No cenário confuso das eleições de outubro, o presidente Michel Temer escolheu um momento desfavorável para tentar alavancar sua candidatura e a semana terminou com consideráveis percalços para suas pretensões eleitorais. O que fica claro é que esse inferno astral do presidente não tem data para terminar.

Ele anunciou viagens pelo Brasil para tentar por na rua a sua campanha. Foi à abertura da ExpoZebu, em Uberaba, gesto tradicional dos presidentes brasileiros ao longo dos anos, mas cancelou a ida à AgriShow, maior feira da indústria agropecuária do país, em Ribeirão Preto, e retornou a Brasília.

O motivo do cancelamento da visita foi o agravamento da crise em razão das denúncias de corrupção envolvendo amigos e familiares do presidente. Temer também foi forçado a cancelar viagem oficial ao Sudeste Asiático, no período de 5 a 14 de maio. Considerou mais prudente ficar em Brasília,  para se defender das denúncias contra ele.

Investigação

Com a decisão da Polícia Federal de prorrogar por mais 60 dias o inquérito que investiga o presidente e pessoas próximas a ele, o cerco se fechou e abalou a calma que Temer sempre procurou manter neste tipo de situação.

Maristela Temer, uma de suas filhas, deverá depor à Polícia Federal nesta quarta-feira. Os investigadores querem saber se a reforma da casa de Maristela, em São Paulo, teria sido bancada com dinheiro de propina repassado por um dos principais amigos do presidente, o coronel Lima, que teria recebido R$ 1 milhão da JBS e destinado os recursos para as obras no imóvel da filha de Temer.

Em princípio, o presidente reagiu com indignação, alegando que sua família estava “desesperada”. Depois, atacou os responsáveis pela investigação, chamando todo o processo de “canalhada”. E, por fim, em pronunciamento na sexta-feira, se declarou inocente e informou ter determinado ao Ministério da  Justiça que apure “possíveis vazamentos” do inquérito no qual é citado.

Para a PF e representes do Ministério Público, trata-se de uma clara tentativa de intimidar os responsáveis pelas investigações. A reação em tom mais elevado do presidente é, para muitos, a última cartada do Palácio do Planalto para tentar impedir que a terceira denúncia contra Temer chegue ao Congresso, onde ele está isolado e sem cacife para negociar com os parlamentares.

Isolamento de Temer

O isolamento político do presidente é patente. Ele não tem mais interlocutores no Legislativo, votações importantes para o governo, como a criação do chamado cadastro positivo, não avançam. Quase ninguém acredita que o presidente consiga implementar qualquer proposta relevante de votação em seus últimos meses no poder.

Na busca desesperada de Temer por apoio, chegou a se falar numa aliança entre ele e Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB à presidência, para a disputa das eleições. A ideia de unificação seria para fortalecer a candidatura Alckmin, que hoje não consegue passar de 8% de intenção de votos nas pesquisas. Em troca, o tucano se comprometeria a defender “o legado Temer”, seja isso o que for.

Anunciada na semana passada, a proposta já foi torpeada pelos dois lados nesta segunda-feira. Os tucanos acham que a popularidade de Temer é tão ruim que não trará nenhum benefício ao ex-governador de São Paulo. Já os aliados do presidente temem que ele seja traído por Alckmin, em caso de vitória do peessedebista, e abandone o MDB caso venha a ser eleito.

E como se todos esses problemas não bastassem, o desempenho errático da economia brasileira é outro grande entrave aos desejos de Temer de se reeleger. A estabilização da economia e a retomada do crescimento são a principal aposta do presidente Temer para se colocar como um nome viável para a disputa presidencial, mas isso está longe de acontecer.

A economia anda de lado

Dados divulgados pelo IBGE no dia 27 comprovam que a geração de emprego não consegue engrenar e as taxas de desocupação permanecem em patamares elevados. De acordo com o IBGE, no primeiro trimestre de 2018 o índice de desemprego chegou a 13,1%,  o equivalente a 13,7 milhões de brasileiros sem trabalho.

Em resumo, uma fotografia que retratasse a atual situação do presidente Temer o mostraria como um político sob investigações profundas e avançadas da Justiça e da Polícia Federal, isolado politicamente, sem qualquer apoio expressivo, e enfrentando grandes dificuldades na condução da economia. As adversidades que se impõem a Temer são muitas e imensas.

* Gabriel Azevedo escreve todas as terças-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Publicado por Gabriel Azevedo

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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