Vai levar um tempo para digerirmos a decisão do Banco Central de manter os juros em 6,5% ano, tomada na reunião de Maio do Comitê de Política Monetária. Pelo menos até a divulgação da ata do encontro, daqui cinco dias, vamos conviver com análises e interpretações sobre as motivações da diretoria do BC.

O inusitado não está nos questionamentos sobre as razões, está no fato de que, apesar da surpresa com a manutenção da taxa básica, está difícil achar quem critique a escolha do Copom. Cada um dos lados desta moeda apresenta uma boa justificativa para as alternativas possíveis.

Se olharmos para a combinação inflação-atividade econômica, a queda dos juros estaria completamente amparada. O IPCA roda abaixo de 3% e deve terminar o ano raspando este piso da meta de inflação – que é de 4,5%, com uma banda de tolerância de 1,5pp para cima ou para baixo. Não há riscos suficientemente grandes que ameacem o cumprimento da meta em 2018 e, quiçá, em 2019.

A recuperação da economia é inegável, porém seu ritmo tem sido cada vez mais frustrante. O próprio BC apresentou esta semana seu indicador de atividade, o IBC-Br, com queda no primeiro trimestre do ano. O resultado do PIB, índice oficial do IBGE, não deve seguir a risca o que o IBC-Br mostrou, mas a tendência é irrefutável, qual seja, a de moderação no ritmo e na intensidade.

Virando a moeda, vemos um cenário externo no mínimo mais desafiador. Aliás, esta foi a ressalva destacada pelo comunicado do Copom. A alta do dólar é um movimento global, que veio para ficar neste novo momento de aumento das taxas de juros nos Estados Unidos. O Brasil não está nem estará imune a este processo, ao contrário. Sendo emergentes e com muitas incertezas pela frente, nossa fragilidade só faz crescer diante da percepção dos investidores.

Foi-se o tempo em que uma desvalorização da moeda nos empurrava rapidamente a um abismo. Hoje somos, literalmente, um novo país, pelo menos no que diz respeito às contas externas. Temos US$ 380 bilhões em reservas internacionais e um déficit em conta corrente de 0,5% do PIB. Para servir de consolo, na vizinha Argentina, este indicador está em quase 5% do PIB.

Foi-se também o tempo em que o repasse do preço do dólar para os preços era mais rápido e forte, provocando alta mais disseminada da inflação. Este efeito continua existindo, mas em menor intensidade e, diante do nível atual do IPCA e das expectativas para seu comportamento, o risco diminuiu consideravelmente.

Ainda assim, o BC escolheu ponderar esta ameaça, mesmo reconhecendo que ela diminuiu. A cautela do Copom faz sentido quando lembramos que nunca experimentamos uma taxa de juros no atual patamar. Os 6,5% de agora – que aliás devem permanecer por aí por mais tempo, segundo o recado do Copom – já são novidade suficiente para lidar.

Ainda se esperam efeitos positivos da redução da Selic na economia nos próximos meses, estimulando o crédito e a atividade. Este nível também parece adequado para lidar com a insegurança que só vai crescer diante do quadro eleitoral muito incerto e inseguro, especialmente no que diz respeito às reformas necessárias para garantir a solvência do Brasil.

Ao manter os juros em 6,5%, o BC manda alguns recados importantes, além da leitura sobre a macroeconomia. O primeiro deles: os diretores do Copom, liderados por Ilan Goldfajn, podem mudar de ideia quando acharem necessário, mesmo que tenham sido muito claros sobre o que poderiam fazer momentos antes da definição da taxa. Há uma semana, a sinalização reforçada pelo próprio Ilan era de que os juros cairiam para 6,25%.

O segundo recado vai para os investidores internacionais que já começaram a desistir dos emergentes rentáveis para voltar para os títulos norte americanos. Segurando a taxa neste patamar, o BC mantem algum atratividade ao capital estrangeiro, evita uma desvalorização do real diante do movimento de fortalecimento do dólar e adia a volatilidade que vamos sentir cada vez mais forte coma proximidade das eleições de outubro.

* Thais Heredia escreve todas as quintas-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Publicado por Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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