O ano é de 2018, mas a vida do brasileiro parece ter voltado ao século passado. As imagens de filas nos postos de gasolina lembram muito os anos 80, quando o brasileiro corria para abastecer o carro porque o governo anunciava, em geral a noite, que o preço do combustível seria reajustado. Eram tempos em que a taxa de inflação brasileira corria solta e alcançava patamares mensais acima de 30%.

Hoje, contudo, se olharmos para a inflação brasileira ela está bem comportada e abaixo da meta que é de 4,5% ao ano. A fila para o combustível ocorre por outra razão: medo de escassez. A greve dos caminhoneiros já começa a provocar desabastecimento em vários setores, inclusive combustível. E por que a greve? Porque o preço do combustível, nesse caso o diesel, está subindo.

O preço sobe porque no mercado internacional o preço do petróleo está em alta e atualmente a política de preços da Petrobras acompanha a cotação no exterior. Nem sempre foi assim, contudo.

Durante o governo da ex-presidente Dilma, a Petrobras serviu como um instrumento de política monetária para segurar a inflação. Mesmo com o preço do petróleo em alta, o governo segurou os repasses para o preço do combustível no país. Esse movimento abalou fortemente a empresa, mais do que os sucessivos escândalos de corrupção na companhia.

O preço das ações da Petrobras chegou a bater 5 reais em 2016 (veja no gráfico). Com a mudança de governo e a nomeação de Pedro Parente para o comando da empresa, a gestão mudou e a recuperação dos preços foi uma tônica. Esse movimento ajudou a recompor o caixa da companhia e suas ações acompanharam com valorização (acompanhe no gráfico).

Agora, a estatal volta ao centro das atenções. Se ceder a pressão para que controle os preços impere (o que significa que venderá combustível mais barato do que paga por ele na importação, ou seja com prejuízo), é de se esperar uma troca de comando na empresa. Muitos agentes duvidam que Pedro Parente coloque em risco sua reputação como gestor para atender pressões do governo. Nesse caso, a perspectiva de lucro da empresa tende a mudar brutalmente com um reflexo no preço das ações.

Já se o governo se mantiver afastado da gestão, a Petrobras deve colher os frutos de uma gestão profissional.

De qualquer forma, o episódio serve como exemplo para o investidor dos riscos de se associar a uma empresa que tem o governo como controlador.

* Mara Luquet escreve todas as quartas-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Idealizadora do MyNews, primeiro canal de jornalismo feito exclusivamente para o YouTube, Mara é jornalista especialista em economia e investimentos. Tem passagens pelos jornais Valor Econômico, Folha de S. Paulo e revista Veja, além de ter sido colunista da CBN e comentarista de jornais da Globo e GloboNews. Apresenta o programa “Economia é Genial” todas as quintas-feiras no canal MyNews, às 20h30.

Comentários

  • É interessante como todos falam da Petrobras com sendo uma empresa privada que deve ser gerida como outra empresa qualquer de forma profissional. Acontece que sou empresário e tenho que lidar com todos os encargos do Brasil e ainda concorrer com produtos trazidos da China que entram no Brasil 20% mais barato que os produzidos aqui. Como pode chamar a Petrobras de empresa privada quando detém o monopólio dos combustíveis em um país da dimensão do Brasil ??!! É muito fácil resolver o problema alterando os preços diariamente conforme mercado internacional, isto nada mais é do que transferir a conta da corrupção e má gestão para o bolso dos brasileiros. Os caminhoneiros estão certos em pedir um preço justo pelo diesel, porém estão fazendo a reIvindicação errada: ao invés de pedir para reduzir os impostos, que mais cedo ou mais tarde virão para nossa conta de outra forma, deveriam exigir o FIM DO MONOPÓLIO DA PETROBRAS, que os brasileiros possam comprar combustível de outras empresas a um preço verdadeiramente de mercado! Da mesma forma como se acabou com o monopólio da telefonia, que só beneficiou o consumidor, devemos lutar pelo fim do monopólio da Petrobras, pois somente a livre concorrência garante o melhor preço para o consumidor.

  • Mara, adorei o texto, você foi capaz de expressar em palavras o que eu já vinha pensando sobre isso tudo, agora infelizmente eu creio que o governo vai intervir na empresa fazendo congelamento de preços, porque essa é a saída mais populista.

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