Em seu primeiro compromisso internacional, Jair Bolsonaro surpreendeu seus críticos e até uma boa parcela de seus apoiadores, que esperavam um discurso mais forte e polêmico na abertura do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Mas, em um pronunciamento curto e objetivo, o presidente optou pelo tom da conciliação, contrariando as expectativas de quem esperava um posicionamento mais radical.

Foi uma declaração atenta à conjuntura mundial contemporânea e destinada a mostrar que o Brasil quer ser incluído na relação de nações desenvolvidas no espaço de tempo mais curto possível. Bolsonaro falou em democracia, desenvolvimento socioeconômico, retomada da confiança mundial no Brasil, conciliação entre preservação ambiental e crescimento econômico, redução da burocracia, geração de emprego e renda e combate à corrupção e à lavagem de dinheiro.

O discurso deve ser entendido como um resumo das propostas de campanha do presidente, um roteiro do que os outros países podem esperar do Brasil nos próximos quatro anos sob a gestão Bolsonaro. Sobre o meio ambiente, preocupação que aflige todas as nações, o presidente ressaltou que sua meta é promover a compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com “o necessário desenvolvimento econômico, lembrando que são interdependentes e indissociáveis.”

O presidente aproveitou para afirmar que “somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós. A agricultura se faz presente em apenas 9% do nosso território e cresce graças à tecnologia e à competência do produtor rural. Menos de 20% do nosso solo é dedicado à pecuária. Essas commodities, em grande parte, garantem superávit em nossa balança comercial e alimentam boa parte do mundo.”

Esse tom de apresentação das bases do seu governo ficou ainda mais explícito quando o presidente discorreu sobre a grave crise econômica vivida pelo Brasil e o que será feito para reverter esse quadro. Bolsonaro falou em oportunidade de mostrar ao mundo “o momento único em que vivemos em meu país e para apresentar a todos o novo Brasil que estamos construindo” em “compromisso de mudar nossa história.”

Em um convite claro para que os investidores internacionais voltem a aportar recursos no Brasil, Bolsonaro afirmou que vai “diminuir a carga tributária, simplificar as normas, facilitando a vida de quem deseja produzir, empreender, investir e gerar empregos. Trabalharemos pela estabilidade macroeconômica, respeitando os contratos, privatizando e equilibrando as contas públicas. O Brasil ainda é uma economia relativamente fechada ao comércio internacional e mudar essa condição é um dos maiores compromissos deste governo.”

O superministro Paulo Guedes foi citado na fala presidencial:  “tenham certeza de que, até o final do meu mandato, nossa equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, nos colocará no ranking dos 50 melhores países para se fazer negócios”, afirmou Jair Bolsonaro, que também mencionou o ministro Sérgio Moro e investimentos pesados em segurança para incentivar turistas estrangeiros a conhecer as belezas naturais do Brasil.

O chanceler Ernesto Araújo foi outro ministro incluído no discurso de Bolsonaro. Ao afirmar que Araújo irá dinamizar as relações internacionais do Brasil, “implementando uma política na qual o viés ideológico deixará de existir”, o presidente se comprometeu a “incorporar as melhores práticas internacionais, como aquelas que são adotadas e promovidas pela OCDE.”

Em sua única crítica às relações econômicas internacionais, Bolsonaro disse que fará uma defesa ativa da reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) com a finalidade “de eliminar práticas desleais de comércio e garantir segurança jurídica das trocas comerciais internacionais.” E afirmou que o Brasil busca ampliar seus negócios com o mundo “de braços abertos.”

Como se vê, um discurso otimista e confiante do começo ao fim. A lamentar apenas que o presidente não tenha detalhado como será a Reforma da Previdência. E, até que esses detalhes não se tornem públicos, o volume de investimentos que o país pode atrair não alcançará o que se espera. Agora é aguardar que as promessas feitas em Davos sejam implementadas no prazo estipulado pelo presidente. Trata-se de uma transformação radical na realidade histórica do nosso país, que não se dará apenas pela força das palavras. É preciso agir. Há urgência para que tais mudanças comecem a ser implementadas.

Gabriel Azevedo

Gabriel Azevedo

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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