Ditados são populares porque conseguem explicar situações diferentes com a mesma sabedoria e uma boa dose de ironia. Um dito que cabe ao Congresso Nacional neste ano de 2018 é aquele que diz: “se não quer ajudar, não atrapalhe”. Depois de aprovarem pautas consideradas radioativas por muitos anos no país, como a reforma trabalhista e o limite para a expansão dos gastos públicos, senadores e deputados revelaram, sem cerimônia, que não há convicção alguma sobre o que é bom para o país. O fisiologismo é a ordem de grandeza da pauta legislativa este ano.

Na noite desta terça-feira (07/08), os lideres do Senado Federal avisaram que não vão mais votar os Projetos de Lei que permitem a venda das distribuidoras deficitárias da Eletrobrás e liberam os leilões da cessão onerosa da Petrobras. “Só depois das eleições”, sentenciaram Eunício de Oliveira e Cássio Cunha Lima. O PL da Eletrobrás pode evitar mais uma tungada no Tesouro Nacional para cobrir o rombo nas distribuidoras de energia. O PL da Petrobras, não só injetaria uma centena de bilhões no caixa do governo – do próximo governo, diga-se de passagem – mas seria a porta de entrada de um volume considerável de investimentos no país.

Na política é assim mesmo, se o governo não tem força, não consegue avançar com suas pautas no legislativo. O de Michel Temer respira com ajuda de aparelhos, não é novidade, e a caberia a não aderência a pautas que pudessem dar alguma popularidade ao emedebista. A decisão dos senadores que comandam a casa não tem nada a ver com isto, ao contrário, é covardia com o contribuinte brasileiro que terá que pagar a conta das distribuidoras quebradas – obra do governo de Dilma Rousseff, que acabou há mais de dois anos.

Enquanto eles brincam com quem não está para brincadeira, o país segue se arrastando na recuperação econômica, à espera de um milagre. Um milagre que não está dirigido a um santo específico, como um candidato salvador da pátria, ou preferido do mercado financeiro. Um milagre de renovação da consciência coletiva das lideranças públicas do país que passem a tomar decisões baseadas no bom senso, no interesse comum, no incentivo à eficiência e, claro, em última instancia, no crescimento da economia por muitos anos seguidos.

Enquanto o milagre não vem, seria misericordioso contar com responsabilidade da classe política nestas últimas oportunidades que o ano de 2018 oferece para estancar a sangria dos cofres públicos e evitar que o preço da conta a ser paga por todos aumente exponencialmente. Os fundamentos da economia brasileira já levaram todos os desaforos possíveis e, mesmo assim, a inflação – tão cara à todos – segue comportada. Mas é importante que se diga que esta resiliência dos preços não está na funcionalidade esperada da formação de preços no mercado. O que está segurando a ruptura é a paralisia da economia.

Falta pouco menos de dois meses para o primeiro turno das eleições. Pelo andar da carruagem e caminhamos para viver um dia como se fossem 18. Assim, chegaremos exaustos ao final de outubro, com a sensação de termos vivido dois anos numa guerra entre a turma do contra e a turma que não tem o que fazer… a não ser esperar.

Thais Heredia

Thais Heredia

Apresentadora do canal de YouTube MyNews, Thais já foi assessora do Banco Central e repórter da GloboNews. Com pós-graduação em finanças pela FIA, é especialista na cobertura de economia e política. Apresenta o programa “É Pessoal” todas as sextas-feiras no MyNews, às 20h30.

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