A pouco mais de três meses do primeiro turno das eleições presidenciais de outubro, as pesquisas de opinião para mensurar a intenção de voto dos brasileiros sinalizam um quadro preocupante: boa parcela dos eleitores irá às urnas para anular o voto ou votar em branco, e não em defesa de propostas e princípios de um ou de outro postulante ao Palácio do Planalto.

Cenários passados

Rápida análise das últimas disputas presidenciais no Brasil, a partir da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, nos mostra que a predominância do voto reativo, em detrimento do voto propositivo, é um retrato fiel da polarização na qual o país está mergulhado e do desencanto com os políticos. É um cenário que as instituições brasileiras não vivenciaram em tempos recentes,  um dado novo com o qual os partidos e candidatos ainda não aprenderam a lidar.

Tivemos seis eleições presidenciais desde 1994. FHC, eleito pela primeira vez, foi a escolha do eleitorado pela estabilidade econômica, manutenção do Plano Real e combate bem sucedido à inflação. Quatro anos depois, mesmo após a crise internacional de 1997,  o controle da inflação foi o fiador da reeleição de Fernando Henrique.

Em 2002, os eleitores  votaram a favor de um candidato com propostas mais socializantes e populares, elegendo Luiz Inácio Lula da Silva. O petista conseguiu se reeleger em 2006, batendo o tucano Geraldo Alckmin. Lula também conseguiu superar as primeiras e graves denúncias contra seu governo, no episódio do Mensalão, que estourou em 2005.

O discurso do PT favorável às camadas mais humildes da população sensibilizou o eleitorado e Dilma Rousseff foi eleita em 2010. Em 2014, já com sinais bem nítidos da polarização e as denúncias da Lava-Jato em evidência, Dilma conseguiu vencer Aécio Neves. Em todos esses pleitos, o voto proativo foi o denominador comum. Seja em favor da estabilidade econômica, da inclusão social e do combate à pobreza, prevaleceu a posição favorável a uma determinada plataforma política.

Atual cenário

Em 2018, entretanto, este cenário está ameaçado. A mais recente pesquisa do Ibope sobre a intenção de voto para presidente, divulgada na última quinta-feira, informa que, com os atuais postulantes à sucessão de Michel Temer, 33% dos entrevistados pretendem anular o voto ou votar em branco e 8% não sabem em quem votar.

Para se ter uma dimensão da rejeição ao quadro sucessório, Jair Bolsonaro, candidato melhor colocado nas pesquisas, tem um percentual de 17% das intenções de votos. Marina Silva, a segunda colocada, tem 13%. A soma das manifestações do eleitorado em favor dos dois atinge 30%, três pontos percentuais abaixo do número de quem prefere anular o voto ou votar em branco.

No sábado, seis eleitores entrevistados pela Folha de São Paulo citaram, entre as razões que os levam a defender o voto nulo ou branco, revolta diante da corrupção, falta de representatividade dos candidatos, desconfiança e outros argumentos que consolidam o desencanto com os postulantes à presidência da República e também ao Legislativo. A fratura que separa os políticos e a sociedade é grave e o tempo é cada vez mais curto para que haja uma reconciliação.

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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