Estou em Hamburgo, na Alemanha, para acompanhar a Hannover Messe CeMat 2018, a maior feira de tecnologia e logística industrial do mundo. Para quem acompanha a macroeconomia brasileira há anos, com olhar voltado para o comportamento dos agentes econômicos e seus efeitos na atividade e nos indicadores, tem sido muito interessante conhecer de perto esta realidade tão distante e, ao mesmo tempo, tão pujante.

A chamada indústria 4.0 está no centro do debate, mas não como um pacote pronto, ou objetivo final dos grandes parques produtivos do mundo. A nova revolução industrial está em construção e tem na digitalização dos processos, como a automação e a aplicação da inteligência artificial em larga escala, seu principal pilar. A feira em Hannover, com seus mais de 5 mil expositores, de 75 países, mais de 220 mil visitantes, dá uma boa dimensão desta corrida pela inovação e seus ganhos.

O futuro

O futuro, como muitos de nós imaginamos, já chegou para vários setores produtivos, especialmente nos países mais ricos. E o avanço segue rapidamente, se espalhando para todo tipo de negócio, com possibilidades infinitas de soluções para todo tipo de necessidade. A logística, tema que se discute muito no Brasil com lamento, no mundo desenvolvido tem a mesma relevância dos produtos em si, ou de como eles são feitos.

Em um dos imensos galpões da Hannover Messe, conheci robôs colaborativos. Como me explicou o executivo da companhia, estas não são máquinas que vão substituir o homem, ou operar cercadas para evitar acidentes. Ele garante que elas surgem para atuar ao lado dos humanos, podendo captar as emoções e o sentimento das pessoas! Se o robô perceber que o trabalhador está estressado, por exemplo, pode diminuir a velocidade da produção sem interromper o trabalho, mas evitando erros.

Nos estandes de logística, a Jungheinrich, uma das maiores empresas de empilhadeiras e soluções de armazenamento do mundo, apresentou novas baterias feitas de lítio para operação das máquinas. Elas são carregadas em apenas uma hora, e não em 8 horas como as comuns, tem vida útil três vezes maior e ainda podem ser recicladas – um novo ramo de negócio que surge a reboque da inovação.

São apenas dois exemplos que podem ser resumidos em duas palavras – ou consequências: produtividade e competitividade.

E o Brasil?

O Brasil teve participação inexpressiva na Hannover Messe. O governo brasileiro não mandou ninguém, nem fez qualquer ação de promoção do país. A Confederação Nacional da Indústria trouxe um grupo de empresários do Rio Grande do Sul, organizados por uma comissão da Federação das Indústrias do estado. Outros brasileiros vieram de lugares como Bahia e interior de São Paulo, todos incentivados pela necessidade de se atualizar, mesmo que a velocidade do desenvolvimento do Brasil ainda esteja bem lenta e pouco eficiente.

Como oitava maior economia do mundo, com mais de 200 milhões de consumidores, recursos naturais abundantes e uma necessidade colossal de investimentos em infraestrutura, o Brasil está fora deste debate sobre o futuro, de como chegar lá e, principalmente, como se beneficiar já durante a jornada.

Nossa pauta está presa ao passado, insistindo em nos segurar no final da fila. Daqui de Hamburgo soube que o Congresso Nacional ainda não conseguiu votar a criação do Cadastro Positivo, uma mudança essencial para o aprimoramento do mercado de crédito. Será que gostamos tanto de juro alto que não queremos nos livrar dele? Cito apenas este caso para não estragar a curiosidade pelo relato sobre a Hannover Messe.

O maior risco que corremos neste triste cenário é passarmos de inevitáveis a irrelevantes no portfólio de grandes investimentos internacionais. Se aquele “robô amigo” viesse parar no Brasil agora, ele que ficaria estressado e desistiria de operar, sentindo falta de uma cerca para protegê-lo do nosso atraso.

PS: Thais Herédia viajou a convite da Jungheinrich Brasil para a Hannover Messe.

* Thais Heredia escreve todas as quintas-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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