• A partir de 23 de abril, a curva brasileira de contaminação de Covid-19 piorou de forma significativa. A taxa de crescimento diária de novos casos confirmados passou a apresentar decaimento menos expressivo do que previamente estimado.
  • Novos dados econômicos relativos a março e abril mostraram um impacto econômico do Covid-19 mais severo do que era esperado. Portanto, faz-se necessário reavaliar o cenário econômico frente à extensão das políticas de isolamento social e aos novos dados econômicos divulgados recentemente.
  • Reavaliamos o cenário econômico para 2020 e 2021 frente à evolução recente do surto de Covid-19 no Brasil. Revisamos nossa projeção de PIB para este ano de uma queda de 3,2% para uma queda de 5,4%. Projetamos uma taxa de desemprego encerrando este ano em 15,4% (em taxa dessazonalizada) e inflação de 1,9%.

Evolução Recente

A partir de 23 de abril a curva de contaminação de Covid-19 divergiu da trajetória previamente estimada. Houve um aumento substancial na taxa de crescimento diário dos casos confirmados.

O gráfico abaixo mostra a taxa de variação diária do número de casos confirmados de Covid-19 para o Brasil (linha preta) e a média de quatro países europeus (linha vermelha); Itália, Espanha, Alemanha e França. Fica evidente pela análise visual que a taxa de crescimento de novos casos vinha apresentando decaimento semelhante à média dos países europeus quando controlado pelo número de dias após o centésimo caso.

Contudo, a partir do dia 23 de abril (quadragésimo primeiro dia após o centésimo caso) a taxa de crescimento de novos casos divergiu da tendência de queda vinha apresentando a passou a ficar sistematicamente acima da taxa média europeia. Com a piora da curva de contaminação as medidas de contenção social se estenderão além do que foi previamente estimado (conforme efetivamente ocorreu em São Paulo e Rio de Janeiro), portanto revimos as projeções econômicas para 2020 e 2021.

Evolução Casos COVID-19
Fonte: Elaborado pelos autores com dados da Organização Mundial da Saúde.
As linhas tracejadas em vermelho são dois desvios-padrão da média europeia. Os desvios-padrão foram calculados por uma janela móvel de 15 dias.

Os diferentes cenários são traçados dependem da extensão das políticas de confinamento social. Reavaliamos os três cenários expandindo o período de políticas de confinamento.

Cenário Otimista: Confinamento social começa a ser relaxado de forma uniforme no Brasil a partir da segunda semana de maio (cerca de 50 dias de isolamento social).

Cenário Base: Confinamento social começa a ser relaxado a partir do final do mês de maio (cerca de 60 dias de isolamento social).

Cenário Pessimista: Confinamento social começa a ser relaxado a partir da segunda semana de junho (entre 70-80 dias de isolamento social). Sob o cenário base, projetamos uma queda de 5,4% no PIB deste ano e taxa de desemprego em 15,4% (taxa dessazonalizada).

Tabela Cenário

Cenário Base

O primeiro trimestre já deve sentir os impactos negativos das políticas de isolamento em combate ao Covid-19. Porém, o efeito mais severo ocorrerá no segundo trimestre, onde projetamos uma queda interanual do PIB ao redor de 14% no interanual (com queda de 10,8% em relação ao trimestre anterior na série com ajuste sazonal).

PIB 2020 Variação Interanual
Cenário Base PIB 2020 Var. em relação ao trimestre anterior

Pelo lado da oferta, projetamos uma queda de 4% no PIB da indústria e 6% no setor de serviços neste ano. O gráfico abaixo mostra o impacto da projeção no PIB de cada setor. Apesar da queda mais acentuada no PIB de serviços, programas de manutenção de renda e a dinâmica apresentada pelo setor até o início deste ano proporcionarão uma recuperação no terceiro trimestre.

Já o setor industrial deve sofrer com queda acentuada da demanda externa implicando em uma trajetória de recuperação em ritmo mais lento. Apesar da depreciação cambial observada no primeiro trimestre, o efeito positivo nas exportações é limitado pois o Brasil exporta fundamentalmente commodities, que tem seu preço determinado no mercado internacional e sofrerão queda de demanda global.

PIB dos Setores de Serviço e Indústria

Sob o cenário base, projetamos uma taxa de desemprego que encerra o ano ao redor de 15,4% (taxa dessazonalizada). Revisamos a projeção de inflação de 2,3% para 1,9% em 2020.

Evolução do Desemprego
IPCA, % interanual (fim de período)

Esse cenário de forte recessão com baixa inflação para 2020 persistindo em 2021, principalmente através da inflação de serviços, implica em baixas taxas de juros para este ano e no ano que vem. Projetamos Selic de 2,5% a.a. no final de 2020 e 3,25% em 2021.

Selic eta, % a.a

Após o surto de Covid-19 a economia brasileira necessitará de um nível de afrouxamento monetário bem mais intenso do que o que vimos no passado recente. Além disso, como o país tem capacidade fiscal limitada, a política monetária se torna decisiva na retomada pós-surto. Sob nossa projeção de taxa básica, teremos juro real ex-ante (12 meses à frente) ao redor de 1% em 2020, em média.

Esse cenário base supõe dólar convergindo a R$ 5,0/US$ no fim do ano e alta nos preços de commodities ao redor de 30% até o final de 2020, resultando em um nível de preços um pouco abaixo do observado no início deste ano. Além disso, supõe que a expansão fiscal em combate ao Covid-19 se restringe ao orçamento de 2020, o que implica cumprimento do Teto dos Gastos já em 2021. Mudanças significativas nessas hipóteses levarão à reavaliação do cenário.

Equipe Macro

José Márcio Camargo
Tiago Tristão
Eduardo Ferman

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Publicado por Tiago Tristão

Doutor em economia pela PUC-RJ é analista de atividade econômica na Genial Investimentos.

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