Pagar à vista ou parcelar várias vezes “sem juros”? Você já deve ter ouvido essa pergunta na hora de fazer uma compra ou pagar um tributo de valor mais elevado, mas a resposta não é tão óbvia quanto parece. Não há uma opção intrinsecamente mais vantajosa.

Ponderar as duas opções é importante quando se tem dinheiro guardado suficiente para o pagamento à vista, ou mesmo quando a compra é adiável e é possível poupar para pagar à vista no futuro.

Em primeiro lugar, pensar a respeito só faz realmente sentido se houver desconto para o pagamento à vista.

A rigor, deveria haver sempre, pois o dinheiro tem valor no tempo, e faz diferença, para quem recebe, ser pago agora ou depois. Assim, parcelamento realmente sem juros não existe.

Porém, na prática as coisas são bem diferentes. Nem sempre você consegue desconto no pagamento à vista. Nesses casos, parcelar pode realmente ser mais vantajoso, a menos que você precise preservar o limite do seu cartão de crédito por algum motivo.

Afinal, se o comprador tem dinheiro aplicado, ele continuará recebendo a rentabilidade dos seus investimentos, enquanto paga a sua compra aos poucos.

Contudo, se houver desconto à vista, a coisa muda um pouco de figura. Aí, pagar à vista pode ou não ser mais vantajoso – e geralmente é. Mas vale a pena fazer uma continha para não escorregar.

Calcule os juros embutidos no parcelamento

Os pagamentos de tributos e despesas mais vultosas geralmente ganham desconto quando feitos à vista. É o caso de impostos como o IPTU e o IPVA e dos gastos com mensalidades escolares que você encara no início do ano. Ou mesmo das compras de móveis e veículos.

Para saber se o desconto é vantajoso, é preciso comparar os juros embutidos no parcelamento com o rendimento de uma aplicação financeira – aquela onde suas economias estão investidas ou aquela onde você pretende investir caso opte pelo parcelamento.

Se a aplicação render menos que os juros da operação, pagar à vista vale mais a pena do que parcelar. Se render mais, o parcelamento é mais vantajoso.

Um exemplo: Imagine uma compra no valor de 5 mil reais com 10% de desconto para o pagamento à vista, o que totaliza 4.500 reais. Já o parcelamento “sem juros” se traduziria em 10 prestações de 500 reais.

Ora, o dinheiro tem valor no tempo, uma vez que 500 reais hoje não valem o mesmo que 500 reais daqui a cinco ou dez anos. Quanto mais cedo o vendedor receber, melhor para ele.

Assim, você pode considerar que o preço dessa compra é de 5 mil reais apenas para quem parcela. Seu valor de fato – o valor presente, ou o valor das parcelas trazidas para a data da compra – é de 4.500 reais.

Em outras palavras, o valor à vista, antes dos juros, é 4.500 reais. O valor de 5 mil reais na verdade corresponde aos 4.500 acrescidos de juros durante 10 meses.

Faça as contas

Os dados acima são subsídios para você fazer o seguinte cálculo: qual a taxa de juros de uma compra cujo valor presente é de 4.500 reais, parcelada em 10 vezes de 500 reais cada? Lembre-se de que se trata de juros compostos.

O Excel permite resolver essa conta facilmente, com uma função chamada TAXA ou RATE, se o programa estiver em inglês.

Ao digitar =TAXA (assim mesmo, sem espaço entre o = e a palavra TAXA) no campo de função, aparecerão os campos que você deve preencher com valores. Os seguintes campos são obrigatórios:

– Número de períodos (nper): número de parcelas. No exemplo, 10.
– Valor da parcela (pgto ou pmt): no exemplo, 500.
– Valor presente (vp ou pv): deve vir sempre com um sinal de menos (-) na frente. No exemplo, 4.500.

Outros três valores são opcionais, mas nem sempre dispensáveis:

– Valor futuro (vf ou fv): quanto ainda faltaria pagar após o pagamento das parcelas. Em financiamentos, o mais lógico é que seja zero, valor considerado pelo Excel se essa opção não for preenchida.
– Data de vencimento (tipo ou type): 1 se houver entrada e zero se não houver entrada. Se não for preenchido, o valor que o Excel considera é sempre zero, mas muitos parcelamentos exigem que uma das parcelas seja paga no ato da compra, o que obriga o preenchimento desta opção com o valor 1.
– Suposição ou guess: valor de taxa que o programa começa a “chutar”. Se não for preenchido, o Excel adota, por padrão, uma taxa de 10% ou 0,1.

Assim fica a expressão do exemplo: =TAXA(10;500;-4500;0;0;0,1) ou =TAXA(10;500;-4500;0;1;0,1).

Compare os juros com a rentabilidade de uma aplicação financeira

Aplicando-se essa função ao exemplo, chega-se a taxa de 1,96% ao mês para parcelamentos sem entrada e de 2,42% ao mês para parcelamentos com a primeira parcela de 500 reais paga no ato da compra.

A questão é: a aplicação financeira onde seu dinheiro está aplicado rende, consistentemente, mais do que esses valores ao mês? Ou ainda, a aplicação financeira onde você poderia vir a aplicar seu dinheiro é capaz de render mais do que essas taxas?

Se a resposta for não – e provavelmente será – pagar à vista e aproveitar o desconto é mais vantajoso. Lembre-se de que a caderneta de poupança costuma render entre 0,5% e 0,7% ao mês, mais ou menos.

No patamar atual de taxa básica de juros, as aplicações de renda fixa mais rentáveis que a poupança têm rendido mais ou menos entre 0,8% e 1,0% ao mês, após descontado o imposto de renda.

Quando parcelar é melhor

Os descontos para pagamento à vista costumam ser vantajosos. As taxas de juros de financiamentos são altas no Brasil, especialmente para as pessoas físicas.

Mas o desconto pode não ser suficiente para tornar o pagamento à vista mais atrativo que o parcelamento.

Considere uma compra de 10 mil reais, parcelados em 18 vezes “sem juros” de 556 reais. Se for concedido um desconto de apenas 3%, o parcelamento será mais vantajoso.

O valor à vista dessa operação seria de 9.700 reais. Considerando os valores absolutos, parece um desconto interessante.

Mas 3% é muito pouco, nesse caso. A taxa de juros dessa operação será de 0,32% ao mês se não houver pagamento de entrada, e de 0,37% ao mês se a primeira parcela for paga no ato da compra.

Ambas as taxas são bem menores que o rendimento da poupança e de outras aplicações conservadoras. Em suma, valeria mais a pena deixar o dinheiro rendendo e ir pagando aos poucos.

O mesmo raciocínio vale para calcular se são interessantes os descontos dos tributos oferecidos pelos governos estaduais para tributos como IPTU e IPVA.

No caso do imposto de renda, é ainda mais simples, pois o governo deixa claro que o parcelamento tem juros. E são salgados, pois equivalem à taxa básica de juros (Selic) do período.

Ou seja, para o parcelamento valer a pena financeiramente, o contribuinte precisa ser capaz de ganhar, líquido de impostos e taxas, mais do que a Selic em uma aplicação financeira, tarefa nada trivial.

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