Acompanhar o que está acontecendo na economia brasileira exige um questionamento constante: o que pode ser permanente e o que é conjuntural?

Por exemplo, quando olhamos o comportamento da inflação. Ela está praticamente inerte ao processo de recuperação (gradual) da atividade econômica, ficando insistentemente abaixo de 3%.

Quanto deste patamar é estrutural, ou seja, vai se segurar por aí ao longo do tempo, e quanto é uma resposta ao desemprego e à ociosidade da economia, ambos ainda elevados?

Economia

A mesma coisa podemos nos perguntar sobre o PIB. Os analistas do mercado financeiro têm feito revisões constantes – para pior – nas estimativas para o crescimento de 2018. Quanto mais conhecemos sobre o que se passa na indústria, comércio e serviços, mais confirmamos que a coisa anda lentamente, mais devagar do que se supunha.

Nesta quinta-feira (12/04), o IBGE divulgou o dado do varejo de fevereiro, que apresentou queda de 0,2% em relação a janeiro. A média das expectativas era para uma alta de 0,6%, o que quer dizer que a frustração com o resultado foi grande.

No começo deste ano, as esperanças estavam todas apoiadas no consumo das famílias como grande líder da retomada do PIB. Esta afirmação precisa de reparos.

A dúvida sobre o que é conjuntural e o que é permanente no crescimento da atividade é mais perversa do que no caso da inflação.

Será que os estragos feitos na economia na última década foram tão profundos que comprometeram nossa capacidade de recuperação? Ou será que é só uma questão de tempo para que as famílias e as empresas voltem com mais força?

Emprego

O desemprego poderia ajudar numa resposta, mas não necessariamente com uma boa resposta. A informalidade tem crescido e contribuído mais para a queda da desocupação, o que revela baixa qualidade do trabalho e da geração de renda.

Mesmo a recuperação das vagas com carteira assinada, que não é desprezível, tem acontecido nos setores de menor qualificação e menor remuneração. As revisões para o desemprego esperado para 2018 e 2019 mostram que deveremos seguir com taxas de dois dígitos ao longo de todo este período.

No parque produtivo a ociosidade ainda é grande, apesar de estar diminuindo. Como os economistas gostam de dizer, “por um lado” isto é bom porque afasta o risco inflacionário. Há espaço para produzir mais, atendendo ao aumento da demanda, sem precisar reajustar preços. “Por outro lado”, esta parte ainda “desligada” adia investimentos, a ampliação dos negócios e a contratação de mão de obra.

Juros

Juntando estes ingredientes na panela, o Banco Central está preparando uma nova queda dos juros em Maio, para 6,25% ao ano. O nível recorde da taxa básica deveria nos empolgar o suficiente para nos fazer acreditar que a recuperação tem tudo para ser permanente, mesmo que mais lenta.

Mas isto ainda não aconteceu porque a estratégia do BC é reativa e não proativa.  E nem ele mesmo tem conseguido explicar o porquê de tudo que se passa na economia.

No final das contas, o que tem alimentado a dúvida entre o permanente e o conjuntural são as eleições. Não, eu não esqueci do drama das contas públicas, mas há fôlego para levar o país até 2019 sem rupturas.

Tudo está dependendo do quadro político, agora mais do que nunca. A prisão do ex-presidente Lula acendeu a luz amarela para quem traçava alguma ideia de segundo turno para Presidência da República.

Está dificílimo apontar a vitória de um candidato “reformista”, capaz de sedimentar o que já aconteceu de bom, como a queda da inflação e dos juros, e assegurar a travessia do país para estabilidade e retomada mais robusta da economia.

* Thais Heredia escreve todas as quintas-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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