Agora que a taxa básica de juros atingiu seu menor patamar histórico, o investidor brasileiro, especialmente o mais conservador, pode estar se perguntando: será que o retorno da renda fixa, geralmente atrelado ao CDI, ainda será capaz de ganhar da inflação com a Selic em 6,75%? Vamos à comparação CDI x IPCA!

O retorno da renda fixa costuma estar atrelado direta ou indiretamente à taxa Selic. A rentabilidade de alguns investimentos é equivalente à taxa básica, enquanto a de outros corresponde ao um percentual do CDI. O CDI, ou simplesmente DI, é uma taxa de juros que acompanha a Selic de perto.

Para que o retorno da renda fixa conservadora seja capaz de superar a inflação, é preciso que o juro real da economia seja positivo. Chamamos de juro real a diferença entre uma taxa de juros e o índice oficial de preços.

Acontece que um juro real positivo (e alto!) pode ocorrer em épocas de Selic elevada ou reduzida. Basta que a taxa básica seja maior que a inflação.

Se a Selic e o CDI estiverem em um patamar baixo, mas o IPCA se mantiver controlado num patamar menor ainda, o retorno da renda fixa conservadora continuará capaz de preservar o poder de compra do investidor. E como veremos a seguir, é precisamente o que está ocorrendo agora no Brasil.

Juro real alto leva retorno da renda fixa a superar a inflação

O Brasil não tem somente um passado traumático de hiperinflação e uma das taxas de juros nominais mais altas do mundo. Somos também, historicamente, recordistas em matéria de juros reais.

Segundo o Banco Mundial, o Brasil tem ficado entre os cinco países com maiores juros reais do mundo frequentemente desde 1997, data em que se inicia a série histórica sobre o país naquela instituição.

O gráfico a seguir, montado com dados da consultoria Economatica, faz uma comparação CDI x IPCA: comparamos o CDI de 12 meses, que representa o retorno da renda fixa conservadora, com o IPCA de 12 meses, em períodos sucessivos desde 1999, quando foi adotado no país o regime de metas de inflação.

Alguns pontos interessantes do gráfico CDI x IPCA

1) Até agora, a cada período de 12 meses, o CDI sempre foi capaz de superar o IPCA;
2) Na maior parte do tempo, o CDI foi BEM superior ao IPCA. Isto é, a renda fixa conservadora ganhou com folga da inflação;
3) Apesar de a Selic ter chegado ao seu menor patamar histórico em termos nominais, não estamos no nosso menor patamar histórico de juros reais. Este ocorreu no início de 2013;
4) Em diversos momentos desde 1999, o IPCA de 12 meses não superou nem mesmo o CDI atual, de 6,89% ao ano, momento em que a Selic se encontra no seu menor nível histórico.

Gráfico CDI x IPCA de 1999 até agora

CDI e IPCA

(*) O levantamento vai de janeiro de 1999 a janeiro de 2018.

Ou seja, historicamente, na briga CDI x IPCA, o CDI tem conseguido ficar acima da inflação oficial. Consequentemente, o retorno da renda fixa, mesmo a mais conservadora, tem mantido sua capacidade de superar a inflação, mesmo em momentos de Selic mais baixa.

Para uma aplicação conservadora perder da inflação, nos últimos anos, foi preciso acontecer uma dessas três coisas:

1. Ou ela pagou um percentual pífio do CDI, e com certeza havia opções mais rentáveis e de risco similar no mercado;
2. Ou ela cobrava altas taxas de administração que sacrificavam demais a rentabilidade, e certamente havia opções mais baratas no mercado;
3. Ou ela era a caderneta de poupança, pois a poupança tem uma espécie de teto de rentabilidade.

Vale notar, ainda, que juros reais PODEM ser negativos. Mas o Brasil ainda não viveu esse momento, como podemos ver no gráfico.

CDI e IPCA: relação entre juros e inflação

Aqui, convém entender a relação entre taxa de juros e inflação. Governos como o do Brasil usam a taxa básica de juros para controlar o nível da atividade econômica e, consequentemente, a inflação.

Quando a inflação tem tendência de alta, o Banco Central costuma elevar os juros para reduzir a atividade econômica e, com isso, forçar a queda dos preços. Em tempos de inflação baixa e economia deprimida, o corte nos juros estimula o crescimento econômico.

Esse mecanismo de controle da inflação pela taxa básica de juros está explicado com mais detalhes no nosso artigo sobre a taxa Selic.

Conforme vimos no gráfico, o Banco Central do Brasil geralmente só reduz a Selic quando a inflação está suficientemente controlada, a ponto de permitir os cortes de juros sem risco de uma escalada generalizada e repentina dos preços.

Por aqui, até hoje, juros reais e nominais nunca foram negativos. Mas ambas as ocorrências são possíveis.

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Juros negativos

Após a crise de 2008, por exemplo, países desenvolvidos, que já tinham juros e inflação baixos – ao menos comparados ao Brasil – viram a atividade econômica contrair muito. Como consequência tiveram que enfrentar a ameaça da deflação.

A deflação é um fenômeno que pode envolver queda generalizada de preços e desestímulo ao investimento produtivo, pois poupar torna-se mais vantajoso que consumir.

A redução na demanda tende a gerar queda na produção e no nível de emprego, podendo levar ao aumento da inadimplência, quebra de instituições financeiras e até a corridas aos bancos.

Trata-se, portanto, de uma ocorrência perniciosa, que pode resultar em um círculo vicioso de retração econômica.

O corte de juros realizado por esses governos para estimular a economia dos seus países levou certas taxas de juros reais a patamares negativos. Em alguns casos, até os juros nominais caíram abaixo de zero.

Juros negativos também podem ocorrer em países que estão tentando impedir que suas moedas valorizem excessivamente. Isso em geral ocorre com moedas fortes. Taxas de juros negativas afastam os investidores que poderiam correr para investimentos naquela moeda, valorizando-a.

Correr mais risco

Nas duas últimas vezes em que a Selic foi às mínimas históricas (2012/2013 e agora), os investidores passaram a se sentir estimulados a buscar aplicações com mais risco. O objetivo geralmente é preservar os ganhos nominais que as aplicações de baixo risco geravam na época de Selic em dois dígitos.

Essa diversificação da carteira é importante e interessante. Até porque, quando os juros estão no chão, investimentos moderados e arrojados se mostram capazes de dar retornos formidáveis.

Só que nem todo investidor pode ou quer correr mais risco. Alguns são conservadores e ponto final. Mas mesmo aqueles que toleram algum risco devem ter uma parte da carteira alocada em aplicações conservadoras, independentemente do patamar da taxa básica de juros. Todo investidor, mesmo o mais arrojado, precisa ter uma reserva de emergência.

Nesse sentido, a preocupação em relação à capacidade de o retorno da renda fixa ganhar da inflação é justa e razoável.

Quando o investidor deve se preocupar

Ganhar da inflação deve ser uma das principais preocupações de qualquer investidor, em qualquer época. É justamente o ganho acima da inflação que preserva o seu poder de compra e faz seu patrimônio crescer. Em outras palavras, é o retorno real positivo que deixa você mais rico.

Se a rentabilidade dos investimentos conservadores está atrelada à Selic ou ao CDI, eles rendem mais quando a Selic sobe e menos quando a Selic cai.

Mas o que o investidor deve realmente olhar é o juro real. Quanto maior a diferença positiva entre juros e inflação, menos o investidor precisa se preocupar.

Ou seja, desde que a inflação esteja significativamente mais baixa que os juros, o retorno da renda fixa tende a preservar o poder de compra do investidor. À medida que um indicador se aproxima do outro, o investidor deve reavaliar os custos do seu investimento e o percentual do CDI que ele paga.

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Publicado por Genial

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Contentários

  • Obrigado pela excelente "aula" oferecida neste post. Didático, ao explicar com clareza e simplicidade a importância de olhar para o ganho real.

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