo menos, acho que o Brasil vai acabar saindo dessa. Mas em 2008 eu não tinha noção do que poderia acontecer. Eu acho que poucas pessoas no mundo, se é que existia alguém, tinha alguma noção. Era uma crise de proporção internacional, não se tinha dados consolidados para analisar o sistema financeiro, existiam previsões de que o mundo entraria em depressão. Uma coisa quase sem precedentes. Aquele foi um dos anos mais complexos da minha vida do ponto de vista dos investimentos.

Fora isso, estávamos começando a empresa. Aí não tem jeito, você é frágil. Qualquer movimento brusco, qualquer terremoto um pouquinho mais forte coloca em risco o seu negócio. Foi muito difícil, mas eu acho que nossa grande virtude foi ter montado uma sociedade muito bem feita, que se ajudava muito. Trabalhamos intensamente, mas a sociedade ali provou ser forte e voltada para o longo prazo. Me deu orgulho. Foi duro, mas acabou que o Brasil se saiu bem, sobreviveu, e a Squadra foi muito bem também.

GENIAL: O que você faz para lidar com as pressões do mercado, do dia a dia da profissão? Tem algum hobby ou válvula de escape?

Guilherme Aché: É clichê, mas acho que o segredo aí é ter equilíbrio. É difícil ter equilíbrio em uma atividade de alta performance, porque a dedicação tende a ser desproporcional. É assim para qualquer profissão de alta performance, como no esporte, por exemplo. Você tem que treinar muito, porque se você para um dia, o cara que vem atrás vai te pegar. Eu acho que gestão de alta performance também é assim, é muito intenso. Mas dentro do possível, você deve tentar equilibrar. A família é muito importante, é ela que dá paz e te apoia.

Eu também pratico esporte regularmente. Jogo tênis quase todos os dias. Sempre que não está chovendo eu procuro jogar de manhã cedo.

Você tem que ter sabedoria para trabalhar também. Saber que há variáveis no seu trabalho que você não controla, que não adianta se estressar, querer controlar, que você não vai conseguir. De que adianta eu me irritar com a Dilma, por exemplo? Nada. Eu tenho que fazer o meu trabalho aqui. Essas coisas você ganha com o tempo, com a maturidade.

GENIAL: Como você enxerga o seu papel – o papel do gestor de recursos – do ponto de vista social e econômico, no desenvolvimento da economia e das empresas?

Guilherme Aché: No fim das contas, o que eu faço é alocar capital de forma eficiente. Eu acho que isso tem um papel econômico fundamental, porque é financiar empresas vencedoras e potencializar esses negócios. Esse é um modelo vencedor no mundo.

GENIAL: Quais foram as suas maiores inspirações até hoje? Além dos seus ídolos do Pactual, quais foram as pessoas que te inspiraram, seus mentores ou até mesmo os livros que mais te ensinaram?

Guilherme Aché: Na escola Pactual e JGP eu destacaria a visão mais sofisticada de gestão de risco. A década de 1990, quando eu comecei, foi extremamente turbulenta. Sobreviver à década de 1990 era uma arte, então a gestão de risco era muito importante. Meu primeiro ano de mercado financeiro foi o ano do Plano Collor. Nessa época, a bolsa chegou a cair 60%. Eu já comecei no batismo de fogo.

A década de 1990 foi um inferno, não só pelos planos econômicos, houve várias crises também. Crise no México, em 1994; na Ásia, em 1997; na Rússia, em 1998; a crise brasileira do câmbio em 1999; crise da bolsa de tecnologia nos Estados Unidos, em 2000. E elas eram amplificadas porque o crédito do Brasil era muito ruim, já que, entre outras coisas, não tínhamos reservas internacionais.

A outra coisa que prejudicava muito o investimento na época, e isso está voltando agora, era a questão política. Desde a eleição do Collor que o Lula tentava se eleger presidente do país, então a cada quatro anos era o caos. A imagem que o empresariado e o mercado tinham do Lula na época era de que ele seria o que Hugo Chávez acabou sendo na Venezuela. Além do processo de estabilização econômica e das crises que pegavam o Brasil de frente, havia esse ciclo político muito hostil, porque o Lula quase se tornou presidente diversas vezes.

Isso sob o ponto de vista do risco. Do ponto de vista do retorno, eu aprendi lendo. Acho que todo mundo que quer investir em ações tem que ler o Warren Buffett. Ler não, estudar. Ler, reler, duas, três, quatro vezes, até entender tudo o que ele fez. Ele é uma referência, e eu acho muito importante o investidor ter uma referência boa.

No dia a dia do investidor, aparecem diversas opções de investimento. Todos os dias, surge alguém falando de uma oportunidade, um analista trazendo uma ideia ou uma notícia de jornal interessante. Então ter uma linha sólida, baseada em algo que você aprendeu, é importante para eliminar os ruídos. Será que o Buffett faria isso? Não? Então é fácil descartar. Não que eu seja igual ao Buffett, mas muitas das coisas que ele ensina a gente tenta praticar aqui. Aí o dia a dia fica bem mais fácil. Eu estudei e ainda estudo muito o Buffett e o sócio dele, o Charlie Munger.

GENIAL: Você tem alguma história curiosa na sua vida pessoal, para o bem ou para o mal, por causa da rotina de trabalho intensa do mercado financeiro?

Guilherme Aché: Ah, sim. Na época do Pactual, eu namorava. Eu marcava jantar com a minha namorada e acabava chegando às duas da manhã na casa dela, ela brava para caramba comigo. Não sei como ela me aguentou. Mas houve vários dias assim, de ter que adiar compromissos. Nos fins de semana eu viajava com ela para a casa que a minha família tinha em Itaipava [distrito de Petrópolis, na região serrana do Rio], e eu ficava estudando o fim de semana inteiro. Foi assim durante anos e anos.

GENIAL: Você casou com ela?

Guilherme Aché: Casei com ela, até hoje ela me atura. Mas hoje eu trabalho menos.

GENIAL: Mas ela entende isso.

Guilherme Aché: Teve que entender. Ela entende, se está comigo até hoje. Mas é importante ter isso que eu falei do equilíbrio, essa paz em casa. Alguém que te apoie, que te entenda. E vice-versa, não é fácil conviver com alguém que tenha essa intensidade.

Meus amigos também, me chamavam para ir à praia, para sair, e eu não podia, tinha que estudar. Eram pilhas e pilhas de relatórios para ler. É intenso. De novo, em qualquer trabalho de alta performance, a dedicação é desproporcional.

GENIAL: Você tem algum arrependimento ou frustração pessoal ou profissional? Teria feito algo diferente?

Guilherme Aché: De importante, acho que não. Obviamente fiz muitas coisas erradas, mas nada que eu considere relevante ou grave, de que eu me arrependa bastante. Errei muitos investimentos, às vezes em alguns relacionamentos, muitas vezes por imaturidade ou insegurança. Mas nada grave.

GENIAL: Vamos falar um pouco do futuro. Para onde caminha Guilherme Aché? Para onde você está apontando agora?

Guilherme Aché: Eu estou relativamente otimista com o Brasil, até meio contrário à média. Acho que o país vai começar, em algum momento, um ciclo de business bastante bom, que vai durar vários anos. Eu e meus sócios buscamos posicionar a Squadra para isso.

Não estou querendo dizer que agora é hora de comprar bolsa. Até acho que é uma hora de testar. Mas acho que o Brasil vai viver um ciclo bom, de alguns anos. É muito melhor fazer esse trabalho quando as coisas estão sendo construídas, e não destruídas como foram nos últimos anos. Mas eu pretendo, enquanto tiver vontade e a sociedade estiver funcionando bem – e nunca esteve tão bem – continuar nesse negócio.

Estamos olhando para muitas operações de private equity. Acho que por meio de algumas parcerias que fizemos, temos um núcleo de gente que pode ajudar a melhorar a gestão de algumas empresas. Esse é um projeto relativamente novo. Temos um grupo separado aqui dentro vendo isso, acho que pode ser uma oportunidade bacana para a gente crescer.

GENIAL: Uma frase que defina você na vida pessoal e uma frase que defina você na vida profissional.

Guilherme Aché: Na vida profissional tem alguns clichês, mas um que é bacana é “a primeira regra do jogo é não perder dinheiro, e a segunda é não esquecer a primeira regra” [um dos lemas de Warren Buffett]. Na vida pessoal, não sei qual é a frase, mas seria algo ligado à perseverança e à automotivação. A vida é dura, então você tem que ter essa capacidade de se automotivar e perseverar.

Publicado por Genial

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