O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), tem mantido sua estratégia de implementar um novo modelo de articulação política. Em vez de negociar com os comandos partidários, Bolsonaro prefere negociar com as bancadas temáticas do Congresso Nacional. Nas duas indicações políticas que fez ao ministério, essa lógica prevaleceu.

Nesse sentido, é importante avaliar o tamanho das bancadas temáticas e sua atuação, especialmente durante a votação da agenda de reformas proposta pelo governo Temer.

Em geral, as frentes parlamentares reúnem centenas de integrantes, mas nem todos possuem participação ativa. Por isso, nesta análise, serão considerados somente aqueles parlamentares que, de fato, afirmam pertencer à determinada frente (de acordo com o estudo do Estadão – Os Donos do Congresso).

As bancadas com atuação mais marcante e que mais despertam a atenção do futuro presidente são as frentes da agropecuária, da segurança pública e a evangélica – as chamadas bancadas BBB, ou do boi, da bala e da bíblia. Os parlamentares que afirmam pertencer a essas frentes somam 202 nomes. Desse total, 95 obtiveram a reeleição – 47% do total. Dos 513 atuais deputados, 251 foram reeleitos, ou 49%.

Bancadas Temáticas Total de deputados Deputados reeleitos
Agropecuária 119 53
Evangélica 82 40
Segurança 32 19
Total Bancada BBB* 202 95

* Muitos parlamentares participam de mais de uma frente parlamentar simultaneamente

Dos 251 deputados reeleitos, 108 votaram favoravelmente às reformas (nesse quesito, foram consideradas as votações da PEC do Teto e da reforma trabalhista). Já entre os 95 parlamentares das ‘bancadas BBB’ reeleitos, 65 votaram a favor das reformas econômicas de Temer. Ou seja, o apoio à agenda de reformas foi maior entre os deputados pertencentes a essas frentes temáticas, o que é um bom indicativo para o novo governo.

Total Deputados reeleitos Deputados reeleitos
favoráveis às reformas
Câmara 251 108
Bancada BBB 95 65

É importante avaliar também o grau de coesão das bancadas temáticas na votação da agenda econômica de Temer. Enquanto os partidos possuem instrumentos capazes de garantir a disciplina e a fidelidade de seus aliados, há dúvidas sobre o comportamento e a capacidade de articulação das frentes parlamentares.

O presidente Temer, conforme pode ser visto abaixo, conseguiu obter taxas de apoio expressivas entre os partidos aliados para aprovação das reformas. O MDB garantiu mais de 80% de apoio, o PSDB e o DEM apresentaram mais de 90% de adesão à agenda do governo. Nunca é demais lembrar que a reforma trabalhista foi aprovada com 296 votos, ou 58% de apoio do Plenário.

 

Partidos Total de deputados favoráveis às reformas Deputados reeleitos favoráveis às reformas
MDB 81% 86%
PP 72% 78%
PSD 76% 61%
PR 73% 65%
DEM 97% 94%
PSDB 91% 94%

No que toca às bancadas temáticas, conforme tabela abaixo, fica evidente o comportamento disciplinado da frente ruralista: quase 80% de seus membros votaram com o governo.

Em relação às bancadas evangélica e da segurança pública, não é possível uma apreciação conclusiva. Em uma primeira análise, os parlamentares dessas frentes apresentam taxas expressivas de apoio às reformas – porém menores que as apresentadas pelos partidos aliados ao governo. No entanto, quando se exclui da conta os parlamentares que também integram a frente ruralista, essa taxa de apoio cai para algo em torno de 50% a 60%, conforme pode ser visto nas últimas linhas da tabela abaixo. A boa notícia é que, dentre os deputados reeleitos, o grau de apoio às reformas foi mais elevado.

Bancadas Temáticas Total de deputados favoráveis às reformas Deputados reeleitos favoráveis às reformas
Ruralistas 79% 79%
Evangélicos 56% 62%
Segurança 65% 68%
Evangélicos (excluindo Ruralistas) 48% 56%
Segurança (excluindo Ruralistas) 57% 61%

A elevada taxa de renovação do Congresso Nacional dificulta uma avaliação mais precisa sobre a governabilidade do próximo presidente da República. Além disso, a nova estratégia de articulação política desenhada por Bolsonaro ainda não foi testada.

Os dados disponíveis permitem afirmar que a bancada ruralista possui atuação mais coesa: foi a que mais deu votos para aprovação das reformas; mas foi também a que obteve a menor taxa de reeleição de seus integrantes. O presidente eleito parece ter acertado ao nomear para o ministério da Agricultura a atual presidente da frente parlamentar da agropecuária, deputada Tereza Cristina (DEM).

No que tange às bancadas evangélica e da segurança, há interesses corporativos presentes que dificultam o apoio às reformas. Por isso mesmo, a sua atuação é menos coesa. Nesse sentido, será fundamental avaliar a habilidade de Bolsonaro para conquistar o voto dessas bancadas – com as quais possui maior proximidade ideológica – e fazer deslanchar sua agenda de reformas no Congresso.

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg

Ribamar Rambourg é coordenador de análise política na Genial Investimentos, responsável pela avaliação do cenário político-eleitoral brasileiro. Ribamar é economista graduado pela FEA-USP e mestrando em Ciência Política na FFLCH-USP. Em sua dissertação de mestrado, analisa o tema “Coalizão de governo e crise de governabilidade no período Dilma Rousseff

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