Depois de pôr a vida financeira em ordem, quitar dívidas, definir objetivos e estimar quanto eles vão custar, vem mais um desafio: e agora, quanto poupar, em percentual dos meus ganhos, para cada um dos meus sonhos?

Esse é um cálculo feito de trás para frente. Você parte do prazo em que deseja atingir cada objetivo e da rentabilidade que consegue obter em aplicações financeiras. Depois, você vê se o valor que precisa ser poupado cabe no seu orçamento. Se não, você pode precisar rever o valor ou o prazo do objetivo.

O mais seguro é considerar a rentabilidade que pode ser obtida em aplicações de renda fixa conservadora, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), fundos de renda fixa conservadora ou títulos públicos Tesouro Selic (LFT).

No entanto, é bom lembrar que, se você ainda não tem uma reserva de emergência, esse deve ser o seu primeiro objetivo. Destine tudo que você pode poupar para a formação desse colchão financeiro e apenas depois divida sua poupança entre outros objetivos. Falei um pouco sobre isso aqui.

Inflação

O ideal é usar a rentabilidade real, descontando a inflação da rentabilidade do investimento, principalmente se o objetivo for de longo prazo. A menos, claro, que o investimento pretendido já ofereça correção pela inflação.

Para efeitos didáticos, vou usar como exemplo uma inflação anual de 5%. Esse é um percentual muito usado em simulações levando-se em conta o cenário econômico brasileiro pós-hiperinflação.

Mas se você achar que o momento exige uma estimativa maior ou menor, basta considerar outro percentual. Aliás, é importante rever suas estimativas de tempos em tempos, porque o cenário econômico pode mudar.

Primeiro, converta a taxa anual (5% ao ano) em uma taxa mensal. Essa conversão é feita elevando-se a expressão 1+taxa anual em notação decimal pela divisão do prazo da taxa que você deseja achar (no caso, um mês) pelo prazo que você já tem (no caso, um ano, ou 12 meses). No fim, subtraia 1 do resultado para chegar à taxa em notação decimal.

Para ficar mais claro:

Considerando-se uma inflação de 5% ao ano, a expressão será (1+0,05)1/12 -1, o que equivale a 0,00407, ou 0,4% ao mês.

No Excel, a expressão seria escrita como =(1+0,05)^(1/12)-1, onde o símbolo ^ representa a operação de potenciação. O programa permite, ainda, que se inclua a taxa diretamente em percentual, sem necessidade de convertê-la em notação decimal. Dessa forma, poderia ser =(1+5%)^(1/12)-1.

A segunda etapa é calcular a rentabilidade real (acima da inflação) que você vai utilizar nos seus próximos cálculos. Mas atenção: não é o caso de fazer uma subtração simples (rentabilidade da aplicação menos inflação), por se tratarem de juros compostos.

O cálculo é feito por meio de uma operação de divisão: (1+rentabilidade do investimento) sobre (1+inflação). No final, subtrai-se 1 para se chegar à rentabilidade real.

Por exemplo, se for estimada uma rentabilidade líquida de 0,7% ao mês, a rentabilidade real, com a inflação mensal de 0,4%, seria calculada assim: (1+0,007)/(1+0,004)-1. No Excel, ficaria =(1+0,007)/(1+0,004)-1, ou ainda, =(1+0,7%)/(1+0,4%)-1.

O resultado arredondado é 0,003 ou 0,3% ao mês, o mesmo que seria encontrado em uma subtração simples. Mas para taxas mais elevadas, de prazos mais longos, como um ano, a diferença entre o resultado da subtração simples e a rentabilidade real, mesmo arredondada, ficaria bem maior.

Usando as mesmas regras de transformação de uma taxa anual para uma taxa mensal, podemos transformar a rentabilidade de 0,7% ao mês em sua taxa anual correspondente, que é de 8,73%.

Se considerarmos a inflação de 5% ao ano e calcularmos a rentabilidade real da forma correta, chegaremos ao resultado de 3,55%. Mas se simplesmente subtrairmos 5% de 8,73%, resultaremos em 3,73%.

OK, mas quanto investir por mês em cada objetivo?

A simulação a seguir foi feita pelo planejador financeiro certificado (CFP®) Janser Rojo, da QI Financeiro consultoria, especialmente para este post. Ele simulou objetivos e valores de poupança para dois casais hipotéticos.

O casal de 30 anos tem renda mensal de 10 mil reais e deseja dar entrada em um imóvel, financiando o restante (assumiu-se que eles vão substituir o aluguel pelo valor da prestação). Eles também planejam uma viagem dos sonhos.

O casal de 40 anos tem renda mensal de 20 mil reais e deseja poupar para a faculdade dos filhos. Eles também querem poupar para a viagem dos sonhos, que é um pouco mais cara que a do casal mais jovem.

Ambos os casais querem também formar uma reserva de emergência e uma reserva para a aposentadoria.

Foi considerada uma rentabilidade nominal média de 0,8% ao mês (já líquido de impostos e taxas), algo como 10% ao ano. Isso está bem próximo da rentabilidade líquida atual dos investimentos em renda fixa conservadora.

Conforme explicou Rojo, não foi descontada uma estimativa de inflação porque também não foi considerado que a renda aumenta com o passar dos anos.

“Não foi usada a rentabilidade real [acima da inflação] para facilitar o entendimento da simulação e por entender que a inflação também se refletiria em aumento dos salários, o que aumentaria a sobra para compensar a elevação do custo dos objetivos”, diz Rojo.

Um cálculo mais detalhado, com dados reais, deveria levar em conta essas questões, além de rever, de tempos em tempos, as expectativas de rentabilidade, inflação e renda, fazendo reajustes no planejamento.

Casal de 30 anos

Objetivos Custo (R$) Quanto da renda mensal poupar em % Quanto da renda mensal poupar em R$ Prazo (anos)
Reserva de Emergência + Aposentadoria 2 milhões 2% 200 45,88
Viagem 15 mil 4% 400 2,72
Entrada do imóvel 200 mil 4% 400 16,77

Total de poupança mensal necessária: 10% da renda (mil reais), sendo 2% (200 reais) para a reserva de emergência + aposentadoria, 4% (400 reais) para a viagem e 4% (400 reais) para a entrada do imóvel.

Casal de 40 anos

Objetivos Custo (R$) Quanto da renda mensal poupar em % Quanto da renda mensal poupar em R$ Prazo (anos)
Reserva de Emergência + Aposentadoria 4 milhões 5% 1.000 36,49
Viagem 30 mil 4% 800 2,72
Faculdade Filhos 200 mil 6% 1.200 8,81

Total de poupança mensal necessária: 15% da renda (3 mil reais), sendo 5% (mil reais) para a reserva de emergência + aposentadoria, 4% (800 reais) para a viagem e 6% (1.200 reais) para a faculdade dos filhos.

Como foram definidos os valores

A reserva de emergência e a aposentadoria foram consideradas em um mesmo bolo porque, na pior das hipóteses, as reservas de aposentadoria podem reforçar as de emergência; inversamente, se o casal chegar à aposentadoria com a reserva de emergência intacta, esta reforçará a reserva de aposentadoria para gerar renda aos dois aposentados.

Para definir o valor desses dois objetivos, Rojo considerou que ambos os casais desejam receber, na aposentadoria, uma quantia mensal igual à sua renda atual. Para isso, é preciso juntar um valor que renda, em uma aplicação conservadora, o equivalente a essa renda mensal desejada.

Rojo considerou a rentabilidade da poupança, de 0,5% líquido ao mês. Assim, 10 mil reais, renda do casal de 30 anos, corresponde a 0,5% de 2 milhões de reais, e 20 mil reais, renda do casal de 40 anos, é 0,5% de 4 milhões.

Inversamente, eles precisam poupar, respectivamente, 2 milhões e 4 milhões de reais para gerar, na poupança, uma rentabilidade equivalente às suas rendas mensais, de forma à reserva manter-se autossustentável.

E para os demais objetivos?

Rojo simplesmente considerou valores verossímeis, supondo que os casais teriam feito suas próprias pesquisas e chegado a essas estimativas.

Depois de determinar o valor de cada objetivo, você chuta quanto da renda pode ser destinado a eles, tanto em percentual quanto em valores absolutos em reais.

Em seguida, na célula referente ao prazo, você pode aplicar a função NPER para calculá-lo a partir da rentabilidade, do valor presente, do valor futuro desejado e da poupança periódica. Para achar o valor em anos, é preciso dividir a expressão por 12.

Ao inserir a função NPER, o Excel já pede para se preencher com as informações necessárias. O ideal é, para cada uma, selecionar a célula em que elas se encontram, em vez de digitar o valor:

Taxa/rate: taxa de juros paga no período. No exemplo, 0,8% ao mês;
Pgto/Pmt: pagamento feito em cada período. No exemplo, 200 reais por mês;
VP/PV: valor presente ou present value, que é o valor que o casal tem hoje. No exemplo, zero. Se você já tiver alguma reserva, preencha com o valor dessa reserva;
VF/FV: valor futuro ou future value, que é o valor que se quer obter, com sinal negativo na frente (no caso da reserva de emergência + aposentadoria do casal de 30 anos, -2 milhões de reais);
Tipo/type: 0 para aplicações feitas no fim do período, 1 para aplicações feitas no início do período; no exemplo, foi escolhido 1, pois as aplicações são feitas no início de cada mês.

A partir do número de anos encontrado para cada objetivo é possível ajustar o valor a ser poupado, até que se atinja a combinação ideal entre percentual de poupança e prazo.

Você pode ainda mexer na célula da rentabilidade ou modificar o valor do seu objetivo. Se você sempre selecionar as células para preencher as fórmulas, em vez de digitar os valores manualmente, poderá brincar com os valores à vontade até chegar ao cenário que melhor atenda seu orçamento.

Alguns prazos podem parecer muito longos. Mas Rojo lembra que, uma vez que um objetivo de prazo menor é alcançado, os percentuais de poupança podem ser rebalanceados.

“A aposentadoria do casal de 30 anos, por exemplo, levaria quase 46 anos, mas ao conseguirem a casa, poderiam aumentar o valor de sobra para a aposentadoria, fazendo com que pudessem se aposentar mais cedo”, diz.

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