Quatro anos se passaram e já estamos em ano de Copa do Mundo de novo. Trocamos Dunga pelo Tite e esperamos (rezamos) não amargar mais nenhum placar vergonhoso. Mas o tema que vai dominar as mesas de bar e o do mercado será mesmo as Eleições de 2018.

Eleição é sinônimo de volatilidade no mercado de capitais. A cada novidade será um sobe e desce, uma avalanche de emoções, um explode coração. O pleito deste ano é especialmente complicado porque ocorre em um ambiente de vazio político após escândalos de corrupção. Isso aumenta consideravelmente o risco de um “outsider” cujas políticas não sejam pró-mercado.

O brasileiro vai às urnas, pela primeira vez após a pior crise econômica da história, decidir o destino do país. A polarização entre PSDB e PT nunca esteve tão fraca. Os tucanos se digladiando entre eles mesmos e os petistas sem saber se vão poder contar ou não com o Lula. O resultado disso é que a cada dia surgem novos possíveis candidatos.

Montanha russa

Incerteza traz instabilidade. Mas volatilidade não é necessariamente ruim. São nas distorções de preço que estão as oportunidades de bons investimentos. Mas é preciso ter estômago e estar preparado. Nada pior do que ser pego no contrapé.

O mercado financeiro está otimista com as eleições. Espera que, no fim, um candidato de centro comprometido com as reformas vai se destacar na disputa. Mas se 2017 nos ensinou alguma coisa é estar sempre preparado para imprevistos.

Como bem disse Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes. Quem se lembra do fatídico 18 de maio de 2017? Foi o dia em que a delação de Joesley Batista fez a bolsa acionar o mecanismo de “circuit breaker” e perder R$ 200 bilhões em valor de mercado em apenas um dia.

Lula Lá

Ainda faltam 271 dias para o primeiro turno das eleições, que ocorrem dia 07 de outubro. A experiência mostra que os mercados têm dificuldade de precificar de forma tão antecipada os riscos associados a pleitos presidenciais.

Mas apesar do encontro com a urna eletrônica ainda parecer distante, o ringue pode ser aberto extraoficialmente já neste mês de janeiro, com o julgamento em segunda instância de Lula no caso do tríplex. Marcado para o dia 24 de janeiro, a sentença pode determinar a participação do ex-presidente nas eleições de 2018.

Uma condenação criminal por um órgão colegiado, como é o caso deste julgamento, pode tornar uma candidatura inelegível, segundo a Lei da Ficha Limpa. E um pleito sem Lula é bem diferente de uma eleição com Lula, muda toda a dinâmica das peças no tabuleiro.

Não precisa ter bola de cristal para saber que o mercado torce pela condenação. Apesar de os mandatos de Lula entre 2002 e 2010 terem sido aprovados, espera-se que uma terceira gestão possa ser mais populista e não comprometida com as reformas necessárias para o crescimento a longo prazo do país.

Na fila

Tantos as últimas eleições no Brasil quanto nos EUA deixaram bem claro que as pesquisas de intenção de votos podem ser bem furadas – mas ainda assim é a única bússola que temos. As pesquisas mais recentes mostram Lula na liderança e um segundo turno disputado com Bolsonaro.

Seja à esquerda ou à direita, essas duas possíveis candidaturas ainda não deixaram claro quais políticas econômicas adotariam em um possível governo. Aqui navegamos em meio a uma neblina bem espessa. O mercado financeiro pode estar sendo ingênuo com tanto otimismo em um jogo tão complicado. Ou simplesmente entrou no modo “cheerleader” e está torcendo pelo melhor.

Pelo meio de campo, o jogo também está bem embolado. No centro, o PMDB (agora MDB) de Temer não descarta uma possível candidatura própria ou da atual coalizão de poder. O atual ministro da Fazenda Henrique Meirelles está na fila. Nos últimos meses o governo tem tentado construir uma narrativa de que tirou o país do atoleiro e tenta angariar aprovação para o governo de Temer.

Ainda pelo centro, temos o PSDB totalmente fragmentado, numa disputa interna sem fim, com Geraldo Alckmin como pré-candidato. Marina Silva já lançou sua pré-candidatura a presidência pela Rede, mas ainda assim anda mais sumida que cerveja no mercado em véspera de feriado. Há ainda a possível candidatura ioiô de Luciano Huck, que vai e volta num piscar de olhos. Pela lateral esquerda não podemos esquecer do pré-candidato Ciro Gomes, do PDT. 


Aperte os cintos

Após o julgamento de Lula, se não tivermos nenhuma surpresa, a próxima data relevante da agenda eleitoral será dia 7 de abril, data limite para quem pretende concorrer aos cargos eletivos se filiar a um partido político, ou seja, seis meses antes da data das eleições. Aqui o pleito deve ganhar mais contorno.

O registro das candidaturas poderá ser feito pelos partidos até o dia 15 de agosto. Mas como de tédio nunca morreremos, os partidos podem pedir a substituição de um candidato que seja considerado inelegível até 20 dias antes da eleição. Ou seja, há a possibilidade de emoção adicional às vésperas da votação.

E no meio de todo esse longo e emocionante caminho, ainda teremos a tentativa de votar a reforma da previdência. Então advinha? Mais volatilidade. O governo ainda não tem os 308 votos necessários na Câmara, por isso empurrou a votação para este ano.

Lembra daquela discussão do fim do governo Dilma de que o tamanho da dívida do país era uma bomba-relógio? Se no médio prazo nada for feito para melhorar as contas do Brasil (e a previdência entra nesta conta), essa questão voltará com tudo. No curto prazo, porém, a sensível melhora dos fundamentos são mais importantes para a economia. Mas aperte os cintos: o piloto não sumiu, mas só será conhecido em outubro – assim como seu plano de voo.

Thais é jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero com MBA em Informações Econômico-Financeiras. Foi repórter de finanças e investimentos dos maiores veículos especializados do país, entre eles o jornal Valor Econômico e as revistas Exame e Capital Aberto.

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