O primeiro grande movimento estratégico no tabuleiro de xadrez da sucessão presidencial foi dado na semana passada, quando o chamado Centrão, formado por PP, DEM, SD, PRB, PR, PV, PTB, PSD e PPS, decidiu apoiar a candidatura de Geraldo Alckmin. O acordo suprapartidário teve o dom de alterar profundamente o cenário sucessório e, a meu ver, trazer de novo para o centro do ringue PSDB e PT, num embate que conhecemos desde a primeira eleição de FHC, pois se repete desde então.

Centrão

Desta vez, entretanto, tucanos e petistas terão a companhia de Jair Bolsonaro na disputa pelas duas vagas no segundo turno. O ex-militar ficou isolado após a ação do Centrão, dispõe de oito segundos no horário eleitoral gratuito e enfrenta dificuldades para encontrar um candidato a vice que lhe agregue algum benefício. Mesmo assim, tem uma parcela consolidada de votos que, no meu entendimento, o mantém no páreo para ocupar a cadeira de Michel Temer.

Para o PT, a união do Centrão em torno de Alckmin dá a oportunidade de apontar todas as baterias contra o tucano e seus novos aliados. O partido do ex-presidente Lula vai bater pesado, pois a possibilidade de um segundo turno com Bolsonaro é sonho de consumo e se transforma em uma possibilidade real do PT voltar ao poder. O problema é que, preso em Curitiba, Lula mantém o partido refém, e ainda não se sabe quem será o representante da legenda no processo sucessório. Será mesmo Fernando Haddad? Aguardemos.

A movimentação do Centrão também isolou Ciro Gomes, Marina Silva e Álvaro Dias. Os três terão que encontrar, rapidamente, uma maneira de voltarem ao jogo, o que não será nada fácil. Ciro, que flertava com o Centrão e foi traído na última semana, também tem contra si seu destempero, que já lhe causou percalços nesta campanha e leva o eleitorado a desconfiar dele. Marina Silva não empolga. Álvaro Dias, tampouco. Quanto aos demais candidatos, estão destinados à figuração. Os atores principais e os coadjuvantes já estão definidos.

Alckmin, que até então mantinha uma trajetória inexpressiva nas pesquisas de intenção de voto, com alguns líderes tucanos chegando a falar em sua substituição por João Doria, recebeu uma injeção de anabolizante político do Centrão. Passará a ter mais da metade do horário político no rádio e na TV. É um verdadeiro latifúndio de tempo, mas que deverá ser ocupado de forma produtiva e efetiva. Em resumo, o tucano precisa de boa comunicação e de um marqueteiro competente. Precisa caprichar no discurso e, mais do que isso, torcer para que os eleitores acompanhem o horário eleitoral, o que não está assegurado.

Alckmin

Eu resumiria a situação do ex-governador de São Paulo, cercado de apoio e com muito tempo no rádio e na TV, como um produto ruim com ótima rede de distribuição. Pode dar certo, mas também pode falhar. Já vi dar errado em algumas situações. E por que essa é uma ameaça que paira sobre o tucano? Porque ele representa, para grande parte do eleitorado, tudo o que há de ruim na política brasileira. E se aliou a um grupo político que se caracteriza pelo fisiologismo e patrimonialismo. Receber o apoio de Paulinho da Força e Valdemar Costa Neto cobra um preço muito alto. Os adversários usarão isso contra ele.

Bolsonaro

Bolsonaro, ao contrário de Alckmin, não terá tempo de sobra. Oito segundos são virtualmente nada, mas a estratégia acertada de campanha pode levá-lo ao segundo turno. Em Belo Horizonte, em 2016, o atual prefeito dispunha de apenas 23 segundos e conseguiu mudar o quadro sucessório e vencer a eleição. Bolsonaro também poderá usar o discurso de que foi isolado por ser contra a corrupção. Aliás, foi o que ele já fez na convenção que confirmou sua candidatura ao Planalto, no domingo. Se chegar ao segundo turno, terá o mesmo tempo de TV do adversário e aí tudo muda.

PT

Quanto ao PT, a cristalização do voto ideológico é a principal arma do partido, com ou sem Lula na disputa. O ex-presidente, mesmo preso e inelegível, mantém a popularidade intocada e saberá usar esse trunfo. No primeiro turno, como já disse acima, o alvo preferencial do PT será Alckmin, reeditando a guerra política que cindiu o Brasil. Caso a estratégia alcance o objetivo e o partido consiga ir ao segundo turno, teremos uma campanha ainda mais virulenta e agressiva.

Três polos

Volto ao início do raciocínio: teremos uma disputa entre três polos: Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin e o candidato do PT, seja quem for, na disputa pelas duas vagas no segundo turno. Os outros corpos políticos de importância, Álvaro Dias, Marina Silva e Ciro Gomes, vão gravitar em torno dos astros maiores da disputa. Com sua força gravitacional, composta por 1.222 prefeitos, 13.710 vereadores, 164 deputados federais e 17 senadores, o Centrão alterou o quadro que se delineava com Jair e Ciro em vantagem. Há possibilidade de mudança até o início da campanha? Diria que é possível, mas altamente improvável. Estas são as peças no tabuleiro e é com elas que teremos que jogar.

* Gabriel Azevedo escreve todas as terças-feiras para o blog GENIAL. Este artigo reflete as opiniões de seu autor, não necessariamente as da Genial Investimentos.

Gabriel Azevedo é formado em Jornalismo, em Publicidade e em Direito, área na qual obteve seu mestrado. Atua como professor de Direito Constitucional e é diretor da JusBrasil. Entre 2011 e 2014, foi Subsecretário de Estado de Juventude do Governo de Minas e em 2017 assumiu seu primeiro mandato como vereador de Belo Horizonte. No MyNews participa do programa “Segunda Chamada”, apresentado por Antonio Tabet, todas as segundas-feiras, às 20h30.

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