Para as empresas que vendem mercadorias no mercado internacional é bom que a taxa de câmbio aumente, pois as mercadorias ficam mais baratas na moeda estrangeira o que torna mais atrativo comprá-las dessa empresa. Já as empresas que importam do mercado internacional vão preferir uma valorização do real perante o dólar. Num país que exportou US$ 174 bi e importou US$ 126 bi entre janeiro e outubro de 2020¹, um aumento na taxa de câmbio agrada a gregos, mas não a troianos. Em resumo, tudo depende da perspectiva de quem observa a taxa.

Diferente do dólar americano, que usufrui de aceitação global e serve de referência para o comércio internacional, o real brasileiro é considerado uma moeda inconversível, o que, em termos um pouco mais técnicos, significa que ela não exerce as funções clássicas da moeda³ no âmbito internacional, podendo mantê-las ou perdê-las (integral ou parcialmente) no ambito doméstico.

Para o cidadão que pretende viajar para o exterior ou comprar produtos importados, fica evidente o impacto da variação cambial no dia a dia, no entanto sabemos que essa percepção não é realidade para a maioria dos brasileiros. De acordo com dados da Anbima, menos da metade dos brasileiros investe. Dos que tinham algum saldo de investimento em 2019, 84% ainda utilizavam a poupança como principal instrumento, e apenas 2% tinham alocações em moedas estrangeiras.

Como o investidor pessoa física faz para ter exposição ao dólar?

No mercado brasileiro, existem instrumentos que possibilitam exposição à moeda americana. Para alguns é necessário o aporte integral, outros não exigem  aporte, e há ainda uma terceira categoria com aporte parcial da exposição desejada. Veja as principais características de instrumentos voltados para a pessoa física:

O que é opção?

A opção é um dos contratos derivativos. Ela permite que se negocie um determinado ativo (ativo objeto), numa determinada data (vencimento), num determinado preço (strike).

O comprador desse contrato, denominado titular, paga um valor (prêmio) e passa a ser detentor do direito de negociar esse ativo objeto.

O vendedor desse contrato, denominado lançador, recebe o prêmio e passa a ter a obrigação de negociar o ativo objeto se o titular decidir exercer seu direito.

Existem opções de compra (CALL) que concedem ao titular o direito de comprar o ativo objeto na data de vencimento por um determinado strike. O lançador dessa call tem a obrigação de vender o ativo ao titular caso ele assim determine.

Existem opções de venda (PUT) que concedem ao titular o direito de vender o ativo objeto na data de vencimento por um determinado strike. O lançador dessa put tem a obrigação de comprar o ativo do titular caso ele assim determine.

O tema deste artigo são as miniopções sobre a taxa de câmbio de real por dólar comercial, já informamos que se tratam de contratos derivativos e, portanto, têm suas regras e informações expressas num documento publicado no site da B3. É fundamental que o investidor leia os contratos antes de utilizar qualquer instrumento.

Vale destacar que cada contrato equivale a USD 10.000,00, e que a cotação nas telas de negociação é expressa em reais por USD 1.000,00.
Para saber quanto será pago efetivamente por essa opção é necessário fazer a seguinte conta:

VLP = P x M x N

  • VLP= valor de liquidação do prêmio
  • P= Prêmio negociado
  • M= fator de multiplicação, estabelecido em 10 para a miniopção de dólar
  • N= número de contratos negociados

Suponha o seguinte:

  • Tipo: CALL
  • Strike: 5.350
  • Vencimento: 4/jan/2021
  • Prêmio: 112 pts.
  • Nº de contratos: 5
  • Preço de referência do WDO (minicontrato futuro de dólar): 5.344

O investidor que comprou essa call tem uma exposição de USD 50.000.

Exposição = Nº de contratos x USD 10.000
USD 50.000 = 5 x USD 10.000

Para calcular quanto irá gastar para adquirir essa call, ele terá que calcular: VLP = P x M x N.

Onde:

                  P   = 112
                  M  = 10
                  N   = 5

VLP = 112 x 10 x 5
VLP = R$ 5.600

Repare que, gastando R$ 5.600, ele adquire uma exposição equivalente a USD 50.000, ou seja, consegue uma exposição alta gastando apenas uma fração desse valor.

Vamos ver qual será o resultado financeiro deste derivativo no dia do vencimento a depender do que acontecer com a taxa de câmbio.

É importante mencionar que a PTAX é publicada pelo BACEN e tem como uma das suas finalidades calcular os preços pelos quais serão liquidados tanto os contratos futuros (mini e cheio) de dólar quanto as opções no vencimento.

Repare que, nos cenários em que a PTAX é inferior ou igual ao strike, o resultado da Call é zero, e o prejuízo equivale exatamente ao valor pago pela opção.

Nos cenários em que a PTAX é superior ao strike, a Call começa a gerar um resultado positivo ao titular. Para saber exatamente o lucro ou prejuízo da operação (L/P) é necessário descontar o valor pago pela opção no início da operação.

Para quem são as opções?

Existem três participantes no mercado financeiro: hedger, especuladores, arbitradores.

  • Hedger: Não visa ao lucro. Sua principal preocupação é se proteger de flutuações nos preços de um determinado ativo. Pense numa empresa que tem uma dívida em dólar que deverá ser honrada em 12 meses. O hedger não quer ficar exposto à taxa de câmbio durante esse prazo e pode querer saber hoje quantos reais irá pagar pela sua dívida. Do mesmo modo, uma empresa com um recebível em dólar quer saber quantos reais irá receber na data de vencimento. Ambos conseguem fazer isto utilizando os inúmeros instrumentos mencionados anteriormente. Imagine agora uma pessoa física que está preocupada com a viagem familiar que fará aos Estados Unidos em alguns meses ou com um empréstimo feito a um amigo que foi morar fora do país e prometeu pagar após se estabilizar. Repare que as situações que inicialmente pareciam ser apenas de âmbito corporativo, na verdade, estão presentes no nosso dia a dia.
  • Especulador: visa obter lucro acertando a direção de um determinado ativo objeto. A ideia principal é comprar barato e vender caro. É o participante que costuma correr mais risco entre os três. Se acreditar na alta do dólar, pode comprar algum ativo que replique uma posição comprada para, posteriormente, vendê-la com lucro.  Nesta categoria se encaixa o day trade comumente praticado pelo investidor pessoa física. Embora seja comum a prática utilizando os minicontratos futuros de dólar, ainda não se observam as opções sendo utilizadas com esta finalidade.
  • Arbitrador: Também visa obter lucro, no entanto, ao contrário do especulador, não corre riscos. Tenta se apropriar de distorções no mercado e tem um papel importante na manutenção dos “preços matemáticos”. Por não correr risco, os retornos obtidos são menos expressivos do que os do especulador. Se notar alguma distorção entre o preço do futuro do dólar (DOLFUT) e o preço do futuro do minidólar (WDOFUT), pode abrir uma posição em um dos ativos e abrir uma posição contrária no outro até que a distorção se ajuste. Mais especificamente no mercado de opções, se notar alguma distorção nos preços das Calls e das Puts existe uma técnica para se apropriar dessa distorção, que será tema de outro artigo no futuro.

Como as miniopções se posicionam nesse universo?

Para responder a esta pergunta, devemos separar a explicação em duas partes: a parte relacionada ao minicontrato e outra relacionada aos contratos de opções em geral.

Cada minicontrato (WDO) equivale a US$ 10.000 e pode ser negociado em múltiplos de 1 contrato, quando comparados ao irmão mais velho, o dólar cheio (DOL), cujo tamanho do contrato equivale a US$ 50.000 e é negociado em múltiplos de 5 contratos, verificamos que os minicontratos garantem uma flexibilidade maior na escolha da exposição à moeda estrangeira. Para justificar a utilização do contrato de DOL, a demanda do agente econômico deve ser no mínimo de US$ 250.000, enquanto no WDO, de apenas US$ 10.000.

O contrato de opções, por sua vez, requer que seja gasto apenas uma fração da exposição desejada. No exemplo anterior, o investidor gastou R$ 5.600 e ficou exposto em US$ 50.000, caso desejasse uma exposição de apenas US$ 10.000, teria desembolsado somente R$ 1.120.

Logo, as miniopções são instrumentos que, inicialmente, requerem o desembolso de apenas uma fração de uma exposição já reduzida quando o titular paga o prêmio da opção. É provável que a maioria das pessoas, ao ler os argumentos deste parágrafo, infiram que o contrato de opções “cheio” é destinado a grandes instituições financeiras e players institucionais, enquanto o contrato de opções mini fica restrito às pessoas físicas e pequenas empresas. No entanto, quando analisamos os contratos e minicontratos futuros, podemos notar que houve uma migração de liquidez do cheio para o mini nos últimos anos, é provável, portanto, que seja observado um movimento similar nas opções.

Quais as principais aplicações para as miniopções?

Além da simples compra de uma call ou put, existem estruturas que podem ser construídas utilizando uma composição de duas ou mais opções, como o tema é extenso, será objeto de outro artigo no futuro.

Que tipo de investidor deveria usar?

Proteção  

O hedger não busca lucro, da mesma forma que quem contrata um seguro não espera bater o carro para utilizar o seguro contratado. A natureza do hedge (operação de proteção) é muito mais passiva do que ativa. Vamos ilustrar isso com um exemplo:

Suponha que você tenha separado R$ 50.000 para uma viagem internacional cuja data de partida é em um mês, e a taxa de câmbio hoje é 5,30. Você compra os dólares agora ou espera a data de partida?

A tabela mostra quantos dólares você consegue comprar hoje e quantos vai poder comprar a depender do patamar da taxa de câmbio na data de partida.

Repare que, quanto menor a taxa na data de partida, mais dólares você consegue comprar. Como é impossível saber qual será a taxa de câmbio numa data futura, só é possível saber se a decisão tomada foi boa ou ruim na data de partida.

Vamos ver como podemos utilizar uma opção de compra neste caso.

  • CALL Vencimento: 1 mês
  • Strike: 5,30
  • Prêmio: 110 pts
  • Quantidade: 1 contrato

O valor desembolsado pela call é de R$ 1.100 para ter uma exposição comprada equivalente a USD 10.000 caso a taxa de câmbio suba acima de 5,30.


Repare que ao utilizar a call cria-se uma previsibilidade muito maior caso a taxa dispare; e ainda é possível se beneficiar de uma queda na taxa de câmbio. Gasta-se um valor baixo (prêmio) para ter direito a essa previsibilidade.

Aposta

O especulador aceita correr riscos visando obter retornos maiores. Aqui é importante não se aventurar sem entender muito bem se os riscos que está correndo são compatíveis com o seu patrimônio. Vamos mostrar um exemplo de um especulador que acredita que a taxa de câmbio vai disparar e resolve se posicionar comprando em um minicontrato futuro de dólar.

(Para fins didáticos, presumimos que o preço do WDO é igual à taxa de câmbio.)

Repare que ele tem lucros e prejuízos ilimitados a depender da taxa de câmbio no vencimento. Em outras palavras, sofre a variação do dólar integralmente.

Vamos ver como este especulador poderia utilizar uma miniopção. Neste caso, ele compra a mesma call do exemplo do hedger.

Aqui, se a aposta der certo, os ganhos serão ilimitados também, mas o prejuízo é limitado ao valor pago pela call.

 
Arbitragem

Envolve conhecimento avançado e capacidade computacional para encontrar as distorções e executar trades opostos em ativos diferentes instantaneamente. Geralmente, só é encontrada em grandes bancos, fundos e participantes institucionais. Não vamos falar sobre esta categoria neste artigo.

Quais os cuidados que deve ter no uso?

Vamos falar sobre os principais pontos de atenção antes de utilizar as opções de minidólar. Toda opção tem um código de negociação, comumente chamado de ticker.

Exemplo: WDOF21C005300

Utilizaremos o ticker para elencar os principais erros a serem evitados ao negociar opções.

1.Como diferenciar se uma determinada opção representa um contrato cheio ou um minicontrato?

WDOF21C005300

A parte destacada mostra que estamos lidando com algum contrato relacionado ao WDO (minicontrato).

2. Como saber o vencimento da opção?

WDOF21C005300

A parte destacada mostra o vencimento em janeiro de 2021. Abaixo, colocamos a tabela de vencimentos padrão da B3.

Os vencimentos começam com a letra, que é seguida pelos dois últimos números do ano e sempre vencem no primeiro dia útil do mês de referência.

3. Como sei se a opção é uma Call ou uma Put?

WDOF21C005300

A parte destacada mostra que estamos lidando com uma Call, se fosse Put, teria a letra P no lugar da C.

4. Como sei o strike da opção?

Essa informação está contida nos últimos seis dígitos do ticker.

WDOF21C005300

A parte destacada mostra que o strike é 5300.

Conclusão

A opção utilizada no exemplo do hedgeré idêntica à utilizada no exemplo do especulador. Repare que o que determina o risco de um instrumento não é única e exclusivamente o contrato que estabelece o seu funcionamento, mas sim a aplicação do instrumento à situação específica. Se faz necessário cada vez mais a difusão de informação e educação financeira para que possamos tomar decisões fundamentadas e em conformidade com nosso patrimônio, nossas metas e nosso perfil de investimentos.

¹Dados da Comex Stat.
²Dados da Anbima.
³ Unidade de conta, meio de pagamento, reserva de valor.

Equipe de Marketplace de Operações Estruturadas

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