O futuro está muito longe, fica lá depois de outubro. Ele é incerto, mas qual futuro não traz uma boa dose de incerteza? Aqui no Brasil, como já disse uma figura pública, até o passado surpreende, então, estamos acostumados a levar sustos. O inusitado desta vez é que é o presente que tem causado mais medo do que o que vem por aí.  Será?

Em poucos dias fomos inundados de informações sobre o quadro eleitoral, com três pesquisas seguidas dos maiores institutos do país, confirmando o que os levantamentos feitos com amostras menores e metodologia digital já indicavam. O ex-presidente Lula (PT) dispara como candidato preferido dos eleitores, seguido por Jair Bolsonaro (PSL). O resto dos candidatos fica bem abaixo dos dois líderes, dividindo votos espalhados por vários nomes e uma mesma característica, qual seja, a maioria representando um centro entre os radicais da esquerda e os radicais da direita.

Como já era esperado, o dólar atravessou a barreira psicológica dos R$ 4,00 (e segue em alta nesta quarta-feira), a bolsa de valores opera no vermelho e as mesas de operação de bancos e fundos de investimento buscam proteção para suas posições no mercado. A tomada de decisão dos investidores está sem um fundamento racional, baseada num quadro eleitoral que impressiona até os mais criativos.

O que mais assusta é a constatação de que um ex-presidente relacionado ao maior esquema de corrupção do país, condenado e preso, e um capitão do exército (reservista), macaco velho do Congresso Nacional e defensor dos costumes que ignoram as minorias, desqualifica as mulheres e quer o armamento da população, representam hoje a maioria dos eleitores brasileiros.

Será que um país assim representado pelas pesquisas quer reformas constitucionais? Quer um Estado mais enxuto, menos interventor? Quer rever suas prioridades e se fortalecer no mercado internacional? Quer avançar na tecnologia e na inovação para se inserir na revolução industrial que já acontece mundo afora?

Um olhar mais detalhista das pesquisas eleitorais mostra como a diferença na escolaridade se relaciona com a tendência do voto. A pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo mostrou que, entre os eleitores com ensino superior, Lula e Bolsonaro lideram com quase 50% dos votos, igualmente divididos entre os dois. Entre os eleitores que cursaram até o 4o ano do ensino médio, Lula tem 51% dos votos.

O presente dá medo. O presente revela que aprendemos muito pouco sobre a má gestão das contas públicas, sobre a nefasta relação entre corruptos e corruptores dos setores público e privado, sobre a cooptação política e, especialmente, sobre a manipulação das instituições em defesa de interesses escusos.

Numa conta de padaria, o mesmo dólar que bateu em R$ 4,00 em 2002, movido pelo “Efeito Lula” da época, seria hoje algo perto de R$ 7,00, quando aplicada a inflação do período. A barreira psicológica dos R$ 4,00 se manteve neste tempo todo e só foi ultrapassada por influencia do Partido dos Trabalhadores. Em setembro de 2015 e vários momentos de 2016, a moeda americana avançou para além daquele patamar, precificando a trajetória para o abismo fiscal e político que o país encarava.

Agora, estamos novamente escolhendo o rumo do conflito aberto, piorado pela radicalização política, mas, especialmente, pela precariedade da gestão pública no país, que, esta sim, ultrapassou todos os limites da responsabilidade nos últimos anos e nos trouxe até aqui. Os R$ 4,00 podem ser pouco para acolher tanto medo.

Thais Heredia

Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

Deixar um comentário