A pesquisa feita pelo Datafolha revelou que quase 90% dos brasileiros não querem pagar mais impostos e, ao mesmo tempo, a mesma quantidade de gente espera que o Estado seja mais protetor e acolhedor de todas as demandas sociais do país. O contrassenso não é novidade, talvez a dimensão seja. O que preocupa e assusta no resultado da pesquisa é o “não aprendizado” do que experimentamos na última década.

Os governos do PT, especialmente nos mandatos de Dilma Rousseff, atenderam exatamente a este desejo da população, esgarçando a capacidade – que é inelástica, diga-se de passagem – do Estado em atender a todas essas demandas, fossem elas legítimas, corporativas, políticas e/ou desonestas. Com uma certa empáfia e muita irresponsabilidade, a gestão petista distribuiu benesses para todos os lados, mais ainda à parcela da população brasileira que menos precisava de ajuda, mas é a mais mimada pelo setor público há décadas, os chamados campeões nacionais.

O maior feito que poderia ter sido alcançado pelo governo passado, qual seja, melhorar a distribuição de renda, aumentando o acesso ao consumo de produtos e serviços pela população menos favorecida, foi realizado às custas de um endividamento acelerado do país como um todo: Estado, empresas e famílias. Este endividamento aconteceu, especialmente entre empresas e famílias, com a pior ferramenta possível numa economia: o controle de preços.

Este controle começou timidamente antes que Dilma Rousseff assumisse a Presidência da República e ficou escancarado já nos primeiros anos de seu mandato. O governo segurou preços do combustível – estopim da greve dos caminhoneiros que durou mais de 10 dias – da linha branca de eletrodomésticos, da conta de luz, do dólar, dos carros e até do dinheiro, ou seja, a taxa de juros.

Os instrumentos foram vários, passando pela isenção de impostos, pela redução forçada dos juros no crédito concedido pelos bancos públicos, pela venda de dólares no mercado para evitar alta da moeda americana, pelo controle no preço da gasolina definido pela Petrobras, pela queda imposta nas tarifas de energia e, finalmente pela interferência ostensiva nas decisões do Banco Central sobre a taxa básica de juros.

Era tudo artificial, ou seja, insustentável. Quando a corda ruiu e o governo precisou soltar tudo de uma só vez, conhecemos a fúria da contenção de preços na economia. Só para citar a conta de luz, um exemplo que faço questão de repetir sempre, as tarifas subiram 70%, em média, em 2015. 70%! A inflação disparou, os juros dobraram, a recessão chegou com toda força e arrastou o país para a pior recessão da história, provocando uma das maiores taxas de desemprego também já registradas.

Para bancar tantas decisões equivocadas, o Estado brasileiro faliu. O endividamento público estourou, a capacidade de investimento despencou e o governo encara a obrigação de gastar quase 70% do orçamento federal com folha de pagamento, aposentadorias e pensões. Ah sim, porque, juntamente com todas aquelas políticas públicas irresponsáveis, o governo petista expandiu a folha de pagamento do governo federal, criando dezenas de estatais, ministérios, secretarias e outros penduricalhos que custam fortunas aos cofres públicos.

Mas não, não foi suficiente. Não aprendemos. Talvez mais do que nunca, a sociedade brasileira quer que o Estado responda por todos os erros que cometeu e, desde que não se meta muito na sua vida, seja capaz de suprir todas as falhas e distorções presentes na economia brasileira. É preciso dizer que os escândalos de corrupção tiveram papel importante no julgamento sobre o que deu certo e o que deu errado nos governos que tivemos nas últimas duas décadas.

Ainda assim, mesmo que a demanda tenha algum senso de justiça, não é clamando pela mesma solução que nos jogou na crise mais cruel de que temos notícia, que vamos encontrar a saída. Ao contrário. Tudo indica que o aprendizado será adiado mais uma vez – a solução encontrada para por fim à greve dos caminhoneiros é um sinal evidente desta realidade.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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