Por alguma razão, o brasileiro cismou que a poupança passa a render mais quando a taxa básica de juros cai abaixo de 8,5% ao ano, e a regra de remuneração da caderneta muda. Mas, afinal, a poupança fica mais rentável quando a Selic está baixa? Agora que chegamos ao menor juro da nossa história a poupança está mais vantajosa?

Não nos cansamos de repetir: não, não, mil vezes não! A caderneta de poupança NÃO fica mais rentável quando a queda da Selic dispara o gatilho que muda a sua regra de remuneração. Quando isso ocorre, é hora de correr DA poupança e não PARA ela.

Na verdade, achar que a poupança passa a render mais com uma taxa de juros igual ou inferior a 8,5% nem faz muito sentido, e neste post vamos mostrar por quê.

Como funciona a regra de remuneração da poupança

Vamos relembrar: a caderneta de poupança paga 0,5% ao mês mais Taxa Referencial (TR) quando a Selic está acima de 8,5% ao ano.

Essa rentabilidade vale tanto para a poupança antiga, que são os depósitos em caderneta de poupança feitos até 3 de maio de 2012, quanto para a poupança nova, que são os depósitos feitos a partir de 4 de maio de 2012, quando a regra de remuneração da poupança mudou.

Quando a taxa Selic é igual ou inferior a 8,5% ao ano, aciona-se o gatilho para mudança na regra de remuneração da caderneta. A partir daí, a poupança nova passa a render 70% da Selic mais TR.

Um detalhe: com uma Selic tão baixa, a TR, que tem seu cálculo indiretamente atrelado à taxa básica de juros, costuma ficar zerada. Ou seja, na prática, quando a Selic cai abaixo de 8,5% ao ano, a poupança nova só paga 70% da Selic.

E a poupança antiga? Bem, os depósitos feitos até 3 de maio de 2012 e que permanecem intocados na caderneta continuam rendendo 0,5% ao mês mais TR. Ou, na prática, só 0,5% ao mês.

Por que o brasileiro acha que a poupança fica mais rentável com a Selic baixa?

Existem algumas prováveis razões para tanta gente achar que a poupança fica mais rentável quando a Selic está baixa:

1. Isenção de taxas e impostos

A primeira delas provavelmente é o fato de a poupança ser isenta de taxas e impostos. Outras aplicações conservadoras que têm sua remuneração direta ou indiretamente atrelada à Selic sofrem cobrança de imposto de renda e, em certos casos, também de taxa de administração.

Só que isso por si só não faz com que a poupança fique mais rentável do que outras aplicações conservadoras quando a Selic cai. Afinal, a poupança nova paga 70% da Selic, que é como investir em uma aplicação que renda 100% da Selic, mas seja tributada em 30% em qualquer prazo.

Lembre-se de que há muitas aplicações conservadoras por aí que pagam 100% do CDI ou mais – o CDI é uma taxa de juros que se aproxima da Selic. No Tesouro Direto, o título mais conservador paga a variação da Selic. Mas o IR máximo para as aplicações financeiras é de 22,5%, diminuindo conforme o prazo até chegar ao mínimo de 15%.

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2. Poupança antiga mantém sua remuneração

Outra possível razão para as pessoas acharem que a poupança fica mais rentável com as quedas na Selic é que, de fato, a poupança antiga se torna mais interessante quando o gatilho que muda a regra de remuneração da poupança é acionado.

As aplicações conservadoras e a poupança nova têm as suas rentabilidades atreladas direta ou indiretamente à Selic. Mas a poupança antiga continua pagando 0,5% ao mês mais TR. Mesmo que a TR fique zerada, sua remuneração mínima é de 0,5% ao mês, o equivalente a 6,17% ao ano. Tudo isso com liquidez diária, isenção de imposto de renda e IOF.

Quando a Selic está em 8,5% ao ano, essa rentabilidade representa um retorno líquido de 72,5% da Selic. Mas com a Selic no patamar atual de 6,75% ao ano, trata-se de um retorno líquido de 91% da Selic.

Realmente é difícil encontrar investimentos ultraconservadores com esse retorno líquido. Então, se você ainda tem depósitos na poupança antiga, vale a pena mantê-los onde estão enquanto a Selic estiver no atual patamar, a menos que você deseje investi-los em aplicações menos conservadoras e com potencial de retorno maior.

Aliás, você pode realmente querer fazer esse remanejamento caso a poupança antiga seja uma reserva de longo prazo. Isto, é claro, se você não for um daqueles investidores ultraconservadores sob qualquer circunstância.

Agora, se você tem depósitos na poupança nova, pode acreditar que eles estão rendendo menos e existem aplicações mais rentáveis, conservadoras ou não.

Este provavelmente é o seu caso se você começou a poupar recentemente, usa sua poupança como reserva para fluxo de caixa ou já tem o hábito de poupar todo mês.

Você pode até manter a poupança antiga, mas os valores que você poupa atualmente precisam tomar rumos melhores.

3. A poupança de fato rende mais que aplicações conservadoras caras

Finalmente, essa impressão de poupança mais rentável com juro baixo pode se dever ao fato de a imprensa alardear que até a poupança nova fica mais atrativa do que muitos fundos de renda fixa conservadora.

E isso é verdade, porque boa parte dos fundos conservadores do Brasil tem taxas de administração altíssimas. Principalmente aqueles aos quais a maioria dos poupadores têm acesso: os fundos com aportes iniciais baixíssimos oferecidos pelos grandes bancos.

De fato, se for para investir no fundo DI do seu banco e pagar uma taxa de 2,0% ao ano, melhor ficar na poupança. Além da taxa de administração, o fundo sofre cobrança de IR, além de IOF para aplicações de prazo inferior a 30 dias. Aí, não tem jeito mesmo.

Por exemplo, com a Selic em 6,75% ao ano e a TR zerada, a poupança nova paga 4,73% ao ano. Um fundo conservador com taxa de administração de 2,0% ao ano que renda 100% do CDI antes da cobrança de taxas e impostos terá rendimento líquido entre 3,53% e 4,03% ao ano, aproximadamente, dependendo do prazo de aplicação.

Apesar de caminhar junto com a Selic, o CDI costuma ficar um pouco abaixo da taxa básica. Para fazer os cálculos, consideramos o CDI da data deste post, de 6,64% ao ano, segundo a Cetip.

Por que não faz sentido achar que a poupança rende mais com o juro baixo

Primeiro, porque a rentabilidade da caderneta de poupança não cresce quando a remuneração muda de 0,5% ao mês para 70% da Selic. Ela diminui.

Em outras palavras 70% de uma Selic igual ou inferior a 8,5% resulta numa remuneração menor que 0,5% ao mês. Então, quando é acionado o gatilho que muda a regra de remuneração da poupança, a poupança nova passa a render menos que a poupança antiga.

Quer ver? Na simulação a seguir comparamos as remunerações anuais da poupança nova e da poupança antiga para cada patamar de Selic até o valor atual, de 6,75% ao ano.

Consideramos uma TR igual a zero, que é o que costuma ocorrer nesses cenários. Mas como ambas as remunerações são corrigidas pela TR, a comparação é válida para qualquer valor de TR:

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Conclusão: quando o juro cai para 8,5% ao ano ou menos, a poupança nova passa a render MENOS que a poupança antiga, não mais!

Em segundo lugar, a poupança nova só ganha de investimentos conservadores que pagam pouco e têm custos altos. Mas isso não quer dizer que não existam aplicações de baixo risco que rendam mais que a poupança.

Já mostramos anteriormente que, com uma Selic em 6,75%, a poupança nova é melhor do que um fundo conservador com taxa de administração de 2,0% ao ano em qualquer prazo. Mas e no caso de um fundo barato? Do Tesouro Direto em uma corretora que não cobra taxa? Ou de um CDB que pague um bom percentual do CDI?

Para a simulação a seguir, consideramos um fundo conservador que pague 100% do CDI antes do desconto de taxas e impostos e que cobre a menor taxa de administração do mercado: 0,3% ao ano.

Consideramos ainda um título público Tesouro Selic (LFT) comprado no Tesouro Direto por intermédio de uma corretora que não cobre taxa de administração. Ou seja, a única taxa cobrada é a taxa obrigatória de custódia de 0,3% ao ano. Todo título Tesouro Selic remunera a variação da taxa básica de juros.

Finalmente, consideramos um CDB que pague 100% do CDI antes do desconto de impostos. Em bancos de médio porte é fácil encontrar esse tipo de papel com liquidez diária. CDBs contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), a mesma garantia da poupança, e não sofrem cobrança de taxas, apenas de impostos.

Consideramos, ainda, TR igual a zero e o CDI da data do post, de 6,64% ao ano, segundo a Cetip.

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(*) Isenta de IR.

E aí, ficou comprovado que a poupança não rende mais com juro menor?

Agora, você pode estar pensando: mas mesmo rendendo mais que a poupança, as aplicações conservadoras estão uma porcaria! Em comparação ao que rendiam nos tempos de Selic de dois dígitos e à remuneração da poupança antiga, estão mesmo.

Neste ponto, porém, é preciso ressaltar duas coisas. A primeira é que ninguém deve abrir mão de aplicações conservadoras sob qualquer circunstância. Ao menos uma parte da sua carteira de investimentos deve permanecer aplicada em investimentos de baixo risco, para emergências.

A segunda é que, em tempos de juros baixos, não tem jeito: para conseguir rentabilidades maiores, é preciso correr um pouco mais de risco. A menos que você seja totalmente avesso a riscos, é hora de considerar investimentos menos conservadores para as suas reservas de longo prazo.

Se você ainda não começou a adaptar sua carteira de investimentos para o novo momento, veja o que fazer.

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