Paulista criado no Rio, descendente de portugueses, apaixonado por música e esportes, Xavier começou sua carreira nos anos 1980 no mítico Banco Garantia, do trio de empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira.

Depois, passou 21 anos no BBM, antigo Banco da Bahia, onde foi por dez anos o responsável pela famosa tesouraria da instituição. Foi lá que migrou para a gestão de recursos, fundando a SPX com ex-sócios em 2010.

A carreira de Rogério Xavier se destacou por desempenhos brilhantes mesmo em épocas de crise. O fundo mais agressivo da SPX, o Raptor, rendeu 137% desde que começou suas atividades, em dezembro de 2010, enquanto o CDI rendeu só 62%.

Isso significa que alguém que tivesse investido um milhão de reais com ele na estreia do fundo hoje teria 2.370.000 de reais. A SPX tem, atualmente, 10 bilhões de reais sob gestão.

Confira os principais trechos da entrevista com esse gestor que conta, com bom humor e risadas, como entrou no Garantia com um currículo que era pouco mais que um cartão de visitas, e sufocos como seu primeiro dia na mesa de operações bem no dia do lançamento do Plano Cruzado. “Pareceu que o meu primeiro dia na mesa era o fim da minha carreira”, conta.

Magos do Mercado é uma série de entrevistas com os mais bem-sucedidos operadores e gestores de recursos do país, com o intuito de inspirar aqueles que querem atingir o sucesso em seus investimentos e carreiras profissionais.

GENIAL: Você é reconhecidamente um dos gestores mais bem sucedidos e consistentes em atividade no mercado brasileiro. Mas vamos começar falando um pouco do seu passado e do seu lado pessoal. Onde você nasceu, onde estudou e como era o jovem Rogério Xavier?

Rogério Xavier: Pouca gente sabe, mas eu sou paulista, apenas me mudei cedo para o Rio de Janeiro. Vim de uma família de imigrantes portugueses que vieram ao Brasil tentar a vida. Meu pai foi uma das pessoas que introduziram o Círculo do Livro no país, começando por São Paulo e depois no Rio.

Logo quando cheguei ao Rio, estudei em uma escola pública de Copacabana, a escola Roma. Passei depois por outros colégios e terminei o Ensino Médio, antigo segundo grau, no Colégio Bahiense, na Gávea. Depois estudei administração na PUC Rio.

Escolhi esse curso porque já tinha o desejo de trabalhar no setor financeiro, dentro de um banco de investimentos. A princípio, me preparei para estudar Engenharia Química. Mas já no segundo semestre do ano em que eu ia prestar vestibular eu li uma reportagem numa revista, uma entrevista com um operador de moedas de um banco chamado Bankers Trust, em que ele descrevia sua atividade nos mercados. Eu pensei: quero ser esse cara.

GENIAL: Qual foi o apelo da carreira para você?

Rogério Xavier: Acho que era o segundo semestre de 1983, e o rapaz descrevia sua rotina de trabalho, que já parecia ser bastante interessante. Mas ele também dizia ter ganho 3 milhões de dólares naquele ano de remuneração. Naquela época, era muito dinheiro. Para uma pessoa ambiciosa e que desejava um desafio intelectual, um desafio de trabalho, aquilo parecia bastante interessante. Bem mais interessante do que ser um químico ou um farmacêutico.

O curso que me chamava atenção na época era o de Economia na PUC Rio. Eu lia os artigos de nomes como André Lara Resende, Gustavo Franco, Pérsio Arida e Edmar Bacha [“pais” do Plano Real, todos ligados ao Departamento de Economia da PUC Rio, seja como estudantes, seja como docentes] na Gazeta Mercantil. Eu me identificava, de certa forma, com a linha de pensamento deles.

Só que não havia curso de Economia na PUC à noite, só de dia. E eu precisava trabalhar. Minha vida sempre foi apertada, e minha família nunca teve folga de recursos para eu ter a liberdade de não ajudar em casa assim que tivesse a capacidade de fazê-lo. Então optei pelo curso de Administração com a ideia de conciliar os estudos com o trabalho, ir fazendo as eletivas de Economia e depois me formar nos dois cursos.

A primeira coisa que eu fiz quando passei no vestibular foi mandar meu currículo para um banco de investimentos. Perguntei às pessoas qual era o melhor banco de investimentos do Brasil e me disseram que era o Garantia. Falei: então é lá que eu quero trabalhar.

Eu tinha 17 anos, peguei um ônibus e fui até a Avenida Almirante Barroso, 52, no Centro do Rio, e deixei meu currículo. Tinha apenas meu nome, telefone, data de nascimento e endereço, nada mais. Um dia depois as pessoas me ligam [risos]. “O que é isso que você deixou aqui? Isso não é um currículo, é quase um cartão de visitas”.

Aí eu contei a minha história, e eles ficaram interessados. Queriam saber por que um jovem que nem tinha entrado na universidade queria trabalhar lá. Eles gostaram da minha história e acharam que eu estava dentro do perfil que eles buscavam. Uma pessoa disposta a trabalhar quantas horas fossem necessárias, ambiciosa, querendo ganhar muito dinheiro e ter sempre uma postura vencedora.

Obviamente eu não sabia fazer absolutamente nada. Comecei em uma função que era quase um Office Boy, a posição de liquidante. E o que seria isso? Bem, na época as coisas não eram informatizadas, então as transações financeiras eram físicas. Se existia um CDB [Certificado de Depósito Bancário], você levava a cautela do CDB e a pessoa do outro lado te dava um cheque.

Havia o mercado de ADM, que era esse mercado físico, e o mercado de reservas, que era no Selic, de dinheiro mesmo. Para esse mercado de dinheiro já existia um sistema, mas mesmo assim, ainda precisava entregar um documento físico numa central de liquidação.

Então o cliente ligava para o banco e este gerava um DOC. Tínhamos que pegar esses DOCs, que eram físicos, e entregar uma via na central de liquidação e outra para o cliente. Este carimbava o DOC, autorizando a retirada dos recursos da sua conta e o depósito na conta do banco, no caso, o Garantia.

Leilões do Banco Central também eram físicos. Você pegava um envelope com o lance e saía correndo, literalmente, era uma coisa superarcaica e interessante, porque o Banco Central fica na Presidente Vargas, e o Garantia na Almirante Barroso [ambas no Centro do Rio].

Então você tinha que sair correndo minutos antes para depositar o seu envelope, porque quanto mais em cima você entregasse o lance, mais informações você tinha para ter vantagem e levar o leilão. E isso gerava um monte de problemas, de pessoas gritando “pega ladrão!”, e aí você era parado, a polícia chegava, você perdia o leilão.

GENIAL: Já aconteceu isso com você?

Rogério Xavier: Comigo não, mas com outros liquidantes que trabalhavam comigo sim. Minha estratégia era nunca ir pela calçada, sempre pela rua, para não ficar junto dos pedestres e correr o risco de esbarrar em alguém e pensarem que aquilo era um roubo.

GENIAL: O Garantia tinha uma forma agressiva de fazer negócios e até mesmo no dia a dia. Foi fácil se adaptar? O que você encontrou lá era mais ou menos o que você esperava ou teve um choque? Como foi sua adaptação àquela rotina?

Rogério Xavier: Eu nunca tinha trabalhado, então para mim aquele era o normal. Toda a cultura de trabalho que eu aprendi na minha vida, de disposição, dedicação, perseverança, agressividade no que você acredita, no sonho grande mesmo, tudo veio de lá. Toda a minha formação de pensamento, trading, organização, meritocracia e partnership veio deles.

Fui moldado pela cultura Garantia. Por mais que eu tenha ficado 21 anos em outra instituição depois daquilo, minha forma de enxergar as coisas é a que eu aprendi no começo da carreira.

GENIAL: Sua família teve alguma influência na sua escolha profissional?

Rogério Xavier: Não, a informação da revista foi totalmente decisiva para o meu futuro.

GENIAL: Você era CDF na escola?

Rogério Xavier: Eu era bom aluno. Dava aula particular de química para alunos de primeiro e segundo graus e já ganhava meu dinheiro, já que não tinha muito sobrando lá em casa. Química sempre é uma matéria complicada para os estudantes, e eu tinha muita facilidade, era um dos poucos que prestavam atenção na aula. Então meu professor me indicava para os alunos que tinham dúvidas ou que pareciam que iam repetir.

GENIAL: E na faculdade, como era?

Rogério Xavier: Na faculdade eu fui bom aluno até determinado ponto. Quando eu entrei no Garantia, a rotina de trabalho era bem intensa. Eu entrava às sete horas da manhã e saía às três da manhã. Ou seja, em algum momento eu tive que trancar a faculdade e assim fiquei por muito tempo. Uns dois ou três anos, nem lembro mais. Eu cheguei quase a desistir, porque aquilo deixou de fazer parte da minha vida por muito tempo. De fato eu não conseguia ir à aula. Em suma, enquanto eu fui à aula, eu fui um bom aluno [risos].

Depois que eu saí do Garantia e entrei no Banco da Bahia, consegui me formar. Mas aí os planos já tinham mudado completamente. Já tinha passado aquela motivação de fazer o curso direito. Era aquela história: você trabalha das oito da manhã às sete da noite, chega atrasado à aula, não é todo dia que você consegue ir, aí você só termina a faculdade. Você joga fora todos os seus planos de fazer uma faculdade de maneira organizada. Economia acabou ficando em segundo plano.

GENIAL: Aí você só se formou em administração…

Rogério Xavier: Sim, aos 48 do segundo tempo eu me formo, em seguida me caso e me mudo para São Paulo. Era 1991, o banco estava se posicionando em São Paulo, me convidou para ir e eu aceitei. Foi aí que mudei minha vida de maneira importante.

GENIAL: Vamos falar um pouco da mudança do Garantia para o BBM. Como foi essa transição? Por que ela ocorreu?

Rogério Xavier: O Garantia, de certa forma, foi a minha primeira grande decepção profissional. Havia uma decisão estratégica de mudança do banco do Rio de Janeiro para São Paulo e eu não fui com eles. Foi uma decepção porque eu amava o que eu fazia, amava o ambiente e achava as pessoas incríveis.

Foi legal ter superado isso pensando que eu iria utilizar o que eu aprendi lá ao meu favor e da instituição onde eu fosse trabalhar no futuro. E também mostrar para mim mesmo que não era um problema comigo, ou com o Garantia, mas que eu podia encarar isso como uma oportunidade e usá-la de forma positiva.

Ao entrar no Banco da Bahia, que depois se tornou BBM, em 1989, eu passei os dois primeiros anos ainda no Rio. Em 1991 fui para São Paulo. Era um banco muito diferente, de estrutura familiar, totalmente diferente daquele ambiente meritocrático do Garantia.

Mas estava nascendo uma nova gestão com o filho mais jovem do Clemente Mariani, o Pedro Henrique Mariani. Ele queria fazer uma transformação no banco, trazer um capital intelectual compatível para elevar os resultados, mudar a cultura existente até então, diversificar as atividades da instituição, que passaria a ter também uma atividade de tesouraria importante.

Era preciso ter capital humano da melhor qualidade, e ele recrutou diversos economistas de excepcional formação na PUC Rio. Foi uma transformação minha, mas também do banco. Os momentos casaram, e eu consegui passar um pouco da cultura que eu tinha aprendido no Garantia. A agressividade no tamanho das alocações, a estrutura organizacional. Eu era somente um operador, não um executivo, mas dentro da minha unidade eu conseguia dar a minha pequena contribuição.

Quando fui para São Paulo foi um divisor de águas, pois aí passei de operador a um dos representantes do escritório de São Paulo. A partir dali, ganhei visibilidade dentro do banco. Nosso projeto foi super bem sucedido. Tornei-me sócio, pois fizemos um modelo de participação societária dos executivos dentro de um banco familiar, o que era supercomplexo inicialmente. Assim conseguimos recrutar cada vez mais gente boa.

Acho que essa transição foi importante para eu ganhar importância relativa dentro da instituição e começar a ter espaço para expor meus pontos de vista de maneira empresarial, aplicando o que eu havia aprendido dentro de um banco familiar, foi bem interessante.

GENIAL: Como foi sua trajetória até se tornar um operador? O que você trouxe das suas posições anteriores até se tornar gestor?

Rogério Xavier: Uma coisa que eu acho uma infelicidade é que tenha se perdido no tempo essa cultura – que existiu em instituições como o Garantia, o Pactual, o Icatu ou o Banco da Bahia – de as pessoas começarem de baixo.

Elas viam desde a boleta em criação até o fechamento da operação. Sabiam o que podia e o que não podia. O que dá problema na liquidação, nos horários, na custódia. Os operadores eram acostumados a ler os contratos das coisas que operavam, porque um operador tem que saber o que está operando. Sabiam quem estava do outro lado, as dificuldades do cliente, onde havia conflito de interesses.

Isso é bom para você dar valor e entender cada passo da sua operação. Você vê tudo e se torna um operador completo. As pessoas eram mais bem preparadas. Quem sentava naquela mesa realmente sabia o que estava fazendo.

GENIAL: Como foi sua primeira experiência como trader? Lembra-se do primeiro risco que tomou?

Rogério Xavier: Eu acho que mais interessante que meu primeiro trade, que eu nem lembro qual foi, é a história da primeira vez que eu sentei em uma mesa de operações, ainda não como trader, mas como controle de mesa.

Durante o dia se operavam as reservas, no Selic, e à tarde, o cheque, no ADM. Assim, as operações do cheque só eram lastreadas no fim do dia. Ou seja, os operadores transferiam o dinheiro dos investidores para os diversos bancos para, no fim do dia, receber o lastro, a garantia do dinheiro que eles estavam recebendo – os CDBs, Letras de Câmbio ou debêntures que seriam entregues como garantia das operações.

E o que eu, como controle de mesa, tinha de fazer? Eu tinha de pegar esses papéis que chegavam, e dados o preço e as características do papel, descobrir qual era a taxa que o banco estava oferecendo para garantir o dinheiro que o operador tinha passado para ele. O preço tinha que ser favorável a nós, isto é, a rentabilidade do papel tinha que estar levemente acima do mercado e ser adequada ao risco de crédito da instituição. Portanto, uma instituição mais arriscada teria que ter uma taxa maior.

Pois bem, no meu primeiro dia na função, em 1986, estava aquela loucura habitual de boletas para tudo quanto era lado e foi lançado o Plano Cruzado, um evento que poderia quebrar um banco. Eram seis horas da tarde, minha mesa estava lotada de papéis de vários bancos, e eu precisando lastrear aquilo tudo, conferir os preços, passar para as empresas das quais a gente havia tomado o dinheiro. Eu não estava nem aí para o Plano Cruzado, e eu lá sabia o que era isso? Eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.

Então, a primeira coisa que os operadores fizeram – corretamente, e hoje obviamente eu entendo por que – foi me perguntar quais os preços dos papéis passados pelos bancos. Eu respondi que não tinha a menor ideia, pois havia acabado de receber aquelas informações e não havia dado tempo de conferir ainda. Eles começaram a gritar “Como você não tem ideia? Você não viu o preço que você recebeu?”

Eles pegaram todas as boletas que estavam na minha mesa e entraram numa sala de reunião onde estavam Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles, Beto Sicupira, toda a cúpula do banco já discutindo o Plano Cruzado. O operador de ADM gritava “O controle não checou os preços! A gente não tem a menor ideia de por quanto a gente recebeu esse lastro!” [risos]. Eles voltaram pedindo para eu checar se ao menos estavam no preço de mercado ou não. Chequei e estava tudo fora de preço. Suponha que o juro do mercado naquele momento fosse 10%, estava tudo a 1%. Foi caótico.

Era normal, do outro lado os bancos tinham interesse em dar o pior preço, porque assim eles precisavam dar menos papéis de garantia, podendo dar mais garantias para outros emprestadores e tomar mais dinheiro. Eu precisei pedir aos bancos que eles corrigissem os preços para o patamar do mercado, pelo menos.

Só que aí um dos operadores voltou à sala de reunião e deu um ataque: “Ah, o cara é um imbecil! Ele aceitou tudo fora de mercado!”. Eu não aceitei nada, estava conferindo para pedir para acertar. Obviamente, por causa do lançamento do Plano Cruzado, eu ligava para os bancos e ninguém atendia, era desesperador. Eu achava que ia ser demitido naquele segundo. Acabou que lá pelas sete horas da noite os bancos me atenderam, trocamos os papéis e tudo ficou resolvido. Naquele dia, ninguém quebrou, e no dia seguinte não houve problemas.

Aquilo foi um evento imprevisível. Eu estava cumprindo a rotina e dependia de terceiros, não apenas de mim, então não foi uma questão de agilidade. A maioria das pessoas falou que realmente não era culpa minha. Mas eu acho esse caso interessante porque pareceu que o meu primeiro dia na mesa era o fim da minha carreira.

Eu quero mais é chamar a atenção para o espírito do banco, esse estilo agressivo, de que as pessoas têm que estar atentas a tudo, que não podem falhar e têm que estar a mil. Esse dia foi meio decisivo para mim, porque depois disso passei a ficar atento a qualquer coisa e me tornar ágil para ser o primeiro a pegar o telefone e resolver. Aquilo me fez perceber que o inesperado acontece e você tem que estar preparado para responder.

Meu radar está sempre ligado. Às vezes ouço alguém falar algo e não dar importância, mas eu consigo extrair alguma coisa daquele discurso. Mesmo quando não tem utilidade para mim diretamente, mas para outra área, eu repasso. Minha percepção para informação ficou mais aguçada.

GENIAL: Como você aprendeu a lidar com risco? Foi mais por experiências como essa, livros ou feeling?

Rogério Xavier: É claro que para coisas muito técnicas, o livro ajuda. Você não reinventa a roda sobre questões técnicas que PhDs levaram uma vida toda de estudos para te oferecer.

Agora, experiência de vida é tudo. Ter visto muita coisa faz muita diferença. Este ano estou fazendo 30 anos de mercado. O fato de o Brasil ser muito rico em sua história financeira, de confusão, eu acho que ajuda. Você já sabe, já viu aquilo acontecer. “Po, é igualzinho àquela outra vez, as pessoas falavam a mesma coisa…” É incrível como a história se repete.

Tudo é um aprendizado, mas o mais importante é o mentor com quem você aprende. Ter a humildade de reconhecer que está todos os dias aprendendo alguma coisa nova, de uma pessoa diferente é fundamental. Eu não tenho dúvidas de que eu trabalhei com o que tinha de melhor em termos de capital humano no início da minha carreira. O que eu escutei, aprendi e vi, eu acho que não tem livro que ensine.

Aquele grupo de empresários eu considero o melhor do mundo. Mas não só os três [Lemann, Telles e Sicupira], mas todo o grupo Garantia, por todos os lados, era um aprendizado por segundo. Foi uma experiência única e eu tive muita sorte de ter convivido com aquele grupo de pessoas.

GENIAL: Quais foram as grandes lições que você trouxe de lá?

Rogério Xavier: Primeiro, a dedicação ao trabalho. Acho que o Garantia tentava oferecer uma oportunidade ao jovem que tivesse vontade de ganhar dinheiro e que estivesse disposto a entregar sua vida por um lugar legal de se trabalhar e onde ele teria satisfação pessoal.

O que eu aprendi lá foi isso: que se você tiver sucesso no seu dia a dia, tudo é consequência. Você atrai investidor e consegue fazer coisas sensacionais. O seu sonho, como eles mesmo falam, é um sonho grande, mas atingível. Eles faziam a gente pensar grande mesmo, não tinha jeito.

Quando a gente montou esse negócio [a SPX], a gente já pensava que tinha que ser grande mesmo, tinha que ser algo do tamanho do nosso sonho. A cabeça aqui é sempre querer ser o melhor. E não necessariamente seremos, porque tem o outro lado também. Mas somos compromissados com o sucesso. Estamos alinhados com o interesse dos clientes e dos colaboradores, todo mundo no mesmo barco, empurrando para o mesmo lado.

Se você me perguntasse o que é mais importante, no início da carreira, ganhar dinheiro ou ter um bom mentor, eu não tenho dúvida de que eu diria que é um bom mentor.

GENIAL: Quais foram os seus traços pessoais que te levaram ao mercado financeiro? Porque você se identificou com esses valores do Garantia…

Rogério Xavier: Eu comparo a nossa vida no mercado financeiro com o esporte. Eu sempre gostei de esportes, pratiquei-os a vida inteira, nunca em um alto nível de desempenho, mas sempre gostando do desafio e da vitória. E o esporte é uma ferramenta muito importante de convívio, trabalho em equipe, e até mesmo quando você pratica sozinho, de aprendizado com os próprios erros, conversas com você mesmo, reflexões sobre a melhor estratégia.

O esporte é um exercício de estratégia, de perseverança, de atingir seus limites e buscar objetivos dentro de padrões de ética muito rígidos. Você não pode ultrapassar barreiras, deve derrotar o adversário dentro das regras. Pelo menos é assim que eu vejo. A pior coisa para mim é ganhar porque o outro, na reta de chegada, se machucou. Acho que, em uma corrida, eu seria incapaz de cruzar a linha de chegada nessas condições. Eu gosto da motivação de ganhar porque eu fui o melhor mesmo, dentro de um jogo limpo.

Eu acho que o esporte tem tudo a ver com o que a gente faz aqui. Tem que trabalhar em equipe, seguir padrões éticos, ter responsabilidade. O fato de eu ter ganhado e perdido no esporte me fez uma pessoa melhor, que sabe aceitar bem a derrota. Às vezes a gente perde. Aqui, quando nós erramos, admitimos o erro. Pior do que errar é insistir no erro. Mas a gente convive com a derrota, embora não goste, ninguém gosta.

Eu também ficava chateado quando perdia no esporte, assim como fico chateado quando perco dinheiro. Mas a maneira como eu enxergo é: como vou fazer para superar isso e, na próxima, ganhar? Quais foram os meus erros, por que eu perdi? Foi um problema de time ou individual? Faço uma autocrítica no esporte e nos trades.

Gosto de contratar pessoas que tiveram a experiência do esporte, porque eu acho que elas aguentam bem a pressão.

GENIAL: O esporte ainda é seu hobby hoje? Quais são seus hobbies?

Rogério Xavier: Eu adoro música. É uma frustração eu não saber tocar um instrumento musical. Nunca tive tempo para aprender. Quando eu era pequeno eu nem sabia quanto custava um violão. Eu não tinha dinheiro para comprar mesmo, então era um sonho distante. Mas eu sempre gostei de ir a shows, era meu programa favorito. Eu ainda quero aprender a tocar um instrumento, cada vez mais eu penso nisso. Eu gosto tanto de música… adoro, adoro mesmo.

GENIAL: E o que você gosta de ouvir?

Rogério Xavier: Eu sou um cara dos anos 1980, então eu gosto de rock, new wave, dassas bandas nacionais, como Legião Urbana, Paralamas, também gosto de U2, de mais recente gosto de Coldplay… Sou sortudo de ter vivido uma época tão boa para a música, tanto nacional quanto internacional. Eu escuto outras épocas, mas nunca vi nada parecido com as décadas de 1980 e 1990. Tem tanta coisa boa que eu ouvi na minha vida que acho que, para me sentir completo, em termos musicais, eu precisava experimentar fazer parte de uma banda, tocar um instrumento, e ver se eu tenho habilidade para isso.

Outro hobby que eu amo é o esporte. Minha infância foi muito dedicada ao vôlei. Eu comecei a jogar tênis com seis anos, mas logo abandonei para jogar vôlei. Por coincidência, a geração de 80, para o vôlei brasileiro, foi um divisor de águas. Bernard, Renan, Montanaro… eram quase o que foi o Ayrton Senna para o automobilismo em matéria de chamar a atenção dos jovens.

Joguei em clube, mas nunca tive disponibilidade suficiente para me dedicar a ser um atleta de ponta. Joguei vôlei até os 30 anos de idade, mas tive que sair por questões de saúde, pois fiz três hérnias de disco na coluna cervical. Insisti uns dois anos atrás, mas o problema voltou, então desisti de vez.

Hoje em dia gosto mais de assistir, tênis principalmente. Recentemente eu comecei a jogar golfe. Futebol nunca mais. Joguei bola por muito tempo, mas parei porque, depois dos 20 anos de idade, eu entendi que futebol é um esporte que não dá prazer. As pessoas acabam levando seus problemas do dia a dia para dentro de campo, então você acaba se machucando porque o cara brigou com a namorada, está chateado e entrou mais duro em você. Ou porque ele não sabe perder, está perdendo a partida e te machuca.

Naquela época eu já tinha a consciência de que eu precisava me entregar para o trabalho e não podia me machucar, para não correr risco de precisar faltar. Dentro de um ambiente supercompetitivo como um banco, isso seria pôr em risco a minha carreira.

É como hoje em dia. Eu acho que não tenho direito de fazer certas coisas e correr determinados riscos, seja por educação, o que já é um bom motivo, seja pela minha responsabilidade no meu negócio. Eu não posso, por exemplo, xingar o motorista do carro ao lado. Se ele sair do carro e vier brigar comigo vai sair no jornal que o gestor da SPX saiu na briga com um sujeito na rua. As pessoas vão achar que eu sou maluco. Como alguém vai investir com um cara que briga na rua?

Se eu não dou o exemplo nas pequenas coisas, como eu posso, nas grandes coisas, querer que as pessoas achem que eu sou correto?

GENIAL: Você teve uma longa experiência na tesouraria de um banco que se destacava nessa área, e depois se tornou gestor. Ou seja, você estava na posição de um banco e depois passou para a posição do cliente. É muito diferente? Deu para levar da tesouraria lições para a vida de gestor?

Rogério Xavier: Não é a mesma coisa, definitivamente. Quando você chega a tesoureiro, como eu cheguei, você já criou um histórico de desempenho no dia a dia. Os controladores do banco já viram você ganhar e perder dinheiro, já te conhecem e têm confiança no que você fez.

Quando você vai atender clientes externos, seu universo é mais disperso, você não sabe quem é seu cliente, no final. Você tem milhares de clientes com quem você não fala. Eu não vendo fundos, eu faço gestão dos recursos. Eu falo com os “donos” dos clientes, os bancos, family offices, fundações etc.

GENIAL: O que levou à sua migração da tesouraria para a gestão? Quais foram as motivações?

Rogério Xavier: Foram várias. Primeiro porque o banco tinha uma tesouraria de destaque e uma área de gestão que não tinha o mesmo brilho, mesmo compartilhando o mesmo departamento de pesquisas e o mesmo universo. Aquilo gerava certa desconfiança na cabeça das pessoas e nos incomodava.

Em segundo lugar, operar a tesouraria dentro de um banco tinha uma pesada carga tributária, então era mais eficiente, do ponto de vista fiscal, fazer a gestão do dinheiro dos acionistas por meio de um fundo.

Em terceiro lugar, o banco estava alavancado em crédito, e nós queríamos reduzir a volatilidade no balanço, uma vez que, já em 2007, enxergávamos problemas nos Estados Unidos.

Finalmente, apesar de a tesouraria ter ganhado muito dinheiro em 2007, o banco quase teve sua nota de crédito rebaixada, por incrível que pareça. A alegação das agências de rating era de que tínhamos um patrimônio de 1,5 bilhão de reais e tínhamos ganhado 1 bilhão de reais naquele ano, então poderíamos ter perdido 1 bilhão de reais. Elas assumiram que tomamos muito risco. Mas não era isso, era porque tínhamos acertado muito, não colocamos o banco em risco em momento algum. Não adiantou. As agências não entendiam o que a gente fazia na tesouraria.

Com tudo isso, a ideia foi amadurecendo até que a propus aos controladores. Era 2008, a crise para nós ia ser intensa e poderia até gerar especulações de que o banco estava em situação frágil, mas eu achava que a gente tinha que fazer.

GENIAL: É mais difícil prestar contas para o banco quando você é da tesouraria ou para os clientes quando você é gestor de fundos? De onde vem a maior pressão?

Rogério Xavier: Dos dois lados. Não vejo muita diferença na prestação de contas, acho até saudável. No banco, a atividade da tesouraria pode levar o banco a quebrar, e isso tem graves implicações, seja para quem levou o banco a quebrar, seja para os controladores, que eventualmente podem até ser presos.

Aquilo não envolve só o patrimônio das pessoas, mas a vida delas como um todo. Eu também posso ser preso na função de diretor. É muita responsabilidade. Não existe só uma pressão por resultados, mas também a pressão da legislação, que é bem dura no Brasil. Fora a supervisão do Banco Central e da CVM [Comissão de Valores Mobiliários].

Já na gestão de fundos, a pressão é dispersa. Não tem um negócio, é de cada pessoa. Eu entendo que o que a gente faz aqui é de uma responsabilidade gigante, porque a gente administra a vida das pessoas. Aquilo é o dinheiro deles. Nós não temos o direito de expor as pessoas a riscos que elas não deveriam correr e perder o dinheiro delas.

Eu tento ganhar o maior dinheiro possível sem perder o dinheiro que as pessoas me deram e correndo o menor risco possível. Primeiro eu penso em proteger o capital. Aí, se tiver ambiente de preços favoráveis no mercado, eu tento ganhar um dinheiro adicional.

Nós acreditamos tanto no que fazemos que somos obrigados a investir nossos próprios recursos nos mesmos fundos que os clientes investem. O que eu estou fazendo para mim, estou fazendo para eles também. Se é bom para mim, é bom para eles, e vice-versa. Eu não tenho clientes, e sim sócios na minha estratégia. É a forma que encontramos de estarmos alinhados com os clientes.

Mas a pressão que a gente sente não é a de ganhar dinheiro, porque isso já é inerente ao nosso negócio. Essa é a nossa obrigação. A performance é a consequência de bons processos e de uma equipe de qualidade. A questão é a maneira como a gente faz isso.

GENIAL: Você se considera um pessimista em relação aos mercados? Você já passou por uma série de crises e estava ressaltando a importância das experiências. Como você vê essa montanha-russa maníaco-depressiva que é o mercado?

Rogério Xavier: Ser mais desconfiado e criterioso nas análises tem me trazido resultados positivos. Eu já vi muito enterro. Já vi situações em que as coisas pareciam ser de um jeito e depois se revelavam de outro, porque as pessoas têm tendência a serem otimistas e querer sempre ver o lado favorável.

Eu não me acho pessimista, porque não somos pagos para sermos otimistas ou pessimistas, e sim para ganhar dinheiro. Então eu acho que a gente não tem viés. A gente olha para a vida do jeito que ela é. Não tentamos mudar o fundamento. Se ele é ruim, estamos pessimistas. Se é bom, estamos otimistas. E se é neutro, estamos neutros. Não tentamos extrair dos fundamentos mais do que eles podem dar. Os fundamentos são os fundamentos.

Óbvio que as pessoas que conversam comigo me acham pessimista. Mas elas que são otimistas demais. Na crise de 2008, quando o Brasil tinha grau de investimento e os ativos estavam explodindo, as pessoas me chamavam de maluco porque eu estava pessimista. Ora, estava tendo a maior crise financeira, como é que elas achavam que os emergentes iam “desacoplar” do mundo desenvolvido, que estava indo para o buraco, principalmente os Estados Unidos? Eu achava aquilo uma loucura. O mundo desenvolvido é que financiava o mercado emergente. Por mais que estivessem experimentando crescimentos expressivos, os emergentes iriam sofrer, porque haveria contração no crédito, o que ocorreu.

Os estrangeiros olham para o nosso mercado e dizem que a taxa de juros no Brasil é muito alta. É? Não sei se é. Qual o tamanho da inflação? A inflação também é alta. Aí dizem que ela vai cair. Aí eu digo, com experiência de muitos anos, de já ter visto hiperinflação: há mecanismos no Brasil, há memória inflacionária, e uma vez que você chega a uma inflação de dois dígitos, a tendência das pessoas é reajustar dois dígitos. O cara tenta. É cultural. Aí dizem que isso não é normal. Mas o Brasil é normal? Quando que o Brasil foi normal? A gente já tentou outras experiências e nunca deu outro resultado. Dá sempre o mesmo.

Não é pessimismo, é olhar realisticamente.

GENIAL: Você se lembra do seu trade mais perdedor e das lições que tirou dele?

Rogério Xavier: Em 1993, a inflação estava acelerando muito em dezembro. E o Banco Central estava com uma visão de não puxar o juro, dizendo que era transitório. Fui a uma reunião no Banco Central, falar da nossa visão, e você não espera muito que o outro lado fale, já que não tem que falar nada mesmo, mas o Banco Central tem um comunicado padrão. Eu queria ver se ele ainda estava valendo.

Levei nossas projeções para a inflação, mostrando que estava saindo do controle, e dizendo que seria preciso dar uma cacetada nos juros. O diretor olhou e reforçou que era apenas provisório, uma pressão sazonal de fim de ano que se dissiparia. Eu rebati e insisti, mas permaneceu o discurso padrão.

Voltei ao banco e falei: “Eles não vão subir os juros, vamos zerar nossa posição e vamos para o outro lado”. Fui contra o fundamento. E o que aconteceu? O Banco Central deu uma cacetada homérica nos juros. Eu estava mais do que correto antes. Praticamente sozinho no mercado. Perdi o dinheiro que havia ganhado até então e todo o resultado da tesouraria do banco a uma semana do Natal. A duas semanas de fechar o ano. Tinha gente que já tinha comprado carro, foi uma tragédia.

Aprendi duas coisas: primeiro a nunca mais ir ao Banco Central falar nada [risos]. Mas mais do que isso: sempre estar do lado do fundamento. Eu já sabia disso e burramente abri mão da minha crença naquele momento. Não me interessa o que as autoridades falam, eu sigo o fundamento. Obviamente que se o fundamento mudar, eu mudo as alocações.

Isso é o que mais pesa nas minhas decisões. Eu não ligo para movimentos de mercado. É claro que eu escuto o que os outros falam, porque eles podem estar certos e nos levar a mudar nossa decisão. Mas o que a gente segue são os fundamentos.

GENIAL: E um trade vencedor que tenha se destacado, você lembra?

Rogério Xavier: Não dá para comparar a tesouraria com a gestão de fundos, porque as magnitudes são muito diferentes. O dinheiro que você ganha numa tesouraria é infinitamente maior. Mas não tem assim um trade vencedor específico. Normalmente ganhamos muito dinheiro em crises. A da Rússia, a da Argentina, a do México, a de 2008…

Mas acho que a crise da Ásia foi emblemática nesse sentido, porque tivemos a percepção de que havia algo errado logo que a Tailândia deu o primeiro sinal. Aí já nos posicionamos para algo grande que poderia estar acontecendo nesses Tigres Asiáticos, e ganhamos muito dinheiro. Quando a bolsa de Hong Kong caiu 10%, já sabíamos exatamente do que se tratava, não chegou a ser uma surpresa.

A gente conseguiu pegar vantagem de preço no mercado numa época em que estava tudo calmo. Usando o nome de um evento que ocorre naquela região, parecia um tsunami. Quando a Tailândia deu o primeiro sinal, a água recuou e ficou uma calmaria. As pessoas acharam que a praia estava uma beleza. Olha, que máximo, dá para jogar bola aqui na areia dura e tal. Mas nós percebemos que era um tsunami e subimos no ponto mais alto da ilha.

GENIAL: Como surgiu a SPX?

Rogério Xavier: Eu saí do BBM em abril de 2010, sozinho, sem os outros sócios. Eu tinha uma visão diferente do negócio, achava o mercado de instituições financeiras no Brasil encolheria e só sobreviveriam as “grandes demais para quebrar”. Eu achava que a família tinha que vender o banco e ficar só com a gestora, passando o controle para os executivos para se equiparar às demais gestoras e não perder talentos.

Minha proposta não foi aceita na época, embora recentemente o banco até tenha sido vendido. Mas eu acho que você tem que saber da sua utilidade para a organização, e se eu não ia ser o cara a fazer essa transformação, o que eu faria lá?

Minha ideia era ir deixando espaço para as pessoas que trabalhavam comigo assumirem, para dar uma continuidade. Se você não dá espaço, as pessoas que estão com você acabam saindo, e não há renovação.

Na época, a SPX era a última coisa que eu pensava em fazer. Porque eu acho que sociedade é que nem casamento. Você tem que namorar, noivar, viver junto, regar todos os dias, fazer concessões, admitir erros, pedir desculpas. Tem que conhecer o outro lado.

E eu achava que, no ponto da vida em que eu estava, me juntar a dois caras que pudessem até ser muito bons, não ia funcionar. Cada um é de um jeito e você realmente conhece as pessoas no momento de dificuldade. Para ser só mais uma gestora… não faltam gestoras no Brasil. Seria o quê? Três caras, uma secretária e um fax? Nem existe mais fax…

Eu não sabia bem o que eu queria da vida, estava me perguntando sobre o que eu gostava, então combinei com os controladores do BBM uma saída gradativa, sem função executiva, em que eu poderia viajar, assistir a shows e competições esportivas, para depois decidir o que fazer.

Claro que quando as pessoas souberam que eu estava saindo não me deixaram muito tempo para isso. Queriam saber quais eram os meus planos, para ver se conseguiam me encaixar em algum projeto novo.

A SPX surgiu porque as pessoas que estavam embaixo de mim no BBM não chegaram a um acordo com os controladores, então elas acabaram saindo também. Aí era diferente. É a história do casamento. Eram pessoas que tinham trabalhado comigo em média por 15 anos. Já os vi na alegria, na tristeza, com problema de saúde e muito bem, então eu conheço. Pessoas que têm minha confiança total, treinadas por mim, e hoje muito melhores que eu.

A ideia da SPX era replicar o que a gente fazia dentro do banco. Não é uma gestora, é uma empresa de gestão, um conceito diferente. A gente não olha só para como ganhar dinheiro, mas também para como não perder, com coisas como fraude ou risco excessivo de custódia [de concentrar a custódia dos ativos numa única instituição]. A proposta era ter uma estrutura de Back Office e de risco parruda, uma área de pesquisa fundamentalista bem estruturada.

Hoje temos cerca de 90 pessoas aqui e uma operação robusta. Contratamos economistas e analistas de muito boa formação, gente qualificada para o Back Office, advogado para não dependermos de escritório de advocacia externo, que a gente pode até vir a consultar também. Um conjunto que mostre para os grandes bancos que somos merecedores de fazer a gestão dos recursos dos clientes deles.

Na SPX, reconhecemos o esforço que os grandes bancos fizeram para dar atendimento, ter áreas de gestão de fortunas e aconselhamento com estruturas pesadas. Eu achava que não existia, no lado da gestão, estruturas da mesma magnitude de investimento que os bancos fizeram.

GENIAL: Como você lida com os momentos de revés e estresse? De onde tira o equilíbrio para encarar o mercado?

Rogério Xavier: Pode parecer bobagem, mas a própria vida me ensinou. Você tem bons e maus momentos. Por causa do esporte, aprendi muito cedo a perder e a ganhar. A derrota serve de motivação para eu acertar. Acho que faz parte da vida e não tenho a pretensão de achar que eu vou sempre acertar. Acho que a melhor maneira de se preparar para a derrota é saber que você vai errar. Porque você estará sempre checando, reavaliando, e isso tende a minimizar os erros. E quando você erra, deve se perguntar onde e por que errou.

GENIAL: Algum livro fez grande diferença na sua caminhada? Quais livros você acha que alguém que está entrando no mercado financeiro deveria ler para se preparar para enfrentar uma futura carreira de operador?

Rogério Xavier: Eu vou falar de um bem recente porque eu acho que quem não ler estará perdendo um exemplo claro de como as pessoas não prestam muita atenção quando elas não querem: “Tudo ou nada – Eike e a verdadeira história do grupo X” [de Malu Gaspar]. É um livro fantástico, pois mostra que os erros que ele cometeu no passado recente foram os mesmos que ele cometeu no início da carreira. Lembra que eu falei que a história se repete?

Tem outro livro, chamado “Os Mercadores da Noite”, um livro de ficção de Ivan Sant’anna que também é um espetáculo. Ele cria um ambiente de trading bem legal.

Livros sobre a crise de 2008 são leitura quase indispensável. O livro “Too Big to fail” [de Andrew Ross Sorkin] é um exemplo. A crise de 2008 é uma aula do que você tem que aprender para não se repetir. Reguladores totalmente despreparados e lenientes, ninguém acompanhava nada, riscos excessivos, os bancos numa ganância, empurrando papéis para os investidores que não tinham valor nenhum…

“Ensaios sobre a Grande Depressão”, de [Ben] Bernanke, também é leitura obrigatória para entender o cenário da crise de 1929. De novo, eu acredito que as coisas se repetem, e de tempos em tempos veremos uma repetição dos erros do passado. Tem que pôr na cabeça que o que aconteceu no passado pode acontecer de novo.

Para ser um operador, você não pode viver a fantasia de que as ações vão subir indefinidamente, que os resultados serão sempre para cima. É que a tendência da nossa indústria é ser uma indústria da compra, porque é assim que as pessoas ganham dinheiro no mercado, com taxas e comissões quando vendem ativos. Só que às vezes é melhor não comprar nada ou até sair de um negócio para não perder dinheiro.

É bom pegar esses casos que acontecem de tempos em tempos e estudar. Hoje há farta literatura, por exemplo, de [Kenneth] Rogoff [coautor do livro sobre as crises financeiras através da História, “Oito séculos de delírios financeiros – Desta vez é diferente”] sobre crises de crédito, e as pessoas não dão a mínima. E provavelmente a próxima crise mundial será uma crise de crédito, pois o mundo está muito alavancado. É preciso entender quais são as condições para isso, saber se o nível de endividamento é sustentável. Tem que ler.

GENIAL: Você já se provou como gestor e empreendedor. Para onde está apontando agora?

Rogério Xavier: Vamos abrir um escritório em Londres no meio do ano que vem. Ele terá uma estrutura com pessoas operando a partir de lá, no mesmo fuso horário. A gente vai se reunir com a comunidade financeira local, traremos informações das empresas locais… para que a mesma estrutura que temos no Brasil a gente consiga ter lá também. Queremos deixar de ser um player local para nos tornarmos um player global.

Num mundo como o de hoje, se você depende só de estratégias no Brasil, parece que está deixando passar oportunidades. Mas queremos fazer isso direito, com estruturas fora do Brasil.

É um desafio enorme se apresentar no exterior como um player global. Normalmente os players brasileiros, com algumas exceções, são vistos como “ah, os caras são bons de Brasil”. Ninguém lá fora quer saber a sua opinião sobre o petróleo, ou sobre o cobre – muito embora tenhamos posições muito relevantes sobre cobre. É sempre “o que você acha de Brasil?”. Isso nos incomoda, pois temos performances muito boas nos outros mercados, e isso nem é olhado.

Achamos que, à medida que nos colocarmos dentro da comunidade financeira internacional, nosso universo de informação, relacionamentos, investidores e mesmo de recrutamento também vai ser mais global.

Pessoalmente, além de querer construir um negócio legal, eu me sinto em dívida com a sociedade se eu não retribuir o que me foi oferecido quando eu comecei a minha carreira. Houve um banco que aceitou pegar um cara que entregou um currículo só com nome, data de nascimento, endereço e telefone. E eu acho que se eu não der essa chance a alguém que está na universidade, diante do seu professor, querendo uma oportunidade como essa, eu vou estar virando as costas para a pessoa que me deu essa oportunidade.

Eu quero que o jovem que esteja em sala de aula, que queira ganhar dinheiro, seja ele quem for, nos enxergue como um lugar muito legal de se trabalhar e que dê satisfação pessoal fazer parte desse time. Se essa pessoa tiver motivação, ela vai encontrar uma chance aqui, e eu acho que hoje há poucas oportunidades sendo oferecidas no mercado.

Eu tenho visto muitos negócios serem criados para serem vendidos para um bobo por um preço fora de mercado. A mentalidade não é de criar um negócio para que os novos entrantes possam, um dia, ser os donos do negócio. Como eu não acredito que existam bobos, nem que o preço seja fora de mercado, eu acredito em gerar oportunidades para ter um negócio de qualidade.

Se eu estiver aqui para dar minha contribuição e ainda for útil, ótimo. Se não e se tiver gente melhor no meu lugar para fazer esse negócio ainda maior, melhor ainda. Ficarei muito feliz de olhar para um negócio que eu ajudei a construir e ver que ele teve sucesso. Para mim é suficiente.

GENIAL: Para encerrar, uma frase.

Rogério Xavier: Minhas frases são algo como tenha foco, tenha bom senso, seja perseverante, nunca desista, acredite sempre, coisas desse tipo. Eu não tinha nada. Tudo foi à custa de muito trabalho, de muito suor, de sempre estar focado no próximo objetivo, sem querer pular as etapas, ainda que eu tivesse uma meta maior. Sempre passo a passo.

Acho que minha frase seria “não tenha dúvida de que a montanha é muito alta, e a subida é dura, mas a vista lá de cima é linda”.

Publicado por Genial

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