O maior problema do Brasil hoje, todo mundo já sabe: o rombo das contas públicas. As ameaças ao que pode ser do país se a reforma da previdência não for aprovada “ontem”, vêm sendo proferidas há muito tempo, com mais intensidade nos últimos dois anos. De nada adiantou… Como o tempo não para, outras decisões vêm sendo tomadas no Legislativo, e a maioria delas, na contramão da receita, ou seja, aumentando gastos públicos.

Enquanto a Copa do Mundo rola na Rússia e o Congresso Nacional se aproveita da fragilidade nacional, o quadro eleitoral se complica. O centro se embola, as extremidades se radicalizam e o ex-presidente Lula, mesmo preso, assombra a urna eletrônica de outubro. A última pesquisa feita pela CNI/Ibope aponta Jair Bolsonaro à frente, mas com apenas 17% dos votos, seguido por Marina Silva, com 13%. Ciro Gomes apareceu com 8% e Geraldo Alckmin, o preferido dos investidores, com apenas 6% dos votos. Quando Lula entra na jogada, ele lidera com 33% dos votos!

Nos cenários econômicos, o Banco Central está no centro das atenções. Nos últimos dias ele reviu a previsão de crescimento do PIB para 2018 para apenas 1,6%, ante 2,6% da estimativa anterior. Ambos os documentos oficiais divulgados pelo BC indicam que o país sentiu fortemente a paralização dos caminhoneiros, com reflexos na inflação e na atividade econômica, “ainda não completamente delineados”, segundo Relatório de Inflação.

Sobre a taxa de juros, tudo pode acontecer, ou melhor, só existem dois cenários possíveis: ou fica onde está por mais alguns meses, ou começa a subir no segundo semestre para evitar um descolamento das expectativas de inflação para 2019 e 2020. Os últimos índices de inflação (IPCA-15 e IGP-M) mostram que o impacto da paralização dos transportes de carga foi intenso e atirou os preços lá para cima, fazendo com que a previsão para IPCA de 2018 se aproxime da meta de 4,5%.

Tio Trump, ops, Tio Sam continua inflando a moeda americana com seus descalabros e bravatas contra a economia internacional. E se engana quem usa a pressão internacional para justificar a maior parte do movimento de alta do dólar aqui dentro. Tudo bem que o mercado doméstico tem acompanhado de perto o que se passa lá fora. Mas a turma coloca um bocado de sal a mais na mistura brasileira, especialmente sobre o Banco Central, que tem colocado vários bilhões de dólares à venda para segurar o ímpeto dos investidores.

Olhando para tudo isso, o Conselho Monetário Nacional resolveu que a meta de inflação de 2021 será de 3,75%, menor, portanto, do que a de 2020, de 4%. A decisão fazia sentido, mesmo considerando os choques dos últimos meses nos preços. Como eles serão temporários, não faz sentido estacionar a meta como fizemos na última década. O livro texto diz que um sistema de metas para inflação não pode dar muito peso à conjuntura nas decisões sobre os objetivos a serem perseguidos pelo BC. Mas no caso atual, desprezar o presente embute um altíssimo grau de risco.

Cabem nesta balança o quadro eleitoral incerto, o clima internacional mais nervoso, os choques de preços e a eficácia das engrenagens da economia para suportá-los sem jogar todo o peso sobre a inflação corrente e, especialmente, a visível fragilidade da economia em seu processo de recuperação. Mas, mais do que tudo isso acima, estamos todos amarrados ao abismo fiscal! Não há regime de metas que funcione, nem com toda credibilidade de um super Banco Central, se não houver equilíbrio nas contas públicas e controle do endividamento soberano.

Afinal, aquele nosso maior problema não tem abalado quem tem o poder de decisão nas mãos. Quanto mais esta corda será esgarçada? A ousadia com futuro demanda competência, sangue frio e muita fé…muita.

Publicado por Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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