A origem da frase “No news is good news” é apontada como sendo de um rei inglês do século XVII. Mas ela ganhou fama pelo personagem de Kirk Douglas no filme A Montanha dos Sete Abutres, dos anos 50, e se espalhou como um mantra. Um jornalista raso e mentiroso, expulso dos grandes jornais americanos, transforma a cobertura de um índio preso numa caverna num espetáculo carnavalesco. A frase é sua maior justificativa para reforçar a alegoria do grave incidente.

Mesmo sendo mau-caráter e com o pior dos propósitos – atrasando o resgate para manter a audiência – o personagem ganha as primeiras páginas de todos os jornais narrando o sofrimento da família do índio e a angústia das autoridades. Salvar o homem com rapidez, ou seja, uma boa notícia, faria tirar o episódio, e ele próprio, do foco das atenções.

Deixando o filme de lado, falemos do comportamento do mercado financeiro no Brasil – a descrição do filme veio apenas para contextualizar o tema central deste artigo. O País sofreu intensamente com a paralisação dos caminhoneiros, atrasando e dificultando ainda mais a já frágil recuperação da economia este ano. A confiança de empresários e consumidores está em queda, alimentando uma preocupação com os impactos mais duradouros que a greve nos transportes pode causar ao País – ponto levantado pelo FMI em seu último posicionamento sobre o Brasil.

Ainda que com um cenário mais frustrante, os investidores acabaram enxergando um copo meio cheio com outros fatos e dados disponíveis. Do lado macroeconômico, os indicadores antecedentes de junho e julho mostram uma recuperação da indústria bem capaz de superar as perdas de maio. O mesmo não deve acontecer com varejo e serviços, que dependem muito da sensação de segurança e disposição dos consumidores. Mas alguma recuperação deve acontecer.

Inflação e juros escaparam de um contágio negativo mais forte, tanto por motivos domésticos quanto pelos vindos do exterior. O repasse da desvalorização do real ocorrida nos últimos meses parece estar vindo com força insuficiente para desviar o IPCA da meta de inflação. O lado ruim é que o desincentivo aos repasses vem da queda da atividade econômica e do alto desemprego, além da ainda elevada ociosidade no parque produtivo. Não foi possível captar o que o tabelamento dos fretes pode provocar.

O mundo lá fora, mesmo com tantas “trumpices”, deu também uma trégua. A guerra comercial continua provocando calafrios, mais pelo que não se sabe dela do que pelo o que se viu até agora. Mas Donald Trump tem a habilidade, às avessas, de ir e voltar em suas posições, avançando em acordos bilaterais que tranquilizam lideranças sobre potencial desequilíbrio da economia mundial. A economia americana, por sua vez, segue crescendo com força, porém, parece responder bem às decisões do banco central daquele país, o FED, que tem pela frente um cronograma de elevações dos juros.

Por último, mas não menos importante, o quadro eleitoral. Este foi o que deu a maior guinada nos últimos dias e selou o clima de “No news is good news”. Ciro Gomes se envenena pela própria boca; Jair Bolsonaro se isola em seu radicalismo; Lula insiste em sua candidatura e comanda a radicalização do Partido dos Trabalhadores e, a novidade que soou como música aos ouvidos do mercado financeiro: Geraldo Alckmin ganhou o Centrão e metade do tempo de propaganda na TV.

No imediatismo da colônia financeira, os preços foram corrigidos na expectativa, ou melhor, na esperança, de que o quadro descrito acima seja capaz de se reverter em votos ao ex-governador de São Paulo, do PSDB – preferido desde sempre da banca de investidores. Alckmin não é o índio preso na Montanha dos Sete Abutres, ao contrário. O mais indicado é que ele mantenha o rolo de notícias sem novidades, sem um tempero mais forte, como um chuchu, por exemplo.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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