Neste domingo, eleitores de Tocantins e de 20 municípios de diversos estados participaram do pleito suplementar convocado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O recado das urnas não foi nada otimista e sinaliza que as eleições gerais de outubro devem ocorrer em um clima que mistura desprezo, revolta e rancor contra os políticos.

Esses sentimentos foram externados de duas formas neste fim de semana: muita gente preferiu fazer outra coisa a votar, aumentando os índices de abstenção, e boa parcela dos que compareceram optou por votar em branco ou anular o voto. Foi um comportamento verificado em muitos locais onde houve eleição no domingo.

Eleições em Tocantins

Em Tocantins, onde ocorreu eleição para um governador que cumprirá mandato até 31 de dezembro, quase metade do eleitorado (49,33%) deixou de votar, anulou o voto ou votou em branco. A soma dos votos dos dois candidatos que foram para o segundo turno, Mauro Carlesse (PHS), com 174.275 votos, e Vicentinho Alves (PR), que teve 127.758 votos, é muito menor que o total de abstenções, votos nulos e brancos.

Essa análise foi feita dia 3 de junho pelo jornalista Josias de Souza, da Folha de São Paulo. Segundo os dados divulgados pelo articulista, a soma dos eleitores que optaram por Carlesse ou Vicentinho é de 302.033 votos, diante de 443.414 eleitores que escolheram não votar, anular ou não escolher ninguém. São números que revelam a dimensão da insatisfação da população.

Números em outros Estados

O resultado das eleições em alguns municípios que escolheram um novo prefeito corrobora a tendência de rejeição. Em Teresópolis, no Rio de Janeiro, o índice de abstenção alcançou 37,13%. Já os votos em branco somaram 12,21% e o número de nulos chegou a 3,02%. Em um colégio eleitoral de 117.047 pessoas, a soma de abstenções, brancos e nulos chegaram ao percentual de 52,36%. Os votos válidos corresponderam a apenas 47,59% das pessoas aptas a votar.

Em Bariri, interior de São Paulo, a abstenção foi de 28%, índice também considerado alto. O fenômeno chegou às pequenas cidades do interior, como Umari, no Ceará, que tem pouco mais de 6.000 eleitores. O índice de abstenção no município foi de 19,90%. Jeremoabo, na Bahia, registrou índice de abstenção de 19,04%.

Eleições menos participativas

Constata-se um cenário de dificuldades para que tenhamos eleições mais participativas em outubro. A crise institucional e econômica gerada pela mobilização de empresários do transporte de cargas e caminhoneiros autônomos deixou reflexos negativos que não serão assimilados pelo país em prazo tão exíguo.

Some-se a isso a total e irreversível incapacidade do governo Temer de criar qualquer fato positivo, seja na esfera política, seja na esfera econômica. Uma tempestade perfeita que leva ao aumento da frustração e da revolta com a política e os políticos, campo profícuo para a disseminação do discurso do “contra tudo o que está aí”.

A tarefa primordial dos políticos, diante do quadro de fragilidade da democracia representativa e do menosprezo pelo voto, é buscar a reconstituição do tecido institucional esgarçado pelas consecutivas e graves crises com que o Brasil convive desde 2015. Não há outro caminho, a não ser que queiramos continuar a flertar com a irresponsabilidade e o autoritarismo de ocasião.

Como isso será feito? Há tempo hábil para que se possa pelo menos conter a expansão do rancor contra a política? Ainda é possível retomar o diálogo com a sociedade? Não há respostas prontas para questões de tamanha complexidade, mas tenho certeza que a inação dos detentores de mandato do Executivo e do Legislativo, como estamos presenciando, não contribuirá para revigorar o combalido sistema democrático brasileiro.

Crises políticas só se resolvem pela via política. E o caminho natural da política é o voto, a representatividade pela escolha livre do eleitor. O pleito de outubro explicita essa verdade e é por isso que todos devem se preocupar com as condições em que a eleição irá ocorrer. Se prevalecer a dicotomia entre políticos e sociedade, os eleitos terão muitos obstáculos a superar a partir de 2019, em especial o futuro presidente da República, seja quem for.

* Gabriel Azevedo escreve todas as terças-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

Comentários

  • Isso só corrobora para o que todos já sabem mas a mídia não quer mostrar para não perder a teta do governo. População esta de saco cheio desses políticos corruptos. É Bolsonaro 2018!

  • Matéria mto bem escrita, tbm confesso que sou fã do Gabriel e do Canal MyNews. Como assessor de investimentos parceiro da Genial, acho que esse canal deve ser melhor veiculado.. como podemos compartilhar isso com nossos clientes.. só tomei conhecimento depois de seguir o perfil do Insta..

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